Chefs, mães e empresárias: o que a maternidade mudou para 6 mulheres
Chefs contam como a maternidade transforma o olhar e o propósito na cozinha e na vida

A rotina de um restaurante raramente admite pausas. O tempo é um recurso escasso em uma profissão que exige presença constante, entre o ritmo da cozinha, a gestão de equipes e decisões que não podem esperar. Quando a maternidade entra nessa equação, o impacto não se limita à agenda: ele atravessa a forma de liderar, de criar e de sustentar um negócio.
Apesar do avanço feminino no setor, a desigualdade ainda é estrutural. Segundo a Organização Mundial do Turismo, as mulheres representam mais da metade da força de trabalho no turismo e na hospitalidade, mas seguem sub-representadas em cargos de liderança. Na alta gastronomia, o cenário é ainda mais restrito: levantamento do Guia Michelin mostra que menos de 10% dos restaurantes estrelados no mundo são comandados por mulheres.
Nesse contexto, a maternidade se torna um ponto de inflexão decisivo. Dados do Global Entrepreneurship Monitor indicam que mulheres são 47% mais propensas do que homens a encerrar um negócio por razões familiares ou pessoais, evidenciando o peso do trabalho de cuidado nas trajetórias profissionais.
Perguntamos a chefs o que mudou em sua relação com a cozinha profissional após a maternidade. Confira os relatos:
Manu Buffara, do Manu Restaurante
A maternidade não entrou na vida da chef Manu Buffara como um capítulo à parte. Ela atravessou tudo, redesenhou prioridades e, principalmente, transformou a sua cozinha.
Mãe de Helena e Maria, a chef percebe uma mudança profunda na forma como cria, pensa e executa seus pratos. Mais do que técnica ou estética, o que ganhou protagonismo foi a intenção. “A minha comida hoje (depois de ser mãe) tem mais verdade, mais emoção”, resume. Existe, segundo ela, uma conexão mais direta com o sabor e com aquilo que realmente importa no prato.

Essa mudança passa também pelo olhar. A maternidade trouxe mais sensibilidade para o essencial, algo que se reflete em todas as etapas do processo criativo, do desenvolvimento do menu à finalização. O resultado é uma cozinha que ela define como mais honesta e direta, sem excessos.
Fora do restaurante, o impacto é igualmente evidente. A experiência de ser mãe ampliou seu senso de responsabilidade e despertou um desejo mais claro de contribuir e devolver à sociedade. É desse lugar que nascem muitos de seus projetos sociais, especialmente os ligados à educação alimentar.
A chef passou a olhar com mais atenção para a forma como crianças e famílias se relacionam com a comida, o que a levou a desenvolver iniciativas voltadas ao tema. Entre elas está o livro "Comidinhas Mágicas" e projetos realizados em escolas públicas no Paraná com foco em ampliar o acesso à informação e estimular uma relação mais consciente com a alimentação.
Como em qualquer rotina que envolve múltiplas frentes, os desafios existem. Conciliar maternidade, carreira e projetos paralelos exige organização e fôlego. Ainda assim, Buffara destaca que hoje existe uma clareza maior sobre o que realmente importa.
Isabel Hagi, da Hagi Torrones & Chocolates
À frente da Hagi, Isabel Hagi diz que a maternidade reorganizou sua forma de trabalhar. Com a filha Aurora, de 1 ano e 10 meses, o tempo encurtou e as decisões passaram a ser mais diretas. “Eu aprendi a improvisar mais, a decidir com rapidez e, principalmente, a priorizar o que realmente importa”, compartilha.
Essa mudança também aparece na maneira como ela se posiciona no dia a dia. “Também tem uma mudança interna, como se eu tivesse encontrado um centro. Mesmo quando surgem imprevistos, existe uma estabilidade que me mantém no lugar. As mães sabem: parece que precisamos estar estáveis e inteiras, e isso impacta diretamente a forma como lidamos com o trabalho e em casa.”

Ao mesmo tempo, o retorno ao trabalho após o puerpério teve papel importante na sua maternidade. Isabel afirma que voltar à Hagi, confeitaria com três lojas em Curitiba e uma em São Paulo, a ajudou a retomar aspectos da própria identidade para além do papel de mãe.
A sociedade com a tia, que também é mãe, é um ponto de apoio, com trocas que ajudam a atravessar essa fase. Hoje, ela leva a filha com frequência para a fábrica e observa o processo de descoberta da criança como parte do próprio cotidiano: “É muito especial ver tudo pelos olhos dela, observar como descobre, aprende e tenta repetir as coisas. Poder apresentar esse mundo para ela pela primeira vez.”
Helena Rizzo, do Maní
À frente do estrelado Maní, a chef Helena Rizzo diz que a maternidade mudou radicalmente sua forma de trabalhar.

"Escolhi ser mãe e, no momento que engravidei, soube que teria de recalcular toda essa dinâmica. Acho que me tornei mais objetiva no trabalho, nas escolhas e decisões. Aprendi a me cuidar mais para estar inteira em todas as frentes e suavizar as pressões outrora canalizadas num único lugar", relata a chef.
Gisela Schmitt, do Gastromar
"O que mais mudou no comando do meu restaurante e do meu projeto depois da maternidade foi a forma como passei a lidar com o tempo e com as pessoas. Naturalmente, é equilibrar muito mais pratinhos ao mesmo tempo. Passei a valorizar ainda mais a qualidade do tempo, tanto dentro quanto fora da cozinha, e a buscar mais clareza e objetividade no dia a dia", diz Gisela Schmitt, à frente do projeto Gastromar.

A chef conta que sempre construiu seu trabalho baseada nas relações, mas a maternidade trouxe novas camadas para esse olhar. "Fiquei mais sensível às diferentes realidades, mais atenta às limitações e mais aberta a escutar." No Gastromar, onde conta que a equipe funciona quase como uma grande família, isso se reflete diretamente na forma de liderar.
"Também tem uma descoberta importante, que é perceber que eu dou conta de muito mais do que imaginava. A maternidade traz uma força e uma grande capacidade de adaptação". De forma natural, esse lugar de cuidado, de escuta e de condução que existe na relação com os filhos acaba atravessando também as relações de trabalho.
"O mais desafiador é equilibrar tudo isso. Existe uma divisão de presença inevitável e uma tentativa constante de estar inteira nos dois lugares. Ao mesmo tempo, isso me levou a criar processos melhores, otimizar o tempo de todo mundo e elevar ainda mais a qualidade do que entregamos", arremata Gisela.
Marie France, do La Casserole
Quando assumiu o comando do La Casserole aos 30 anos, Marie France estava grávida do primeiro filho. A transição coincidiu com a aposentadoria dos pais, fundadores do restaurante, e marcou uma mudança simultânea na vida pessoal e profissional.
“Foram duas gravidezes ao mesmo tempo, praticamente", descreve. “Comandar o restaurante e ser mãe tem muitas similaridades, e com certeza um impactou no outro. A mesma disponibilidade e acolhimento que o serviço de salão em um restaurante pede, vi refletida na criação do meu filho”, reflete. Durante o expediente noturno, Marie conciliava as duas frentes com idas e voltas para amamentar o filho, Alex. A logística dependia de uma rede próxima, com destaque para o apoio do então marido, que acompanhava a rotina e dividia os cuidados.

Segundo ela, a experiência consolidou a possibilidade de manter o negócio em funcionamento sem interromper a maternidade. A sobreposição de responsabilidades marcou o início da sua gestão à frente da casa, que já fazia parte da sua história desde a infância. Hoje, Marie comanda o endereço ao lado de seu segundo filho, Leo Henry.
Olivia Maita, da Oli Pizzas Artesanais
Fundadora da Oli, Olivia Maita viveu o início da maternidade ao mesmo tempo em que atravessava uma mudança importante no negócio. O nascimento do primeiro filho coincidiu com a transferência da operação da Vila Madalena para o Itaim Bibi, e a nova unidade foi aberta enquanto ela ainda estava no puerpério.

Olivia descreve o período como intenso: “Eu nem me recordo muito bem como consegui dar conta de tudo. Acho que, na verdade, além de uma rede de apoio muito maravilhosa, também tenho funcionários que estão comigo há muito tempo, em quem posso confiar, e que me ajudam nesse processo.”
A experiência levou a uma mudança na forma de gestão. Delegar passou a ser necessário, assim como aceitar que nem todos os processos dependem de controle direto.
A maternidade também trouxe uma reorganização de prioridades. Com um filho de três anos, Vitório, e grávida de seis meses do segundo, Olivia afirma que hoje atua mais focada na gestão do que na operação.
Além da Oli Pizzas, ela também comanda a padaria Oli Pane, na mesma rua, o que amplia ainda mais essa dinâmica. Com a empresa mais estruturada, consegue manter proximidade com o negócio sem estar presente em todas as frentes.
A expectativa agora é de uma segunda fase mais equilibrada, apoiada no que foi aprendido na primeira: “Conseguir encaixar e dar conta de tudo realmente não é tarefa fácil, mas dá certo. No fim, dá tudo certo.”


