Mengano, em Buenos Aires, o bodegón que desafia os clássicos argentinos
Do bodegón reinventado ao recém-aberto Chuchú, sócios do Mengano já preparam novo restaurante autoral e intimista, com menu degustação e apenas oito lugares

No gastronômico bairro de Palermo, o Mengano construiu, quase sem alarde, uma das propostas mais interessantes da cena gastronômica portenha.
À primeira vista, poderia ser apenas mais um bodegón argentino, aqueles endereços informais ligados à memória familiar e à cozinha cotidiana. Mas o Mengano, definitivamente, não é um desses. Desde a abertura, em 2018, a casa transformou esse repertório afetivo em uma proposta autoral que combina técnica, leveza e uma dose bem medida de irreverência, resultando em pratos de sabores potentes e uma clientela fiel, que disputa mesas noite após noite.
No menu, receitas profundamente enraizadas na cultura local, como milanesas e empanadas, surgem reinterpretadas com liberdade e precisão. “Nos mantivemos fiéis à essência de um bodegón, mas trazendo um lado mais criativo e divertido aos pratos, sempre com algum elemento surpresa”, explica o chef Facundo Kelemen.

Sua cozinha evoca memórias conhecidas, mas dificilmente entrega o óbvio: texturas se transformam, apresentações ganham novos contornos e técnicas da alta gastronomia entram em cena para ressignificar clássicos populares. Espere por vieiras com espuma de risoto parmesão (cerca de R$ 71); tartar de cordeiro (cerca de R$ 70); nhoque cacio e pepe (cerca de R$ 100); arroz crocante com mariscos (cerca de R$ 103); sanduíche de wagyu à milanesa (cerca de R$ 165); entre outros.

A casa opera com menu à la carte, pensado para compartilhar em pequenas porções. Apenas para quem visita sozinho, há também a opção de um menu degustação enxuto, desenhado especialmente para essa experiência, assim o comensal consegue provar mais itens. E aqui, vale a dica de reservar um lugar no pequeno balcão, que tem vista privilegiada para a cozinha.
Mesmo com reconhecimento internacional, incluindo o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, o Mengano não se tornou um restaurante exclusivamente turístico. Há um equilíbrio entre público local e estrangeiro, embora seja quase impossível entrar lá e não ouvir português em pelo menos uma das mesas. “O brasileiro sempre foi muito importante para nós, mas sentimos uma queda recente. Buenos Aires ficou mais cara, e isso impacta”, dizem os sócios. Ainda assim, a base de clientes da cidade se mantém sólida, garantindo o movimento da casa para além das oscilações do turismo.

À frente da cozinha, Facundo Kelemen carrega uma trajetória pouco óbvia. Formado em Direito, chegou a iniciar um mestrado antes de decidir mudar de rumo e se dedicar integralmente à gastronomia. Passou por cozinhas importantes na Argentina e em Nova York, onde começou a desenhar o conceito do Mengano, inspirado nos bistrôs parisienses, que combinam técnica refinada com ambientes informais.
Inquieto também fora da cozinha, Kelemen coleciona pequenas histórias que ajudam a entender sua personalidade. Tem uma tatuagem feita durante uma viagem à Tailândia que, segundo ele próprio, provavelmente está escrita a frase que pediu errada. Corta o próprio cabelo, por pura praticidade, e divide a rotina intensa de chef com a vida em família, ao lado de dois filhos pequenos.
Em 2025, seu trabalho ganhou projeção internacional com uma faca no The Best Chef Awards, consolidando seu nome entre os destaques da nova geração de chefs argentinos.

O Mengano é fruto da parceria com o empresário André Parisier, que segue ao seu lado também em outros projetos, como o recém-inaugurado Chuchú, de perfil mais amplo e descomplicado, com cerca de 140 lugares e um cardápio mais direto pensado para o dia a dia, e há um novo projeto em desenvolvimento dentro do próprio Mengano.
Se o Mengano nasceu revisitando a memória afetiva dos bodegones, os próximos passos apontam para um caminho ainda mais pessoal. No segundo andar, um novo projeto já começa a ganhar forma: um balcão para apenas oito pessoas, com menu degustação e funcionamento restrito à presença de Facundo. Mais do que expansão, a ideia é aprofundar a experiência, criando um espaço onde técnica, narrativa e proximidade com o chef se encontram de maneira quase íntima, como se cada serviço fosse único.

Mengano: José Antonio Cabrera, 5175, Palermo, Buenos Aires - Argentina / Funcionamento: terça a sábado, a partir das 20h


