Enem será adiado em pelo menos um mês, anuncia governo


Da CNN, em São Paulo
20 de maio de 2020 às 15:28 | Atualizado 20 de maio de 2020 às 17:30

O governo federal anunciou nesta quarta-feira (20) que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) será adiado em pelo menos 30 dias devido ao impacto da pandemia de Covid-19. A decisão concretiza uma mudança de posição do governo, adotada depois que lideranças do Congresso sinalizaram ao poder Executivo que aprovariam o adiamento. 

Segundo nota oficial do Inep, órgão do Ministério da Educação responsável pela aplicação da prova, "as datas serão adiadas de 30 a 60 dias em relação ao que foi previsto nos editais."

O Enem estava originalmente previsto para os dias 1º e 8 de novembro. A versão digital do exame seria aplicada em 22 e 29 de novembro -- mas engloba apenas 100 mil dos mais de 4 milhões de inscritos para a prova até terça (19), segundo números do MEC (Ministério da Educação). As inscrições terminam às 23h59 desta sexta-feira (22).

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Mais cedo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, havia sugerido o adiamento do Enem por 30 a 60 dias

"Diante dos recentes acontecimentos no Congresso e conversando com líderes do centro, sugiro que o Enem seja adiado de 30 a 60 dias. Peço que escutem os mais de 4 milhões de estudantes já inscritos para a escolha da nova data de aplicação do exame", escreveu Weintraub no Twitter.

Na terça-feira, Weintraub disse no Twitter que iria fazer uma consulta aos inscritos no Enem, por meio do site do Inep, para saber se os estudantes seriam favoráveis ao adiamento. A nota de hoje em que o Inep confirma o adiamento do Enem também diz que os estudantes serão consultados sobre a data do exame em junho, por meio da internet.

Mudança de posição

O anúncio concretiza um processo de mudança na posição de Weintraub e do governo sobre o adiamento do Enem. No começo de abril, o ministro afirmava que o Enem não seria adiado.

Há menos de dez dias, quando as inscrições do Enem foram abertas, o presidente do Inep, Alexandre Lopes, disse à CNN que a data do Enem poderia mudar, mas que ainda não era o momento para discutir o assunto.

Na sexta (15), também em entrevista à CNN, Weintraub considerou publicamente a possibilidade de mudança de data -- mas afirmou que a avaliação sobre o adiamento do Enem só seria feita em agosto.

"Tenho apresentado para senadores e deputados que eu não sou intransigente, é cedo para adiar, vamos esperar dois meses, em agosto a gente avalia, retomamos o assunto. Nesse momento eu considero precipitado e até desumano adiar o Enem", disse.

Bastidores

Com o anúncio do adiamento, o governo federal se antecipou a uma possível derrota no Congresso Nacional, que vinha se movimentando nos últimos dias para aprovar a mudança da data do Enem antes de o MEC tomar uma decisão sobre o assunto.

Nesta terça (19), o Senado aprovou, por 75 votos a um, projeto que previa o adiamento do exame por tempo indeterminado -- o único voto contrário foi de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também deixou claro ao longo da terça-feira que priorizaria o tema na Casa e que não esperaria uma decisão do governo, apesar de fazer a ressalva de que seria "melhor que pudesse vir do presidente uma decisão antes que Senado e Câmara tomassem a decisão de votar".

Hoje, Maia alertou o presidente Jair Bolsonaro de que os deputados iriam discutir o projeto sobre o adiamento. A "sugestão" de Weintraub para a mudança de data teve como estopim uma ligação de Bolsonaro sinalizando que, se o governo não se posicionasse de forma mais incisiva nesse sentido, iria sofrer uma derrota no Congresso, apurou a CNN

Weintraub ouviu também pela manhã em telefonemas com líderes de partidos de centro, como Wellington Roberto, do PL, que eles não conseguiriam segurar a aprovação da matéria na Câmara. Também houve recado do PP de que o anúncio de uma consulta pública para ouvir os estudantes sobre o adiamento da prova era insuficiente para conter o projeto no Congresso. 

Mesmo diante do diagnóstico, Weintraub insistiu em condicionar uma decisão a respeito do adiamento ao resultado da pesquisa com os estudantes. Após a orientação de Bolsonaro e diante de derrota iminente no Congresso, Weintraub anunciou no Twitter proposta de adiamento de "30 a 60 dias" com o "pedido" para que os estudantes sejam ouvidos. 

À tarde, Bolsonaro foi ao Facebook dizer que o adiamento do Enem foi uma decisão sua em conjunto com Maia.

"Por conta dos efeitos da pandemia de COVID-19 e para que os alunos não sejam prejudicados pela mesma, decidi, juntamente com o Presidente da Câmara dos Deputados, adiar a realização do ENEM 2020, com data ser definida", diz o post do presidente.

Leia a íntegra da nota oficial divulgada pelo Inep:

"Atento às demandas da sociedade e às manifestações do Poder Legislativo em função do impacto da pandemia do coronavírus no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e o Ministério da Educação (MEC) decidiram pelo adiamento da aplicação dos exames nas versões impressa e digital. As datas serão adiadas de 30 a 60 dias em relação ao que foi previsto nos editais.

Para tanto, o Inep promoverá uma enquete direcionada aos inscritos do Enem 2020, a ser realizada em junho, por meio da Página do Participante. As inscrições para o exame seguem abertas até as 23h59 desta sexta-feira, 22 de maio."