A coquetelaria contemporânea é complexa, mas não faz barulho
Impactado pela sociedade que nos bombardeia de informação, o cliente busca cada dia menos espetáculo e mais intenção nos coquetéis

Somos bombardeados de informação o tempo todo. Mesmo quando não queremos. Nossa tela acende por qualquer motivo, o aplicativo envia alertas irrelevantes, as redes sociais jogam novidades sem parar, e a sensação é de estar sempre com a mente em modo “ocupado”. Não pedimos por nada disso, mas recebemos assim mesmo. É um excesso que virou parte da rotina.
E esse excesso, que já faz parte do nosso dia, influencia diretamente como buscamos prazer e descanso. Quando a mente está cheia, a gente passa a selecionar melhor o que merece nossa atenção. Queremos menos esforço, menos explicação, menos camadas de atenção desnecessárias. Isso vale para tudo — inclusive para comer e beber.
Por isso, quando alguém senta num bar hoje, a tolerância ao exagero é muito menor. Ninguém quer ser bombardeado por estímulos. Queremos clareza. Queremos pausa. Queremos um drinque que chegue no tempo certo, com a mensagem certa, sem exigir mais uma concentração indesejada.
E isso não significa drinques simples! Significa experiências diretas.
A coquetelaria atual é a mais complexa de todos os tempos. Atrás do balcão existem técnicas de cozinha, clarificações, reduções, fermentações longas, ingredientes que passam por processos demorados. Tem estudo, tem precisão, tem ciência. A diferença é que nada disso precisa ser empurrado para o cliente. A técnica é profunda — mas não precisa se exibir.
Houve uma época em que muitos bares faziam questão de mostrar tudo: fumaça subindo da bancada, luzes coloridas, gelo seco fazendo efeito no salão, taças com adereços chamativos. A experiência começava antes do drinque, no espetáculo visual, como se fosse preciso causar impacto imediato. Mas o comportamento mudou. Hoje, isso perdeu espaço porque o cliente está buscando outra coisa: menos efeito e mais intenção.
O coquetel pode ter dez etapas invisíveis, mas o cliente só precisa sentir que aquilo está equilibrado. Pode ter camadas de sabor e textura, mas não precisa vir acompanhado de uma justificativa. Pode carregar dias de trabalho, mas não é obrigado a carregar um discurso.
E tem um ponto essencial que muita gente esquece: quando o cliente quer saber mais, o bar deve mostrar tudo.
Se alguém faz perguntas, demonstra curiosidade, pede detalhes, aí sim vale abrir o processo, explicar cada etapa, mostrar que existe repertório real. Isso não se perde. Faz parte da hospitalidade. O que muda é o momento certo de entregar a informação: ela está disponível, mas não é imposta.
Antes, muitos bares pareciam ansiosos demais para explicar cada técnica. Era como se todo drinque precisasse provar que era complexo apenas na fala. Às vezes, a apresentação virava mais um acúmulo de efeitos do que uma experiência.
Hoje isso soa cansativo. O mundo já é cansativo o suficiente. O cliente não quer mais barulho. Quer intenção. E é aí que entra a precisão de editar.
É mais difícil criar um coquetel complexo que chega ao cliente de forma simples do que fazer o simples parecer sofisticado. É mais difícil entregar sabor e textura limpos do que montar um menu cheio de palavras. É mais difícil confiar que o resultado se sustenta sozinho do que se apoiar em enfeite.
Os bares que entenderam isso estão entregando algo raro: um momento de ordem no meio do caos. Menus diretos, descrições honestas, drinks que se explicam sozinhos no paladar e na textura. Técnica que trabalha em silêncio. Resultado que aparece no primeiro gole, não na primeira fala.
Isso também muda o papel do bartender. A melhor hospitalidade hoje não é a que fala mais. É a que percebe mais. A que entende o tempo do cliente, o nível de atenção que ele quer dar à noite e o tipo de experiência que está buscando. Tem gente que quer detalhes. Tem gente que quer paz. Os dois são válidos. O trabalho é acertar o tom.
A coquetelaria amadureceu. Saiu da fase de provar valor. Hoje, bons bares não precisam anunciar técnica. Precisam entregar propósito.
E o cliente sente isso rápido. Sente quando tudo faz sentido sem esforço. Sente quando o equilíbrio de sabor e textura chega limpo, mesmo vindo de um trabalho enorme. Sente quando não tem firula sobrando, nem informação empurrada, nem efeito visual que não sustenta nada.
No fim, num mundo que disputa nossa atenção a cada segundo, talvez o diferencial verdadeiro seja esse: o bar que não tenta disputar nada. Só entrega. Com intenção, clareza e verdade. E se você quiser saber mais, ele te mostra. Mas só quando você pedir.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Nicholas Fullen

Empreendedor do setor de gastronomia e hospitalidade, integrante da Forbes Under 30 (2022) e jurado do Campari Bartender Competition, Nicholas Fullen é sócio-fundador e CPO do Grupo Locale — que reúne o Locale Caffè, Locale Trattoria, Exímia Bar, Oguru Sushi & Bar, Go By Oguru e Poke by Oguru. Nicholas lidera o desenvolvimento de produtos e a estratégia de expansão do grupo.


