Fine dining à mineira: Rivo traz ingredientes nobres e hospitalidade zelosa
Comandado pelos chefs Alethea Ruckert e Max Catolino, o restaurante belo-horizontino coloca caviar na moqueca e brinca com a carbonara, apresentando a tradicional receita italiana na forma de sobremesa

Tradição. Talvez essa seja a primeira palavra que venha à cabeça quando se fala em Minas Gerais. E isso se estende também para a mesa. Em um universo de tropeiros, torresmos e frangos com quiabo, o Rivo chega propondo um novo ritmo, mais livre e aberto ao inesperado, à cena belo-horizontina. Não há moderação no uso de ingredientes nobres como caviar, bacalhau e trufa.
Algo raro na capital mineira, o uso desses insumos aparece pontualmente em alguns restaurantes, principalmente orientais. Um dos poucos que oferece com mais regularidade é o D’Artagnan, também no bairro de Lourdes.
Mas isso não exclui o que vem de perto. "O Rivo é um 'casual fine dining' que celebra a pureza dos ingredientes locais, criatividade e hospitalidade genuína", explica Max Catolino, que divide a chefia com Alethea Ruckert.
Antes de abrir seu primeiro restaurante, o casal construiu uma história dentro da gastronomia. Nascido na Argentina, Max veio para o Brasil ainda criança e acabou se encantando por Minas, que considera sua verdadeira casa. Já adulto, voltou para a terra natal para trabalhar em restaurantes famosos como o Sucre e o Mishiguene.
Por aqui, passou pelo Trindade, Alma Chef e foi chef do Pacato, Olga Nur e do Tragaluz, em Tiradentes. O auge da carreira, como ele mesmo define, foi ser sous-chef do Evvai, que acaba de conquistar sua terceira estrela Michelin, em São Paulo, por dois anos e meio.
Já Alethea é formada em Administração de Empresas pelo Ibmec. Também estudou Moda e Nutrição na UFMG e, posteriormente, especializou-se em Marketing. A cozinha era um hobby até ser convidada para trabalhar em um restaurante pelo chef Felipe Rameh. Nunca mais saiu.
Logo depois foi estagiar no Maní, em São Paulo, onde ficou por mais de um ano. Foi então estudar no Basque Culinary Center, na Espanha. Entrou como estagiária na Osteria Francescana, na Itália, onde ficou por cinco anos aprendendo com ninguém menos que Massimo Bottura.

A ideia do Rivo surgiu há dois anos, quando Max e Alethea se esbarraram durante as gravações do programa "The Taste Brasil", do GNT. Do encontro, nasceu o projeto de abrirem um negócio na cidade onde cresceram.
O nome vem de Rivoluzione e traduz o modo como a dupla pensa o restaurante. "Desde o início, nosso maior compromisso era fugir do óbvio. Não queríamos ser apenas mais uma casa, mas criar algo com identidade, que se diferenciasse em todos os níveis", destaca a chef.
Moqueca com caviar
No Rivo, o fine dining está na precisão dos cortes, no tempo exato de cocção, na construção dos sabores. O ambiente dispensa maiores formalidades. É nesse equilíbrio que a casa encontra sua identidade.
Logo na chegada, o visitante é recebido com uma taça de espumante, cortesia da casa. No couvert, o brioche de massa folhada chega à mesa quentinho, acompanhado de uma manteiga artesanal de anchova (R$ 36).
São nove entradas, servidas em porções compartilháveis. Entre elas, a pizza frita (R$ 52), com crudo de peixe, pimenta-de-cheiro, cajuína, cebola e coentro; o bacalhau mantecato (R$ 74), com bacalhau, baroa e azeitona; e os mexilhões (R$ 98), mexilhões defumados na beurre vôngole, servidos com o pão.
O Tomate (R$ 82) traz a fruta em diversas texturas – água in natura, gelatina de tomate infusionada em katsobushi, tomate defumado – finalizado com lardo e óleo de basílico.
O menu reserva um espaço para pastas artesanais, uma das especialidades que Alethea adquiriu nos anos que passou na Itália. Entre os destaques, estão o capeletti de abóbora com amaretto e sálvia (R$ 102); fusilli com camarão (R$ 134); e o tortellini de carne de porco in brodo de galinha d’Angola e parmesão (R$ 124).
Já entre os principais, a Moqueca com Caviar (R$ 182), que leva moqueca de camarão, arroz de coco, farofa, vinagrete e caviar, evidencia o encontro de uma tradicional receita brasileira com um dos ingredientes mais valorizados da gastronomia mundial.
Leve, o peixe do dia com purê de couve-flor, mexilhão, gremolata e coentro sai a R$ 152. Para os carnívoros, as opções são a carne acompanhada de farofa com cenoura, levedura, molho de café e baunilha (R$ 162); e o Assado de Tira na parrilla, com chimichurri, molho romesco e pão (R$ 168). O arroz de pato com magret (R$ 172) é apresentado de uma forma clássica.
Para fechar a noite, são cinco sobremesas. Uma que já caiu no gosto dos clientes é o "Não me chame de carbonara" (R$ 82), doce de banana servido com pedacinhos crocantes de guanciale defumado, creme de pecorino e parmesão, espuma de gemas e leite com pimenta-do-reino e finalizado com caviar.
O Abóbora em Flor (R$ 52) é uma combinação de abóbora, maçã, avelã, castanha portuguesa e sorvete de canela. Chocólatras não precisam resistir a Chocotorta (R$ 48), chocolate, doce de leite e café da casa, cupuaçu e sorvete de café. Tudo preparado ali, incluindo os gelatos e os pães.
O cenário gastronômico de Belo Horizonte vem passando por uma evolução muito consistente. Existe cada vez mais abertura para experiências que vão além do tradicional, com uma valorização maior de técnica, pesquisa e ingrediente. Foi justamente essa transformação que nos deu segurança para criar o Rivo
BH em movimento
Essa evolução conceitual também se reflete no cuidado com os detalhes. Do mobiliário desenhado sob medida à curadoria de louças, cerâmicas, taças, trilha sonora e identidade olfativa, tudo foi pensado para criar uma atmosfera sensorial e acolhedora, permitindo que o cliente possa vivenciar a casa de uma forma única.
O projeto arquitetônico, assinado por Ana Bahia, reforça a identidade desenvolvida para exaltar a autoralidade e a hospitalidade de forma despretensiosa, mas também sofisticada. Nele, tanto a cozinha quanto o bar ficam totalmente abertos, ocupando o centro do salão. Há também um balcão, diante da cozinha, onde futuramente será implementado o menu degustação da casa.
Pela disposição, o bar tem protagonismo próprio, compartilhando técnicas e ingredientes com a cozinha. Na carta de coquetéis, clássicos como Dry Martini, Cosmopolitan e Negroni (todos por R$ 53) dividem espaço com autorais como o 9.500 a.C., que leva gin, St. Germain, limão siciliano e frisante com pera (R$ 55).
A carta de vinhos reúne mais de 120 rótulos, equilibrando grandes nomes, vinhos naturais, brasileiros de excelência, produtores independentes e garrafas de guarda. Itália, Brasil e Argentina estão entre os destaques da adega.
Assim que abre o menu, o cliente lê a melhor definição do que é o Rivo: "É sobre ser local e sobre cruzar geografias – sobre tradições e novos rituais que convidam você a reimaginar os momentos ao redor da mesa, celebrando ingredientes e histórias."
Rivo Restaurante
Rua Curitiba, 2060 - Lourdes - Belo Horizonte - MG / Horário de funcionamento: terça a sexta, 19h às 23h30; sábados, das 12h às 15h e das 19h às 23h30 / Mais informações no Instagram.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Carolina Daher

Carolina Daher é jornalista, pesquisadora e curadora gastronômica. Acima de tudo, é mineira. Adora comida, mesa farta e café coado com queijo. Não dispensa o que vem da roça e se encanta com as coisas da cidade grande. Acha que doce de leite é muito melhor que Nutella. Vive nas Gerais e caminha pelo mundo em busca de histórias e sabores. Também é colunista da Revista Encontro, curadora do Fartura — Comidas do Brasil e responsável pela Encontro Gastrô, maior premiação gastronômica de Belo Horizonte e Brasília.


