Professor: Brasil falha no combate às facções e pode usar EUA para melhorar
À CNN, Rafael Alcadipani afirma que a classificação americana sobreo o PCC e o CV não basta e que a economia brasileira está "contaminada" pelo crime organizado
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) serão classificados como "Terroristas Globais Especialmente Designados" a partir do dia 5 de junho.
A medida, divulgada por Marco Rubio, afirma que a influência e as redes ilícitas das facções brasileiras se estendem muito além do Brasil, por toda a região e para dentro dos próprios Estados Unidos.
Em entrevista ao CNN Prime Time, o especialista em segurança pública Rafael Alcadipani avaliou a decisão e alertou que a designação, por si só, não será suficiente para resolver o problema das facções criminosas no Brasil.
Ao ser perguntado sobre sua posição a respeito da classificação americana, Alcadipani foi direto: "Eu não acredito que essa designação por si só vai resolver o problema das facções criminosas do Brasil." Mas disse que o Brasil pode sim usar da ajuda dos Estados Unidos nesse enfrentamento, principalmente, com fluxo financeiro e de inteligência do crime organizado.
O especialista foi enfático ao cobrar das autoridades brasileiras uma postura mais firme e coordenada. "A gente precisa de um plano nacional sério e consistente de enfrentamento ao crime organizado, que englobe a federação, que englobe os estados, e que a gente pare de brincar com coisa séria", afirmou Alcadipani.
Ele defendeu que o momento eleitoral e a designação dos EUA é oportuno para que a sociedade exija do próximo governo federal e dos governos estaduais que o combate ao crime organizado seja tratado como "prioridade zero".
Questionado sobre o tamanho real da influência do PCC e do CV nos Estados Unidos, Alcadipani ponderou que essa presença não é tão comprovada especificamente no território americano.
"Existe evidentemente a presença do PCC, principalmente de elementos que fazem tráfico de armas para o Brasil, mas a notícia que a gente tem é que a cocaína brasileira vai mais para a Europa, para o norte da África, até mesmo para a Oceania e Ásia", afirmou.
Segundo ele, a presença das facções é muito mais proeminente em países como Bolívia, Colômbia, Peru e Paraguai, sendo que nos Estados Unidos ela é "menor" e "diminuta" em comparação.
Economia brasileira "contaminada" pelo crime organizado
Alcadipani destacou que a infiltração do PCC no sistema financeiro brasileiro representa um problema grave. "O PCC gera muito recurso, muito dinheiro, porque ele é uma empresa de logística de cocaína. Além de praticar outros crimes, ele precisa lavar esse dinheiro e tem que se utilizar de fintechs para fazer essa prática", explicou.
O especialista ressaltou que, embora não seja o sistema financeiro inteiro que esteja comprometido, "há parcelas importantes que sofrem essa contaminação", como foi evidenciado no caso dos combustíveis, gerando danos econômicos tanto nacionais quanto internacionais.
Designação não resolve o problema, mas pode ampliar cooperação
Para ele, o Brasil negligenciou esse problema nos últimos 20 anos, permitindo que as facções crescessem de forma desordenada e se infiltrassem de maneira expressiva na economia e na sociedade brasileiras. Esse descaso, segundo o especialista, acabou abrindo espaço para que o país sofresse esse tipo de sanção internacional.
Apesar do ceticismo, Alcadipani disse esperar que a designação aumente a colaboração entre as autoridades brasileiras e americanas. "Os Estados Unidos têm muito o que ajudar o Brasil nessa questão de fluxos financeiros, até mesmo de preparação das nossas polícias e das nossas forças armadas para fazer esse enfrentamento mais efetivo", disse.
Ele defendeu ainda que o problema, por ter se tornado uma ameaça transnacional, exige uma resposta igualmente transnacional, com integração regional e envolvimento de países da Europa.
Na avaliação do especialista, a cooperação entre agências como o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal é fundamental, e esse modelo de colaboração precisa ser institucionalizado e aprofundado, pois "o crime hoje é multinacional".


