Barkatu em São Paulo: alma espanhola e sabores asiáticos no Itaim
Bar de tapas de sabores asiáticos reforça a vocação paulistana de absorver o mundo e devolver com sotaque próprio

Sair para bebericar e petiscar é um ritual que atravessa culturas. Os espanhóis eternizaram o hábito das tapas, mas São Paulo, como sempre, faz do seu jeito. Aqui, "tapear" não é copiar tradição, é reinterpretar. E poucas casas traduzem tão bem essa liberdade criativa quanto o Barkatu, no Itaim Bibi.
O bar e restaurante ocupa um endereço na charmosa e pequenina Rua Carla, no bairro da zona oeste paulista, e já carrega no nome uma espécie de licença poética para misturar referências. Espanha, países asiáticos e um atendimento caloroso, com aquele toque de brasilidade que faz toda a diferença. Barkatu, aliás, significa “desculpa” em basco, mas aqui o pedido soa mais como um charme assumido do que como necessidade real.

Se a base é ibérica, o olhar mira o Oriente. Japão, Tailândia, Índia e Indonésia aparecem como camadas de sabor e técnica no menu inteiro pensado para compartilhar criado pelo chef argentino Julian Rigo, que viveu sete anos na Espanha e está há mais de uma década no Brasil. Ao seu lado, no dia a dia da cozinha, está o chef Kay Rocha, que dá vida (uma vida brilhante, vale dizer) aos pratos.
A seção “Presente dos Mares” apresenta pequenas joias, como o pintxo de atum com gohan frito (R$ 38) e o crudo de peixe do dia (R$ 65), leve e fresco. A kokoda de atum (R$ 84), inspirada nas Ilhas Fiji, traz cubos de atum com leite de coco, cebola roxa, manga e pistache. É fresco, aromático e surpreendente. Já o yakimen (R$ 95) é uma espécie de fideuà com dashi, peixe, lula e aioli, uma ponte direta entre Valência e Tóquio.

Entre as opções vegetarianas, a clássica berinjela no missô (R$ 45) e o tofu com curry e gohan (R$ 58) são ótimas pedidas. Para os carnívoros, quando a brasa entra em cena, prepare-se para se deliciar com a língua ao molho de ostra agridoce (R$ 48), o arroz de pato com lagostim e edamame (R$ 96) ou o perfeito gyukatsu sando (R$ 85), com milanesa de chorizo — daqueles sanduíches que ficam na memória.
Para fechar, a torta basca de queso encontra o matchá, escancarando mais uma vez a mistura de sotaques da casa (R$ 38). A mousse de chocolate, de textura impecável, ganha azeite, flor de sal e togarashi (um mix de temperos asiáticos) e prova que até a mais clássica das sobremesas pode sair da mesmice (R$ 35).

A carta de bebidas acompanha a proposta híbrida: saquês especiais, licores japoneses, vinhos de rótulos menos óbvios e cervejas artesanais. Nos coquetéis, o Bottarga mistura gim, vermute seco, saquê e infusão de botarga. O Yuzu Collins traz vermute da casa, yuzushu e hibisco. Já o Wasabi Sabi combina gim com infusão de wasabi, lillet blanc e licor.
O ambiente, assinado pelo Estúdio Vértices, reforça o encontro nipo-ibérico. Elementos gráficos, intervenções artísticas e uniformes dialogam com essa mistura, criando um espaço intimista e descontraído, com direito a lugares no balcão, parklet com poucas mesas para quem prefere área externa e louças garimpadas mundo afora, uma diferente e mais graciosa que a outra.

Em uma cidade que já viu de tudo, o Barkatu consegue algo raro: pede licença para ousar e consegue, mas entrega junto conforto e comida excelente. Não é apenas mais um bar no badalado e um pouco saturado bairro do Itaim. É um endereço que mostra São Paulo fazendo o que sabe de melhor: absorver o mundo e devolver com identidade própria.
Barkatu: Rua Carla, 77, Itaim Bibi, São Paulo, SP / Reservas por DM do Instagram / Funcionamento: terça a sábado, das 19h às 23h30.


