Quem decide seu voo? Saiba como rota, horário e avião são escolhidos

Da escolha do modelo da aeronave aos horários de decolagem, o diretor de planejamento é quem mantém as companhias aéreas funcionando

Francesca Street, da CNN
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Toda vez que você embarca em um voo, entra em uma espécie de matrix: uma teia de escolhas que foram feitas por você semanas, às vezes meses, antes da partida.

A maioria dos viajantes não pensa nos bastidores enquanto coloca sua bagagem de mão no compartimento superior, se acomoda na poltrona e olha pela janela para a longa fila de outros aviões esperando na pista.

Mas na hora da decolagem, o avião em que você voará e até mesmo a rota que você seguirá dependem de decisões frequentemente tomadas por uma única pessoa, com o auxílio de uma equipe de especialistas.

E em tempos de turbulência, quando o aumento dos preços do combustível de aviação está levando muitas companhias aéreas a reduzir drasticamente seus serviços, o papel dessa pessoa se torna ainda mais importante.

Nos bastidores, o diretor de planejamento, como é frequentemente chamado, é uma figura-chave na maioria das grandes companhias aéreas comerciais, supervisionando equipes encarregadas de gerenciar alguns dos aspectos mais complexos das viagens aéreas.

"É uma função incrivelmente difícil e provavelmente uma das mais importantes em uma companhia aérea", disse o especialista em aviação Tony Stanton, da consultoria australiana Strategic Air, à CNN Travel.

Na British Airways, essa pessoa é Neil Chernoff. "Gerir uma companhia aérea é como um quebra-cabeça muito complicado", disse Chernoff, que supervisiona o planejamento de rede e horários na companhia aérea do Reino Unido. "É preciso fazer concessões para garantir que todo o quebra-cabeça se encaixe perfeitamente."

Montando o quebra-cabeça

Meses antes do embarque, Chernoff e sua equipe se reunirão para definir a logística da sua viagem, até mesmo a quantidade e a classe dos assentos disponíveis para você escolher. A cada poucos meses, eles revisitam essas decisões. Reavaliam quais rotas estão funcionando, quais estão em declínio e, como tem sido o caso de muitas companhias aéreas após o conflito com o Irã, quais devem ser descontinuadas.

No cerne dessas decisões está o dinheiro. Operar uma aeronave é caro e, a menos que esteja sendo utilizada da melhor forma possível, um avião se tornará um dreno para o lucro. Para os passageiros, voar em um voo quase vazio é um sonho. Para as companhias aéreas, é um pesadelo.

"É responsabilidade da minha equipe garantir que estejamos gerando lucro com essa aeronave ou maximizando os ganhos", diz Chernoff, que trabalhou em um banco de investimentos antes de entrar para o mundo da aviação há 15 anos.

Quando há um aumento repentino na demanda, a equipe de Chernoff reage rapidamente. A British Airways recentemente dobrou o número de voos diários entre Londres e San Diego e Austin após ambas as rotas apresentarem um desempenho acima do esperado.

Quando as rotas apresentam baixo desempenho, talvez porque o horário de chegada de um voo não seja conveniente para os passageiros que precisam fazer conexões, ou porque um destino cai em desuso, a situação se complica. A equipe analisará os hábitos dos clientes e os dados de voo para avaliar o que está dando errado.

"É realmente um quebra-cabeça complexo", diz o consultor de aviação Stanton. "O que funciona na teoria nem sempre funciona na prática."

Os diretores de planejamento das companhias aéreas costumam trabalhar em conjunto com as equipes de vendas para acompanhar as tendências de viagem, que mudam constantemente à medida que diferentes destinos passam a dominar os feeds de Instagram dos viajantes.

Às vezes, a popularidade de um destino ou região é passageira, outras vezes é mais duradoura. Após a Covid, diz Chernoff, o Caribe experimentou um aumento no interesse dos viajantes britânicos e continua sendo popular.

O segredo é tentar antecipar essas tendências. "Definitivamente, percebemos que os viajantes a lazer querem novos destinos, desejam fazer algo diferente e explorar novos mercados", afirma. Novas rotas da British Airways entre Londres, Bangkok e Colombo, no Sri Lanka, foram lançadas recentemente, antecipando essa onda.

E a equipe irá trocar de aeronave para melhor atender à demanda. "Se estiver muito mais cheio e virmos um aumento na demanda, podemos decidir adicionar um voo extra ou, às vezes, trocamos uma aeronave entre rotas diferentes para disponibilizar mais assentos no mercado", diz Chernoff.

Eles também monitorarão movimentos sociais mais amplos, como a mudança de paradigma em relação às viagens de negócios de curta distância — outra tendência pós-Covid — que tem ocorrido em paralelo com um "aumento nas viagens de lazer".

Para a British Airways, isso significou retirar alguns aviões de destinos clássicos de viagens de negócios, como Frankfurt, Munique ou Roma, e transferi-los para rotas de férias, como o sul da Espanha, Itália ou Grécia.

Horário do voo

As equipes de planejamento não são responsáveis ​​apenas por escolher para onde uma aeronave vai, elas também decidem quando ela vai partir.

Nos aeroportos mais movimentados do mundo, as companhias aéreas não podem simplesmente escolher seus horários de partida preferidos. Elas precisam garantir o que se conhece como "slots", as janelas de tempo específicas para decolar e pousar. O mercado de slots é altamente competitivo, e os melhores alcançam preços altíssimos.

Se você já tentou reservar um voo regular e descobriu que ele foi alterado do horário de partida conveniente da manhã para a tarde, é bem provável que haja alguma questão relacionada à política de slots.

"Temos uma carteira de slots muito restrita", diz Chernoff. "Às vezes, é preciso fazer algumas concessões em relação ao horário de um determinado voo, com base no restante da programação e nos slots que possam ser necessários."

A disponibilidade é limitada, principalmente em aeroportos movimentados como o de Heathrow, em Londres, base da British Airways, o que significa que há pouca flexibilidade para alterar os horários de voo. Isso é algo que os planejadores precisam levar em consideração ao estabelecer novas rotas, muitas vezes com anos de antecedência.

"Os horários de voo são fixos. É muito difícil alterá-los", diz Chernoff. "Se você for adicionar um voo, não pode simplesmente adicioná-lo a qualquer momento. Precisa ser no momento em que você tiver esse horário disponível para que ele se encaixe nas 350 partidas diárias que temos em Heathrow."

Os slots são apenas parte da equação. Os planejadores também precisam considerar a disponibilidade de salas VIP, a capacidade da pista, o espaço nos portões de embarque, a logística de combustível e a equipe de solo. "Aeroportos muito movimentados têm um limite de tráfego que podem suportar", diz o consultor de aviação Stanton. "Todos esses fatores entram em jogo."

Chernoff também trabalha em estreita colaboração com seus colegas das companhias aéreas da aliança British Airways. Diferentes companhias aéreas têm diferentes tipos de parcerias comerciais, mas a British Airways mantém uma parceria sólida com a American Airlines, e as duas empresas discutem regularmente o planejamento de rotas.

"Podemos coordenar a quantidade de voos que vamos disponibilizar entre Miami e Londres", explica Chernoff.

O clima também é um fator. Embora os aumentos sazonais na corrente de jato transatlântica possam agradar aos passageiros entre Nova York e Londres, reduzindo o tempo de voo, eles podem causar dores de cabeça para as companhias aéreas.

"Quando você tem correntes de jato muito fortes e chega uma hora mais cedo, por um lado, os clientes acham ótimo, mas você precisa garantir que consiga uma vaga no pátio e que esteja pronto para atender a aeronave no horário", diz Chernoff. "Então, no fim das contas, nós realmente nos esforçamos para garantir que ela chegue na hora certa."

Escolhendo a aeronave

A maioria dos passageiros não se importa com o tipo de avião em que viaja — até que isso, de repente, passe a importar. Talvez seja no momento em que embarcam e entram em uma cabine da classe econômica completamente lotada. Ou quando veem um A380 de dois andares pela janela do terminal e torcem para que seja o avião deles.

Nada disso é por acaso. Escolher a aeronave certa para uma rota e garantir uma experiência perfeita para o cliente faz parte do trabalho de um oficial de planejamento.

"A escolha da aeronave para cada rota pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma rota", diz Stanton. "Qual é o tamanho certo de aeronave, com o consumo de combustível adequado, e qual é a capacidade ideal para essa rota?"

Para Chernoff e sua equipe, muitas vezes tudo se resume a uma pergunta simples: quais aeronaves estão disponíveis?

"Parece que deveria ser uma resposta relativamente fácil", admite ele. Mas, a qualquer momento, uma porcentagem significativa da frota de uma companhia aérea estará fora de operação, com aeronaves necessitando de manutenção ou reforma.

Depois, surge a questão de como utilizar os aviões disponíveis. Considere o A380, o maior avião de passageiros do mundo. A British Airways possui um número limitado desses populares jatos superjumbo — 12 no total — e normalmente os utiliza em rotas de longa distância populares e de alta demanda.

Mesmo essa decisão aparentemente óbvia traz complicações. Voos mais longos exigem mais pilotos, e nem todo piloto está treinado para pilotar qualquer tipo de aeronave.

"Um A380 que voa para Boston, por exemplo, tem apenas dois pilotos a bordo, mas um A380 que voa para Singapura tem quatro pilotos, e é uma viagem muito longa", diz Chernoff.

Em seguida, surge a questão dos passageiros — não apenas quantos, mas que tipo de passageiros são. Isso significa encontrar o equilíbrio certo entre as classes premium e econômica ou encontrar uma aeronave que tenha o número adequado de assentos na classe executiva.

Por exemplo, diz Chernoff, um Boeing 777-300 da British Airways tem "muito espaço dedicado a assentos premium", com oito assentos de primeira classe e 76 de classe executiva, enquanto os Boeing 787-8 têm 31 assentos de classe executiva.

"O que tentamos fazer é adequar o tamanho da aeronave ao que acreditamos que o mercado irá demandar", explica ele.

Eventos incontroláveis

Apesar de toda a previsão, análise minuciosa de dados e planejamento logístico, algumas coisas no planejamento de voos são simplesmente imprevisíveis. Lidar com as consequências do que Chernoff chama de "eventos incontroláveis" é uma parte importante do trabalho do planejador de voos de uma companhia aérea.

"Eles costumam acontecer com mais frequência do que você imagina", acrescenta. Às vezes, as condições meteorológicas ou outras condições atmosféricas interferem, como a erupção de um vulcão na Islândia em 2010, que paralisou a aviação transatlântica por vários dias, cancelando milhares de voos.

As tensões geopolíticas também obrigam as companhias aéreas a alterar as rotas dos aviões ou a reprogramar os serviços com pouco aviso prévio, remodelando o mapa das rotas de voo globais quase da noite para o dia.

Quando isso acontece, o quebra-cabeça que Chernoff e sua equipe passaram meses montando precisa ser desmontado e remontado rapidamente. As equipes de planejamento tentam se preparar e planejar o que é incontrolável o máximo possível.

"As grandes companhias aéreas não ficam de braços cruzados esperando os acontecimentos", explica o consultor de aviação Stanton. "Tudo é planejado com antecedência, os riscos são gerenciados."

Por exemplo, os horários de voo geralmente incluem uma margem de segurança de cerca de uma hora para compensar atrasos inesperados, como fechamentos do espaço aéreo. Se uma situação se tornar mais permanente, as equipes de planejamento começarão a recalibrar os horários de voo ou a cancelar voos.

O conflito no Irã está tendo um impacto generalizado na aviação. Chernoff afirma que sua equipe continua a responder a uma "situação em constante evolução e rápida transformação".

A British Airways, assim como muitas outras companhias aéreas, cancelou voos e organizou serviços de repatriação não programados nos primeiros dias da guerra.

O aumento dos preços do combustível de aviação nas últimas semanas também obrigou muitas equipes de planejamento a repensarem suas estratégias, já que rotas antes marginalmente lucrativas se tornaram insustentáveis. O grupo alemão Lufthansa anunciou neste mês o cancelamento de 20 mil voos até outubro.

Chernoff reconhece que a incerteza é uma "situação realmente ruim para os clientes", e o principal objetivo de sua companhia aérea é tentar fornecer o máximo de clareza possível em cenários difíceis de prever.

Nem todas as surpresas são negativas, no entanto. Quando a seleção masculina de futebol da Inglaterra chegou à fase final do Campeonato Europeu de 2024, a equipe de Chernoff conseguiu disponibilizar voos extras para ajudar os torcedores a chegarem à partida.

E não é apenas função do responsável pelo planejamento de uma companhia aérea lidar com crises e imprevistos. Todos os anos, Chernoff também se envolve no planejamento dos próximos cinco anos da empresa, analisando as perspectivas de crescimento e mudança.

É divertido, diz ele, reabrir a caixa do quebra-cabeça, misturar as peças e começar a montá-las novamente.

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