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    Especialistas: 7 consequências da guerra na Ucrânia que ainda terão repercussão

    Especialistas ouvidos pela CNN avaliam o cenário decorrente do conflito, que se arrasta pelo 6° mês

    Tiago Tortellada CNN

    em São Paulo

    Este dia 24 de agosto marca a independência da Ucrânia da União Soviética, há 31 anos. Porém, neste ano, a data também simboliza seis meses desde o início da invasão russa contra o país do Leste Europeu.

    As tensões e conflitos entre as duas nações se intensificaram a partir de 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia.

    A guerra atual mexeu com o cenário geopolítico internacional, sendo classificada por alguns líderes mundiais como a “maior crise de segurança na Europa desde a Guerra Fria“.

    Além dos impactos imediatos, como mais de sete milhões de refugiados, mortes e a saída de empresas da Rússia, outras questões devem continuar repercutindo por meses mesmo após o conflito — que não tem um fim à vista no horizonte próximo.

    A CNN ouviu especialistas sobre esses desafios e lista, abaixo, sete deles:

    Duração

    O primeiro ponto inesperado desta guerra é a duração dela. Contrariando a análise de diversos analistas políticos e militares — que avaliavam que uma invasão russa poderia cumprir seus objetivos em poucos dias ou até horas — já se vão seis meses de batalha.

    “O tempo que o conflito está levando é inesperado baseado nas informações que a inteligência russa tinha. Sem dúvida nenhuma, a inteligência russa esperava um término muito mais rápido”, afirma Leandro Cosentino, especialista em Relações Internacionais e professor de Ciências Políticas do Insper.

    Barbara Motta, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe, também entende que “as primeiras análises previam uma vitória muito rápida baseadas no discurso russo e da leitura do Ocidente de como a Rússia empregaria as capacidades militares”.

    Ela explicou que a estratégia russa se difere da praticada, por exemplo, pelos Estados Unidos, que é de uma incursão rápida. Ela recorda, por exemplo, a guerra da Chechênia, em que a Rússia esteve envolvida, que se estendeu por um período parecido.

    Consentino destaca ainda que não houve uma adesão do povo ucraniano contra o governo do país, como se era especulado pelo governo russo.

    “Essa demora no término do conflito pode ter consequências bastante complicadas para ambos os lados. Um esforço de guerra é sempre algo que envolve as populações de maneira bastante complexa em várias áreas”, complementa.

    Reposicionamento do tabuleiro geopolítico

    A guerra tensionou as relações diplomáticas principalmente entre o bloco europeu e a Rússia, mas também gerou reações de outras nações como os Estados Unidos, China, Turquia, Belarus entre outros.

    Consentino ressalta que não se esperava a união do Ocidente e apoio à Ucrânia da forma como decorreu, no que chamou de “reposicionamento do tabuleiro”. Segundo avaliou, esse ponto, assim como o pedido de entrada da Finlândia e da Suécia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), é algo que a Rússia pode não ter previsto.

    Ainda assim, ele avalia que não houve uma dualidade como na Guerra Fria, em que havia dois “lados” do conflito bem estabelecidos. O que acontece atualmente é os países, como a Turquia — que se colocou contra, em um primeiro momento, à adesão dos dois novos membros à Otan –, usarem essa questão a favor de seus interesses nacionais.

    Barbara Motta analisa ainda que a mudança da estratégia de dissuasão da Otan em relação à usada nos últimos anos também é inesperada. Antes, era de forças menores que ficavam localizadas em áreas de risco, podendo ser usadas em caso de um ataque. Agora, de fortalecimento de posições defensivas.

    “Nesse sentido, a Rússia não esperava uma repercussão e engajamento tão forte do Ocidente e tão forte da Ucrânia se considerarmos outras situações”, afirma.

    Consentino destaca também a posição da China em relação ao conflito: “A China começou de uma maneira ambígua, mas em determinados momentos ela tomou, sim, o partido da Rússia, e aí eu acho que isso também deve ter espantado parte dos analistas ocidentais”.

    Crise energética

    A Europa é grande consumidora da energia fóssil proveniente da Rússia, fazendo com que muitas vezes o termo “dependência” surgisse nas discussões sobre o conflito e suas possíveis consequências.

    “A questão do mercado de energia é interessante para pensarmos também os rumos do conflito nos próximos meses. Se, por um lado, os EUA e vários países do Ocidente conseguiram fechar o mercado financeiro para a Rússia, não conseguiram fazer isso com a mesma velocidade com o mercado de energia”, analisa Motta.

    Por mais que pudesse ser esperado que o governo russo usasse essa questão a seu favor, pressionando os países europeus a não tomarem posição ou se engajarem, a extensão da guerra também fez com que o impacto da crise dos combustíveis fosse potencializado.

    “Não se esperava que essa guerra fosse se delongar e, portanto, não se esperava que essa dependência fosse crescer da maneira como ela cresceu”, diz Leandro Consentino.

    Motta complementa que a Europa enfrentará o inverno, estação em que a demanda energética aumenta para o aquecimento de casas e estabelecimentos, por exemplo.

    “Alguns países como França e Alemanha podem se sentir pressionados a diminuir as sanções para suprir a demanda interna. Se isso acontecer e houver mais afluxo de capital para a Rússia, isso pode se traduzir em certo fôlego para um engajamento de maiores proporções do conflito”, analisa a professora.

    A União Europeia chegou a um acordo no final de junho sobre leis para economizar energia e promover fontes renováveis. Os especialistas divergem, porém, quanto a essa questão da transição para a energia renovável.

    “Algo que circulava, vamos dizer, entre comunidade acadêmica, entre organizações não governamentais de caráter ambiental acabou passando para algo importante do ponto de vista de interesse do Estado”, diz Consentino.

    Motta, por sua vez, entende que já havia preocupação com relação a esse assunto por parte dos países Ocidentais, não sendo uma “surpresa”, mas que o conflito coloca um ponto de estresse no tema, o impulsionando.

    Zelensky

    Um outro fato que pode ser considerado como inesperado é, na verdade, um dos principais atores do conflito: o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

    O ex-comediante interpretava um personagem que também era um ator e que, de repente, se tornou chefe de Estado. A realidade não seguiu um roteiro muito diferente.

    “Era alguém que não se esperava quase nada ou muito pouca coisa e que saiu muito maior desse conflito. Ele sai como uma figura de unidade da Ucrânia”, avalia Consentino.

    Zelensky permaneceu no país nos primeiros momentos da guerra, mesmo recebendo propostas de outras nações, incluindo os Estados Unidos, para que fosse levado para outro local. Além disso, constantemente aparece em mensagens de vídeo para a população e fez discursos em muitos Parlamentos do mundo.

    Motta entende que, se analisarmos a relação dos dois países nos últimos anos e outros acontecimentos, o líder ucraniano não é uma surpresa, mas ele se torna um ator útil, principalmente na relação com o Ocidente, para trazer a guerra para o debate internacional.

    Sanções e Putin

    E se, por um lado, o presidente ucraniano pode sair fortalecido — pelo menos por enquanto — não se pode falar o mesmo do líder russo.

    “Não só lideranças saem maiores do conflito, mas eu acho que algumas saem menores. E acho que Putin sai menor do que talvez ele fosse no início desse conflito, com todas as pessoas esperando que fosse muito rapidamente resolvido”, avalia Leandro Consentino.

    Motta também destaca que a Rússia poderia não esperar tantas sanções ao país e, por exemplo, ao presidente Vladimir Putin. Esse ponto se relaciona ao que foi levantado anteriormente de uma resposta coordenada do Ocidente contra o governo e autoridades russas.

    Um fato que surpreendeu parte de analistas à época foi a retirada do país do Leste Europeu do sistema financeiro Swift.

    Refugiados

    Nos primeiros meses de conflito, foi possível observar cenas de ucranianos desesperados atravessando as fronteiras para buscar refúgio em países próximos, assim como outros que não conseguiam deixar os cenários de batalha.

    Segundo a Agência Para Refugiados das Nações Unidas (ACNUR), mais de sete milhões de pessoas deixaram a Ucrânia devido à guerra.

    Barbara Motta avalia que o primeiro momento do confronto, em que a Rússia também lançou ataques diretos à capital e outros centros populacionais mais afastados das fronteiras, gerou um alerta e sensação de insegurança, propiciando essa fuga.

    Porém, ainda segundo a especialista, existe uma tendência de diminuição desse fluxo, pois, assim como há menos pessoas para sair do país, os pontos de confronto se concentram no leste neste momento.

    “A vida em outras regiões do país vai ganhando contornos menos urgentes do que antes. Como se as pessoas se acostumassem a viver em uma dinâmica de insegurança e instabilidade e acabam incorporando isso no seu dia a dia”, explica.

    Grãos

    Mais recentemente, um outro problema relacionado ao combate foi o agravamento da insegurança alimentar com o impedimento de navios cargueiros ucranianos exportarem toneladas de grãos.

    Os dois países envolvidos na batalha são grandes fornecedores de comida para outras nações, gerando pedidos da Organização das Nações Unidas (ONU) para que houvesse uma resolução célere para o impasse.

    Ambos os especialistas entendem que esse é um problema que pode ser resolvido de maneira bilateral entre Rússia e Ucrânia, negociando uma maneira de poupar esse setor e liberar o escoamento da produção de grãos.

    Análise: possível fim do conflito

    Para Leandro Consentino, é difícil prever por mais quanto tempo a batalha durará, com alguns ataques podendo reaquecer o confronto. “A gente sabe como começa uma guerra, mas a gente não sabe como ela termina nem quanto tempo ela leva”, diz.

    Barbara Motta também entende que a incursão pode se estender por mais alguns meses, avaliando que a Rússia emprega uma estratégia de arrastar o conflito. “Conforme as guerras se alongam, não só demais governos, como EUA e membros da Otan, mas a opinião pública vai perdendo o interesse e pressionando seus respectivos governos”, destaca.

    “Além disso, não há sinalização concreta de negociações de paz. Então esse conflito tende a se arrastar e romper a barreira de 2022 para 2023”, complementa a professora.

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