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    Moro x Bolsonaro: a cronologia de tensões desde 2019, segundo depoimento à PF

    Segundo ex-ministro Sergio Moro, pressão por substituição na direção-geral da PF teria começado em janeiro de 2020

    Anna Satie,

    da CNN, em São Paulo

    No depoimento que prestou à Polícia Federal em 2 de maio, o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro detalhou as tensões com Jair Bolsonaro (sem partido) desde janeiro de 2019, quando os dois tomaram posse.

    Entre os fatos citados pelo ex-juiz, constam a substituição do superintendente da PF (Polícia Federal) no Rio de Janeiro em agosto de 2019 e uma pressão pela substituição do então diretor-geral da corporação, Maurício Valeixo, desde janeiro deste ano.

     

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    Janeiro de 2019:
    Ilona Szabó

    Moro conta que foi Bolsonaro quem solicitou a revogação da nomeação da cientista política Ilona Szabó para uma suplência no Conselho Nacional de Política Criminal do Ministério da Justiça.

    A indicação repercutiu negativamente entre parte de apoiadores de Bolsonaro porque Szabó é abertamente contra a flexibilização da posse de armas. Na nota divulgada após a suspensão, Moro pede desculpas à especialista.

     

    Agosto de 2019:
    A primeira troca na PF

    O ex-juiz diz que o presidente teria solicitado a troca do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saad. Moro teria concordado com a troca, pois o delegado já havia manifestado interesse em sair. O escolhido da PF para substituí-lo foi Carlos Henrique Oliveira Sousa.

    No entanto, Moro conta que, no dia seguinte, o presidente afirmou que era ele quem mandava e que o novo chefe do Rio seria Alexandre Saraiva, da PF em Manaus.

    O ex-ministro disse ainda que, diante dessa interferência, o então diretor do órgão, Maurício Valeixo, teria ameaçado deixar o cargo. Moro narra que conseguiu convencer os dois e Carlos Henrique assumiu o posto fluminense, do qual foi exonerado nesta segunda (5).

     

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    Janeiro de 2020:
    O primeiro anúncio da substituição de Valeixo

    Moro conta que Bolsonaro pediu novamente a substituição do então superintendente da PF no Rio, Carlos Henrique de Oliveira.

    O presidente também anunciou que colocaria Alexandre Ramagem, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), na direção-geral da PF e que Valeixo iria para uma adidância (representação da PF em outro país).

    O então ministro teria respondido que a mudança seria um baque para a credibilidade da Polícia, do governo e do próprio presidente, visto a proximidade de Ramagem à família Bolsonaro. Ele concordou com a troca, desde que o novo escolhido fosse uma escolha menos parcial.

    O presidente teria sugerido outros dois nomes, Alexandre Torres e Carrijo —Moro disse que ambos não teriam qualificação para assumir o posto e são igualmente próximos de Bolsonaro.

    O assunto só voltaria à baila dois meses depois.

     

    Março de 2020:
    “Eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”

    O ex-ministro declarou que estava em missão oficial em Washington, nos EUA, com Valeixo, quando recebeu uma mensagem do presidente, pedindo novamente a substituição na PF do Rio.

    “Moro, você tem 27 superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”, diria o texto. Pessoalmente, o presidente teria dito que precisava de pessoas de sua confiança na PF, com quem pudesse interagir, telefonar e obter relatórios de inteligência.

    Valeixo teria dito que estava cansado das tentativas de interferência e que deixaria o cargo se tivesse outra troca sem motivo no braço fluminense da corporação.

    Moro diz que Bolsonaro também estaria insatisfeito com a condução da superintendência do órgão em Pernambuco —que era chefiada por Carlos Henrique.

     

    22 de abril de 2020:
    Conselho de ministros

    Segundo Moro, durante a reunião de ministros que apresentou o Plano Pró-Brasil, o presidente teria dito que interferiria em “todos os ministérios” e que, se não pudesse trocar a superintendência do Rio, trocaria o diretor-geral e o próprio ministro da Justiça.

     

    23 de abril:
    As reuniões

    Moro relata ter recebido uma mensagem de Bolsonaro com um link de um texto do site O Antagonista, que dizia que a PF estaria “na cola de 10 a 12 deputados do entorno do presidente”. Bolsonaro teria completado: “Mais um motivo para a troca”. As mensagens foram divulgadas por Moro à imprensa.

    No mesmo dia, eles se encontraram pela manhã e Moro pediu que o presidente reconsiderasse. Bolsonaro teria lamentado e dito que a decisão já estava tomada.

    O ex-juiz conta que se reuniu com os ministros Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Braga Netto (Casa Civil) e anunciou que deixaria o governo se a substituição na direção-geral da PF realmente acontecesse. Os generais teriam dito a ele que tentariam convencer o presidente.

    À tarde, Ramos teria ligado para Moro perguntando se haveria uma solução intermediária. Moro verificou com Valeixo e os dois concordaram com a nomeação de Disney Rossetti, então o número dois da PF. Ramos disse que veria com o presidente e retornaria a ligação, o que, segundo Moro, não aconteceu.

    À noite, Moro teria recebido de fontes extraoficiais a notícia de que Valeixo seria exonerado. Ele teria tentado confirmar as informações com Braga Netto e Ramos. O primeiro teria lhe dito que não sabia, o segundo, que iria verificar e retornar, o que, outra vez, não aconteceu.

     

    24 de abril:
    A exoneração no Diário Oficial

    De madrugada, foi publicada no Diário Oficial a exoneração de Maurício Valeixo com a assinatura de Sergio Moro. No depoimento, ele conta que era ele quem assinava os atos de nomeação e exoneração do Ministério da Justiça e Segurança Pública e que jamais delegou a função a um subordinado.

    O ato foi republicado horas depois sem a assinatura de Moro.

    Maurício Valeixo teria contado para Moro que recebeu uma ligação do presidente, que perguntou e a demissão poderia constar como “a pedido”. Ele teria dito que já que a decisão já estava tomada, não poderia impedir, mas que jamais requisitou ser exonerado.

    Moro, então, deixa o cargo. Segundo ele, o pronunciamento que fez foi para “esclarecer as circunstâncias de sua saída”.

    Mais tarde naquele dia, o presidente também discursou, dizendo que Moro teria condicionado sua permanência a uma indicação ao STF, que Valeixo não lhe repassava relatórios da PF e que não houve empenho do órgão para investigar a tentativa de assassinato ao presidente.

    No depoimento, Moro diz o mesmo que publicou em suas redes sociais naquele dia, que se esse fosse o caso, teria aceitado a substituição.

    Ele conta que os relatórios eram disponibilizados pela Abin em um sistema específico, que poderia ser consultado pelo presidente quando quisesse e que, no primeiro semestre de 2019, se reuniu com a PF de Minas Gerais, que apresentou as conclusões do caso. Moro diz que, na época, o presidente não fez qualquer objeção ao caso.

    Ele contou também que havia repassado ao presidente, guardado o devido sigilo, informações sobre as investigações que envolvem o ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, suspeito de organizar um esquema de candidaturas laranjas do PSL na eleição de 2018, e o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), investigado por supostamente receber propinas de empreiteiras.

     

    02 de maio:
    O depoimento à PF

    O ex-ministro depôs na sede da Polícia Federal em Curitiba neste sábado (2), após a Procuradoria-Geral da República (PGR) instaurar inquérito para apurar suas falas durante o pronunciamento de despedida.

    Moro reitera que não acusou o presidente de nenhum crime e que disponibilizaria seu celular para a investigação. Ele avisa, porém, que apenas algumas mensagens estarão disponíveis — ele adotou o hábito de apagá-las periodicamente após ter mensagens capturadas por hackers em 2019.