Vídeo não oferece desfecho a embate com Moro, mas tem implicações ao governo

Políticos e juristas ainda avaliam os possíveis impactos do material da reunião ministerial divulgado pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal

Daniela Lima
Por Daniela Lima, CNN  
23 de maio de 2020 às 18:18


No dia seguinte à divulgação do polêmico vídeo da reunião ministerial que precedeu o pedido de demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, políticos e juristas ainda avaliam os possíveis impactos do filme.

A gravação, de quase duas horas (assista à íntegra no vídeo acima), desnuda uma série de facetas da administração Jair Bolsonaro em seu conjunto e cada uma delas está sob análise e pode surtir efeitos em diferentes setores.

Politicamente, é quase um consenso que o filme reagrupa os militantes mais radicais que apoiam o presidente, mas há dúvidas sobre os efeitos da divulgação da reunião entre setores da elite, do empresariado, dos lavajatistas e dos evangélicos, fatia importante da base de apoio do presidente.

Juridicamente

No que diz respeito ao embate central, entre Moro e Bolsonaro, o conjunto da obra, na avaliação de governadores, prefeitos e juristas, não oferece prova inconteste contra o presidente, mas indica que a versão do ex-ministro tem amparo fático. 

Quase todas as intervenções de Bolsonaro são pontuadas por menções críticas ou cobranças à Justiça ou a Moro nominalmente. O agora ex-ministro chega a deixar a reunião antes do final, após a fala mais incisiva do presidente.

Dado o contexto, em meio a cobranças sobre remessa de informações de órgãos de inteligência, será difícil sustentar a versão de que o presidente estava falando sobre a segurança pessoal de sua família ao mencionar o assunto, avaliam políticos de direta, de centro e da esquerda. 

Bolsonaro reclama abertamente da qualidade das informações enviadas pela Polícia Federal e pela Abin, por exemplo, antes de chegar ao assunto.

O fato de, após a demissão de Moro, Bolsonaro ter de fato trocado a direção da Polícia Federal, abrindo espaço para mudanças também no Rio de Janeiro, seu berço político, compõem o caldo jurídico para análise das acusações feitas pelo ex-ministro.

Ninguém, porém, aposta, neste momento, que o procurador-geral da República, Augusto Aras, está disposto a oferecer denúncia contra o presidente.

Leia também:

Em reunião, Bolsonaro cobra informações de inteligência da PF: 'Vou interferir'

Bolsonaro comenta divulgação de vídeo: 'Farsa desmontada'

Defesa de Moro diz que divulgação permite provar que ex-ministro falou a verdade

Parlamentares pedem investigação e afastamento de ministros após vídeo

Politicamente

O impacto político é um outro capítulo. Por exemplo, ninguém espera que a cúpula das igrejas evangélicas se desprenda do presidente, mas o que está sendo cotejado é a repercussão entre os fiéis que podem se espantar com os termos usados não só por Jair Bolsonaro, mas também por parte expressiva de seu ministério.

A reunião também confirmou a tensão em torno do debate sobre política de recuperação da economia a ser adotada diante da crise, descrita por integrantes do governo na reunião como sem precedentes na história.

Paulo Guedes (Economia) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) travam uma disputa retórica a respeito da estratégia a ser adotada, confirmando a queda de braço que vinha sendo noticiada nos bastidores.

O ministro da Economia explicita no vídeo seu entendimento sobre alguns temas, o que deve ter repercussão. Guedes afirma que a China, maior parceiro comercial do Brasil, "é aquele cara que você tem que aguentar" e mostra certo desprezo pela política tradicional ao dizer que "nós sabemos que nós somos diferentes" e que o governo só deve caminhar ao lado de aliados enquanto lhe for conveniente, para depois soltar as mãos e seguir sozinho.

O ministro ainda dá margem para a interpretação de que a reivindicação do congelamento de salários pode prejudicar governadores e prefeitos politicamente. Ao tratar do tema, diz que "já botamos a granada no bolso do inimigo: dois anos sem reajuste de salários". 

Guedes ainda defende ajuda financeira a grandes empresas e menospreza as pequenas. "Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando as pequenininhas", diz o ministro já na parte final do filme. 

Setores como o de restaurantes têm reclamado sistematicamente da dificuldade de obter financiamentos para manter funcionários e estabelecimentos. A fala do ministro pode desencadear a percepção de que os obstáculos são, na verdade, uma política de Estado. 

VEJA ABAIXO OS PRINCIPAIS PONTOS DA REUNIÃO 

Bolsonaro x Moro

Fica explícito no vídeo que o desconforto entre Bolsonaro e Moro ia além das questões envolvendo a Polícia Federal.

Dirigindo-se diretamente ao ex-juiz, Bolsonaro lembra que decisão do Supremo proibiu o uso injustificado de algemas em prisões e indaga: "Por que estão botando algema [em pessoas que furaram ordem de governos locais de isolamento social] e a Justiça não fala nada? Vão ficar quietos até quando? Só eu me expondo".

Moro sempre deu indicações de que era favorável ao isolamento social, política que irrita Bolsonaro. Ao tomar a palavra, o ex-ministro ignora as cobranças, não faz qualquer comentário a respeito delas. 

Em outro momento, Bolsonaro reclama de nota da Polícia Rodoviária Federal em solidariedade a um policial que havia morrido de Covid-19. O presidente se queixa de menção específica à infecção, sem menção a outras comorbidades. 

E pede "a quem de direito, no respectivo ministério", que dê orientação que contemple aspectos mais amplos nesse tipo de caso. A PRF era subordinada a Moro.

Em outro momento de exaltação, Bolsonaro cobra que o ministro da Defesa e Moro assinem portaria que facilitaria o armamento da população. 

O presidente coloca a queixa em meio à reclamação da ação de governos estaduais e municipais para garantir o isolamento social prevendo punições a quem furasse o confinamento. Bolsonaro classifica a atitude --tomada de maneira muito mais incisiva em países como França e Itália, por exemplo-- como ditatorial e defende armar a população para garantir a insurreição contra essas medidas.

Ele depois diz que quem não estivesse de acordo com suas bandeiras, família e armamento entre elas, estava no governo errado. Moro sempre demonstrou resistência ao tema.

Guedes x Rogério Marinho

Logo no início do filme o ministro da Economia rechaça o uso do termo Plano Marshal para designar o plano Pró-Brasil, que previa investimento público para a retomada da economia. Guedes isiste que a retomada virá pelo investimento privado. 

Marinho, ao tomar a palavra, pede o abandono de "dogmas" e diz que a crise atual é inédita. Ele usa a palavra "catástrofe". 

Marinho lembra que o governo fala em R$ 600 bilhões para socorrer empresas e pessoas físicas e pergunta por que motivo não se destina 10% desse valor para obras públicas, para incentivar empregos e investimentos. 

O ministro do Desenvolvimento Regional diz que o mundo todo está revendo seu receituário. "As coisas não são como eram antes."

Guedes responde ao final, sem nominar Marinho, mas referindo-se diretamente a temas mencionados por ele. Diz: "Se não existe algo aqui é dogma". Ele reafirma que o governo precisa manter a bússola nas reformas e na retomada do investimento privado. 

Governadores

Governadores e prefeitos são atacados em diversos pontos da reunião. Além das críticas feitas pelo próprio presidente, com menções explícitas e também genéricas, outros ministros, como Damares Alves (Direitos Humanos), fazem ofensivas.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, diz que a percepção do mercado financeiro é a de que destinar recursos para prefeitos e governadores é "dinheiro jogado fora".

Damares diz que há violações aos direitos humanos, novamente mencionando medidas tomadas para reduzir a mobilidade social em meio à pandemia, e diz que "estamos inclusive pedindo a prisão de alguns governadores". Ela cita cinco ações. 

Weintraub prega "acabar com essa porcaria que é Brasília", pede "esses vagabundos todos na cadeia, começando pelo STF (Supremo Tribunal Federal)". Diz que o governo foi eleito "para acabar com isso" não para negociar com políticos. 
A declaração teve forte impacto no STF e deve reforçar os esforços pela demissão do ministro. 

STF

O linguajar e o discurso usado pelo presidente e por seus ministros durante a reunião ampliou o fosso entre a corte e o Executivo.

O presidente do Supremo, Dias Toffoli, que vinha tentando fazer pontes entre o STF e o presidente Jair Bolsonaro tende a ficar isolado se insistir na missão.

China

Apesar de o Supremo ter mantido sob sigilo citações mais polêmicas a autoridades e governos da China e do Paraguai, a indisposição de setores do Executivo com a China fica explícita no vídeo. 

Guedes diz que "a China é aquele cara que você tem que aguentar" porque de cada dólar que se vende para os Estados Unidos são três para os chineses. 

Weintraub afirma: "Odeio o Partido Comunista Chinês, que quer transformar a gente em colônia".

Já o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, diz que a globalização vigente é cega e tem "no centro um país que não é democrático e não respeita os direitos humanos".

Repercussão internacional

Governadores e prefeitos acompanharam com atenção, neste sábado (23), a repercussão internacional do vídeo desta polêmica reunião ministerial. 

Segundo eles, a percepção do Brasil no exterior tende a piorar e pode reverter já no início da próxima semana a avaliação do mercado financeiro nacional sobre os impactos do filme. 

Segundo um governador com trânsito no empresariado, as cenas tendem a aumentar a desconfiança sobre os modos e os rumos do governo, em meio à uma pandemia que já matou mais de 21 mil brasileiros.