Fiocruz explica como a pandemia atinge grupos mais vulneráveis no Brasil

Fundação alerta, com base em um conjunto de estudos, as diversas razões pelas quais o impacto da doença é maior para uma grande parte da população brasileira

Menino usa máscara de proteção na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro
Menino usa máscara de proteção na favela de Manguinhos, no Rio de Janeiro Foto: Ricardo Moraes/Reuters (9.abr.2020)

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo

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A pandemia de Covid-19 não atinge a todos da mesma maneira. A frase, que num primeiro momento pode parecer senso comum, ganha embasamento a partir de pesquisas científicas desenvolvidas por especialistas das mais diversas áreas como antropologia, bioética, história, medicina, comunicação, ciência política, psicologia, relações internacionais e políticas públicas.

Os impactos da pandemia podem ser mais acentuados para parte da população brasileira de acordo com marcadores sociais diversos, como raça, gênero, classe social, sexualidade, territórios e dinâmica social e econômica. O alerta é da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que lança nesta quarta-feira (28) o livro “Os Impactos Sociais da Covid-19 no Brasil: populações vulnerabilizadas e respostas à pandemia”.

Com a colaboração de quase 70 pesquisadores, o livro apresenta as condições que fazem com que o coronavírus impacte de forma distinta os diferentes contextos socioeconômicos do país. Os estudos ressaltam a maior pressão da pandemia para pessoas em situação de rua, indivíduos com transtorno mental, deficiência, pessoas vivendo com HIV/Aids, LGBTQIA+, moradores de favelas e periferias, população indígena, quilombola, negra, ribeirinha, carcerária, migrantes, refugiados e apátridas, além de trabalhadores informais, crianças e adolescentes. 

Em entrevista à CNN, um dos autores do livro, o psicólogo Gustavo Matta, explicou como cada marcador social influencia no impacto da pandemia de Covid-19 no Brasil.

Saúde mental e atenção psicossocial

A descontinuidade de ações e serviços de atenção psicossocial e o foco prioritário na saúde física das pessoas e no combate ao vírus podem tornar o cuidado com a saúde mental ainda mais desafiador. 

Em um dos capítulos do livro, pesquisadores ressaltam que as repercussões da pandemia sobre a saúde mental não podem ser negligenciadas e que a situação é um terreno fértil para a emergência e o agravamento de quadros de sofrimento psíquico.

Um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em outubro de 2020, apontou que a pandemia havia interrompido serviços essenciais de saúde mental em 93% dos países em todo o mundo, incluindo o Brasil. Ao mesmo tempo, a demanda por saúde mental apresentava tendência de crescimento segundo a pesquisa realizada em 130 países.

“No campo da saúde mental, temos um grupo que necessita de atenção de rotina, como a utilização dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), cuja ausência do atendimento agrava o estado mental. Outro lado atinge a população em geral, que é afetada por questões como medo da morte, a necessidade de isolamento e o confinamento das pessoas que perpassa uma série de atravessamentos”, explicou Gustavo.

Segundo o estudo, o cuidado deve ser redobrado com as populações que já são vulneráveis devido à exclusão social, por estarem expostas a múltiplos fatores de risco à saúde e ao desenvolvimento integral.

A pesquisa destaca as particularidades enfrentadas por pessoas em situação de rua, populações privadas de liberdade, migrantes e refugiados, como a perda ou ausência de vínculos afetivos, condições insalubres de higiene e a alimentação irregular ou escassa.  

No início da pandemia, em março de 2020, a população em situação de rua no Brasil chegou a quase 222 mil pessoas. Os pesquisadores estimam que a acentuação da crise econômica pela Covid-19 tenha levado a um aumento expressivo da população em situação de rua nos últimos meses. Especialistas, no entanto, apontam a ausência de dados atualizados que confirmem o aumento.

A pesquisa destaca que pessoas privadas de liberdade, como a população carcerária, estão potencialmente mais vulneráveis à infecção e à morte em decorrência da Covid-19, em comparação com o restante da população. Fatores como o confinamento em celas superlotadas, com pouca ventilação e acesso limitado a práticas de higiene contribuem para o agravamento da situação. 

Segundo um artigo publicado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), estima-se que na população livre cada infectado contamine de 2 a 3 pessoas, enquanto nas condições de encarceramento nas prisões brasileiras um infectado pode contaminar até 10 pessoas.

A pandemia também acrescentou novas dificuldades à condição de migrantes e refugiados, segundo a análise. Além da perda do vínculo comunitário e afetivo, as diferenças linguísticas e culturais e a dificuldade do acesso a itens essenciais, as pessoas enfrentam inseguranças quanto ao futuro, preconceitos e estigmas e maior chance de exposição ao vírus, pelo grande número de pessoas nas moradias provisórias e permanentes, o que impede o distanciamento social

Em um artigo publicado em maio de 2020, o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) retratou a condição dos migrantes venezuelanos que, sem renda ou serviços básicos passaram a enfrentar situações cada vez mais adversas, em meio à pandemia, na busca por abrigo em outros países da América Latina e do Caribe. 

A situação crítica dos indígenas

Particularmente alarmante, a situação dos povos indígenas diante da Covid-19 levou diversas entidades nacionais e estrangeiras a emitirem notas técnicas e informe alertando para a necessidade de medidas governamentais específicas para retardar a disseminação do vírus e minimizar os impactos da doença para essa população. 

As infecções respiratórias já estavam entre as principais causas de morbidade e mortalidade entre indígenas no Brasil. Segundo o estudo da Fiocruz, a introdução do novo coronavírus nesse cenário potencializou adversidades já existentes, como as crescentes violações de direitos, ameaças e invasões dos territórios.

“O estudo mostra um levantamento epidemiológico de determinadas etnias indígenas, onde houve um impacto elevadíssimo da Covid-19. O vírus tem atingido de maneira bem maior as populações indígenas que outras populações de áreas urbanas e rurais”, ressalta Gustavo. 

Segundo a análise, a dinâmica de transmissão da Covid-19 se mostrou acelerada tanto em áreas urbanas quanto em zonas rurais, atingindo até mesmo áreas de ocupação de povos isolados. Dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) revelam que a epidemia afeta 163 povos indígenas, com cerca de 1.050 óbitos e mais de 52 mil casos confirmados desde o início da pandemia.

O texto salienta que a pandemia evidenciou deficiências do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, braço do SUS de apoio à saúde dessa população. Segundo a análise, foram observadas diversas fragilidades na implementação das medidas governamentais direcionadas à redução dos impactos da disseminação da pandemia na população indígena incluindo baixa testagem, critérios desatualizados e pouco sensíveis para identificação dos casos, e a falta de clareza na recomendação de estratégias de busca ativa de sintomáticos e rastreamento de contatos.

O peso da pandemia é maior para elas

Homens e mulheres são afetados de forma diferente pelas epidemias. Segundo um dos estudos que compõem o livro organizado pela Fiocruz, os homens geralmente sofrem com efeitos primários de surtos, como a probabilidade de morte, e as mulheres com efeitos secundários, como os socioeconômicos. O trabalho defende que a OMS estabeleça critérios para a inclusão de dados sobre gênero no planejamento da resposta a epidemias.

A pandemia tem impactado diretamente o trabalho e a renda das mulheres brasileiras. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dados da Pnad Contínua (2020) mostram que a taxa de desocupação no terceiro trimestre de 2020 foi de 14,6% no total, sendo 12,8% de homens e 16,8% de mulheres. 

Já a Rede Pública Solidária mostra uma presença maior das mulheres nos setores mais afetados economicamente pela pandemia – enquanto homens estão mais presentes em setores chamados essenciais, as mulheres estão mais presentes nos setores não essenciais, como serviços domésticos, salões de beleza, comércio de artigos do vestuário, complementos e calçados.

Dificuldades como a sobrecarga de trabalho e a exposição ao risco de infecção também são mais marcantes entre as mulheres. Para as que permaneceram trabalhando em casa (modalidade conhecida popularmente como home office), a pressão e o acúmulo de responsabilidades colocam em risco a saúde física e mental. Entre aquelas que exercem funções presenciais como as profissionais da área de saúde e trabalhadoras domésticas, o risco do contágio é ampliado devido à grande circulação. 

Segundo o Observatório do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), foram registrados no país, desde o início da pandemia, mais de 54 mil casos de Covid-19 em profissionais de enfermagem e 773 óbitos. A primeira morte por Covid-19 registrada no estado do Rio de Janeiro, em março de 2020, foi de uma empregada doméstica infectada após contato com uma pessoa que havia voltado de viagem ao exterior.

“Um inquérito nacional feito especialmente com profissionais de saúde mostrou que mais de 60% das profissionais das equipes de enfermagem são do sexo feminino. Além da sobrecarga de trabalho, elas sofrem com o isolamento e com o receio de contaminar familiares, e uma série de desdobramentos do ponto de vista de saúde mental incluindo assédio no trabalho, escassez e precariedade no acesso aos Equipamentos de Proteção Individual”, destaca Gustavo.

Subnotificação da Covid-19 nas favelas

O pesquisador Gustavo Matta ressalta que a dificuldade de acesso a dados e informações sobre as populações que moram nas favelas dificulta também a realização de estudos com recortes mais precisos. 

No entanto, o estudo disponível na publicação da Fiocruz ressalta que características como a alta densidade populacional, habitações precárias e oferta insuficiente de serviços como abastecimento de água e coleta de lixo são alguns dos fatores que tornam difícil colocar em prática as orientações de prevenção à transmissão do novo coronavírus, como as medidas de distanciamento social e a higienização das mãos com frequência.

“O avanço da Covid nos espaços de favelas está intrinsecamente vinculado a sua histórica precarização e à manutenção de políticas públicas não efetivas, incapazes de fornecer, no contexto da pandemia, ações de proteção social”, diz o texto.

Nesse cenário, iniciativas como a Sala de Situação Fiocruz Covid-19 nas Favelas, estratégia de produção de informação vinculada ao projeto Observatório Covid-19 Fiocruz, têm possibilitado o fortalecimento da vigilância em saúde na atenção primária, o estabelecimento de canais de acesso às informações sobre essas localidades e o apoio às iniciativas de movimentos sociais que monitoram a dispersão da doença nos territórios mais vulneráveis e implementam medidas de apoio social.

Os resultados do primeiro boletim socioepidemiológico realizado pelo grupo na capital fluminense indicam que casos de contágio e de óbitos apresentaram ocorrência maior em áreas sem favelas e com baixa concentração de favelas. Essas regiões apresentaram maiores taxas de incidência da doença, de 115,58 por 10 mil habitantes e 74,98 por 10 mil habitantes, respectivamente. As duas taxas consideradas acima da média do município do Rio de Janeiro, que foi de 70,71 por 10 mil habitantes. 

Já os bairros classificados como concentração altíssima de favela apresentaram uma taxa de 23,94 por 10 mil habitantes, de acordo com o boletim. Num primeiro momento surpreendente, o resultado sugere, no entanto, que os achados reflitam na realidade o contexto de baixa testagem da população que vive nas favelas.

Resposta à pandemia

Segundo a Fiocruz, o livro pode contribuir para a tomada de decisões no enfrentamento à pandemia – não apenas as ações de gestores públicos, mas também ações individuais e coletivas que podem minimizar o impacto da Covid-19 entre os muitos grupos vulnerabilizados.

“A circulação, transmissão e infecção pelo novo coronavírus é importante de se mapear. Mas ao circular pelas populações e territórios, o vírus também ganha as identidades das iniquidades e desigualdades desses territórios e dessas populações. Uma coisa é entender o vírus do ponto de vista biomédico, outra também importante é compreendê-lo a partir da sua trajetória na relação com a sociedade e com os processos de transmissão inerentes à questão da iniquidade social”, concluiu Gustavo.

O livro “Os Impactos Sociais da Covid-19 no Brasil: populações vulnerabilizadas e respostas à pandemia” é organizado pelos pesquisadores Gustavo Corrêa Matta, Sergio Rego, Ester Paiva Souto e Jean Segata, fruto de uma parceria entre o Observatório Covid-19 Fiocruz e a Editora Fiocruz. A obra será lançada nesta quarta-feira (28) e está disponível para acesso gratuito online na plataforma SciELO Livros.

 

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