PCC e CV terroristas: Como governo e oposição reagiram à classificação
Enquanto governo brasileiro evita posicionamento oficial, parlamentares da oposição celebram; base critica a decisão dos Estados Unidos
O PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) foram classificados como organizações terroristas pelos Estados Unidos. A decisão, anunciada pelo Departamento de Estado norte-americano, gerou reações imediatas de políticos brasileiros dos dois lados do espectro político, enquanto o governo federal optou, em um primeiro momento, por não emitir nenhum comunicado oficial.
Segundo apuração da analista de política da CNN Jussara Soares, houve uma reunião de emergência envolvendo pastas como o Ministério da Defesa, o Ministério da Justiça e o Itamaraty para definir como o governo reagiria à decisão.
A conclusão foi de que nenhuma manifestação pública seria feita inicialmente. De acordo com Jussara Soares, o governo tenta calibrar sua resposta de forma a não parecer que está assumindo um discurso de defesa das facções criminosas.
Governo teme consequências diplomáticas e econômicas
O governo brasileiro sempre atuou contra essa classificação. Em visita a Washington, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a pedir que a medida não fosse adotada, sob o argumento de que ela poderia abrir brechas para intervenções dos Estados Unidos no Brasil e impactar a economia do país, caso sanções fossem aplicadas a entidades com alguma ligação com as facções.
A decisão coloca em rota de colisão as posições do Departamento de Estado norte-americano e do governo brasileiro, que desejava uma colaboração de igual para igual no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do crime organizado.
O analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins, destacou que a decisão, tomada de maneira unilateral pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, terá implicações profundas nas relações entre os dois países. "Essa decisão vai ter uma implicação muito grande nas relações entre Brasil e Estados Unidos em vários aspectos", afirmou.
Américo Martins apontou ainda que, com a nova classificação, investigações que antes eram compartilhadas com autoridades brasileiras passam a ser tratadas sob a esfera de segurança nacional americana, o que pode comprometer a colaboração já existente no combate ao crime organizado. No limite, segundo ele, a medida permitiria até ações militares dos Estados Unidos em território brasileiro ou nas águas territoriais do país.
Impacto no sistema financeiro preocupa mercado
O analista de Política da CNN Teo Cury detalhou os riscos econômicos da decisão. Segundo ele, a classificação abre brechas para a aplicação de sanções a instituições financeiras brasileiras que, de forma direta ou indireta, consciente ou inconsciente, permitirem a atuação dessas organizações.
"Um faccionado que mantém alguma relação com um banco pode fazer com que esse banco seja sancionado e seus recursos congelados", explicou. Ele apontou ainda incertezas sobre quem teria autoridade para definir vínculos com as facções — se seria a Justiça brasileira ou o governo norte-americano — gerando insegurança jurídica e instabilidade econômica.
As instituições financeiras brasileiras já teriam acendido um sinal de alerta diante do cenário.
Oposição celebra e base governista critica
Entre os primeiros a se manifestar esteve o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que compartilhou a nota do Departamento de Estado afirmando ser "um grande dia".
Em vídeo, ele defendeu a medida, agradeceu ao governo dos Estados Unidos e afirmou que, em uma viagem ao país, teria feito mais pela segurança pública no Brasil do que o PT em 17 anos.
O senador também acusou o governo atual de não controlar o próprio território nem as cadeias do país e de ser conivente com o crime organizado.
O governador do estado de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), também elogiou a classificação, afirmando que "PCC e Comando Vermelho não são facções, são terroristas armados contra o povo brasileiro e com atuação além das nossas fronteiras".
Tarcísio parabenizou Flávio, a quem atribuiu a articulação para que a classificação acontecesse.
Do lado governista, Lindbergh Farias (PT-RJ) publicou um longo texto afirmando que a decisão "terá consequências negativas para o Brasil, para a economia e os investimentos estrangeiros" e que representa "um ataque brutal à soberania do país".
O deputado federal também acusou a família Bolsonaro de não querer combater o crime organizado, mas sim vulnerabilizar o Brasil e abrir espaço para intervenção militar estrangeira.
A deputada e ex-ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT-PR), por sua vez, chamou os Bolsonaro de "traidores da pátria" por festejar o que classificou como uma ingerência dos Estados Unidos no Brasil, e defendeu medidas como a lei antifacção e a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança Pública.


