Criança isolada sozinha em hospital mostra custo da política de Covid zero na China

Crianças infectadas são separadas de seus pais e colocadas em isolamento hospitalar

Vídeo de menino infectado com Covid-19 dos pés a cabeça viraliza e mostra política de isolamento na China
Vídeo de menino infectado com Covid-19 dos pés a cabeça viraliza e mostra política de isolamento na China Reprodução/CNN

Nectar GanSteve Georgeda CNN

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Coberta da cabeça aos pés com um macacão de proteção química (também conhecido como traje hazmat), uma criança pequena carregando uma mochila com a metade do tamanho de seu corpo caminha cambaleando pelo corredor do hospital até a uma sala de tomografia computadorizada –totalmente sozinha.

“Um menino de 4 anos foi infectado (com Covid-19), infelizmente”, diz a legenda no vídeo. “Sem pais como acompanhantes. Passando a quarentena sozinho”.

A cena, capturada por uma enfermeira em um hospital de quarentena na cidade de Putian, o epicentro do mais recente surto da variante Delta na China, atingiu milhões de pessoas quando se tornou viral nas redes sociais chinesas esta semana.

“Isso dói no meu coração”, disse um dos comentários mais curtidos no Weibo, a plataforma semelhante ao Twitter da China. “Meus olhos estão ficando marejados”, escreveu outro.

O vídeo serve como um lembrete cruel do custo humano da premiada política de Covid zero da China, que ajudou o país a reprimir os múltiplos ressurgimentos do vírus.

O manual de eliminação consiste em colocar bairros inteiros sob lockdown, testar milhões de moradores em questão de dias e isolar rapidamente as pessoas infectadas e seus contatos próximos em instalações próprias.

Desta vez, as medidas rígidas foram aplicadas aos alunos entre os quais o surto foi detectado pela primeira vez e se espalhou rapidamente.

Em Putian, 57 dos 129 casos registrados recentemente são em menores de 12 anos, de acordo com o governo. Para evitar mais transmissão, as crianças infectadas desde a idade do jardim de infância são separadas de seus pais e colocadas no isolamento do hospital.

Em uma entrevista coletiva na quinta-feira (16), o governo de Putian disse que as regras de controle de epidemias da China proíbem os pacientes da Covid-19 de qualquer acompanhante durante o isolamento e tratamento.

Mas, se uma criança e seus pais estiverem infectados, o hospital tentará providenciar que eles permaneçam na mesma enfermaria, disse uma autoridade.

Inicialmente, algumas crianças que entraram em contato com os infectados, mas tiveram resultados negativos, também foram colocadas em quarentena longe de seus pais.

A política foi mais tarde relaxada, com crianças menores de 14 anos recebendo a permissão de ficar com seus pais ou outros membros da família em quarentena –mas o isolamento para crianças infectadas permanece.

Zhu Xiaqing, a enfermeira que fez o vídeo no hospital de quarentena, disse ao jornal local “Fujian Health Daily” que ficou com os olhos cheios de lágrimas ao ver uma ambulância repleta de crianças chegando, todas lacradas em trajes de proteção.

Eles chegaram tarde porque uma das crianças não queria sair de casa e chorou por duas horas antes de ser induzida a entrar na ambulância, disse ela.

Após a chegada, as crianças fizeram exames de tomografia computadorizada sozinhas. Segundo Zhu, algumas eram tão novas que não podiam subir na mesa de escaneamento e tiveram que ser carregadas por um médico.

“Ver crianças sozinhas, sem os pais ao lado, em um hospital que não conhecem e com medo, foi um momento em que meu coração doeu de verdade”, acrescentou.

Na rede social Weibo, alguns usuários questionaram por que crianças tão pequenas não podiam ser acompanhadas por seus pais. Outros apontaram que seus pais provavelmente foram colocados em quarentena centralizada em outras instalações como contatos próximos dos infectados.

“É basicamente uma estratégia de ‘preferir matar mil por engano do que deixar um escapar’”, disse Jin Dongyan, virologista da Universidade de Hong Kong. “As crianças não deveriam passar por medidas de quarentena tão extremas. Este é o custo social da abordagem de tolerância zero”.

A implementação estrita (e muitas vezes agitada) de medidas de contenção já gerou descontentamento antes.

Em junho, centenas de residentes em Foshan, província de Guangdong, protestaram contra semanas de lockdown prolongado em seus bairros. As imagens da manifestação foram rapidamente apagadas da internet.

Nas redes sociais, aqueles que criticaram ou questionaram a política de Covid zero foram atacados e silenciados por ativistas nacionalistas.

A estratégia de Covid zero ainda conta com amplo apoio do povo chinês em geral, muitos dos quais se acostumaram aos benefícios associados a uma vida sem Covid e continuam com medo do vírus – em parte devido à cobertura implacável da mídia estatal sobre a devastação que a pandemia causou no exterior.

“O sucesso da abordagem rigorosa baseia-se em parte no medo do público. Não é o ideal”, opinou Jin. “A maneira correta é contar ao público a verdade (sobre a necessidade de conviver com o vírus), que é a única forma sustentável de seguir em frente”.

Testes em massa de Covid-19 na China
Testes em massa são realizados em toda a China / Barcroft Media via Getty Images

Em todo o mundo, uma lista crescente de países se abriu após vacinações em massa. Outros, como Singapura e Austrália, também estão mudando da estratégia Covid zero para uma nova abordagem de aprender a conviver com o vírus.

Entretanto, o governo chinês permaneceu relutante em suspender as restrições de fronteira, apesar das enormes conquistas em sua campanha de vacinação. Na quinta-feira (16), a China disse que inoculou totalmente 1 bilhão de pessoas com vacinas feitas no país, representando 71% de sua população de 1,4 bilhão.

A taxa de vacinação é maior do que a de muitos países que abriram suas fronteiras, incluindo Reino Unido (64,8%) e Estados Unidos (53,4%).

Jin, o especialista da Universidade de Hong Kong, disse que as autoridades estão preocupadas com a eficácia das vacinas. As autoridades chinesas revelaram que alguns dos primeiros casos em um surto anterior da variante delta aconteceram em pessoas totalmente vacinados.

“Eles estão preocupados que a imunidade social não seja forte o suficiente. Eles não têm confiança suficiente nas vacinas”, afirmou.

A China agora está oferecendo vacinas de reforço para pessoas totalmente vacinadas que trabalham nas fronteiras, alfândegas, instalações de quarentena, hospitais para Covid-19 e no setor de aviação, de acordo com a Comissão Nacional de Saúde, mas ainda não se sabe quanto tempo o efeito dessa dose extra durará.

Por enquanto, o governo chinês provavelmente manterá sua abordagem de tolerância zero ao tentar aumentar a imunidade pública, mas eventualmente precisará aprender a conviver com a Covid-19, disse Jin.

“O país pode continuar por mais um ou dois anos. Mas a China não pode fechar suas portas para sempre”, concluiu.

No hospital de quarentena em Putian, funcionários descobriram várias maneiras de confortar as crianças infectadas. Eles decoraram as enfermarias de isolamento e corredores com pinturas de desenhos animados e forneceram às crianças livros infantis, brinquedos e material de papelaria.

As enfermeiras também brincam com elas após cuidarem de suas necessidades diárias, de acordo com a mídia estatal.

Mas alguns se preocupam que isso não é suficiente.

“Durante o dia, pode ficar tudo bem, mas à noite as crianças ainda ficarão com medo”, comentou uma pessoa no Weibo.

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