Saiba por que a taça certa faz diferença na hora de beber um vinho
Formato, tamanho, peso e material podem realçar determinadas características e conduzir aromas e sabores de maneiras diferentes durante a degustação

Uma cristaleira cheia de taças é o sonho de muitos enófilos por aí. Mas não é apenas uma questão de estética. É também de funcionalidade. Ter diferentes tipos, formatos e materiais pode fazer diferença na maneira como percebemos um vinho.
É claro que nenhum acessório vai transformar um vinho ruim em bom, ou melhorar aquilo que não existe dentro da garrafa. A taça, porém, pode realçar determinadas características e conduzir aromas e sabores de maneiras diferentes durante a degustação.
É o clássico exemplo das taças "borgonhesas". O bojo amplo, quase como um balão, aumenta a superfície de contato do vinho com o ar e cria espaço para a concentração dos aromas.
A geometria da borda também ajuda a direcionar o líquido e os aromas para o nariz. É uma anatomia que costuma funcionar particularmente bem com variedades delicadas e aromáticas, como a Pinot Noir.
As taças de Bordeaux seguem outra lógica. São geralmente mais altas e possuem bojos amplos, desenhados para vinhos de maior estrutura.
A quantidade de vinho colocada na taça, a superfície de contato com o oxigênio e a maneira como o líquido chega à boca interferem na percepção durante a degustação. Não existe, portanto, uma taça universal para todos os vinhos.
Uma das referências nacionais na produção de cristal é a família Strauss, que se instalou no Brasil no século passado e deu início à tradição da produção das peças em Blumenau, em Santa Catarina. Após a falência da empresa familiar, a marca foi vendida para a gigante Oxford.
No entanto, os desenhos e a lapidação das taças continuaram no arcabouço da família. Em 2018, Frederico Strauss foi integrado como artista-chefe da Mozart Crystal, que ocupa instalações também em Blumenau.

Diferentes taças para diferentes vinhos
E, para entender como essas diferenças interferem na experiência de quem degusta, fiz algumas perguntas para o diretor da Mozart Crystal, Gabriel Mozart. Segundo ele, a escolha deve levar em consideração as características do vinho e o momento em que ele será servido.
"Um bom vinho depende da ocasião. Há diversas ocasiões e diversos vinhos com características diferentes. Assim, há taças que expressam melhor determinadas características de alguns vinhos, realçando os potentes e destacando sutilezas de forma a potencializar as experiências."
Para vinhos mais delicados, Gabriel recomenda uma taça de Borgonha. Já os exemplares de maior potência podem encontrar melhor expressão em um modelo Bordeaux, pois possuem maior área de contato para você poder "aerar" o vinho com o movimento de centrífuga.
Para brancos e rosés, a preferência é por uma taça com outra anatomia, capaz de valorizar características próprias desses estilos, que costumam ser mais delicados e aromáticos.
Uma cristaleira não precisa virar uma adega

Para quem está começando a montar uma coleção de taças, a dúvida costuma ser outra: quantas são necessárias?
Não é preciso ter uma taça diferente para cada uva existente no mundo. Uma pequena seleção já permite explorar boa parte dos estilos de vinho consumidos em casa.
"Eu acredito que duas taças de vinho tinto, uma de branco e uma de espumante são suficientes para um apreciador."
Para os espumantes, Gabriel recomenda o modelo Garibaldi, que possui bojo angular e, segundo ele, favorece a formação de perlage, nome dado às borbulhas que se desprendem do líquido.
Vidro e cristal: qual a diferença?

Além do formato, existe outra discussão que costuma passar despercebida diante de uma cristaleira: afinal, o que diferencia uma taça de vidro de uma taça de cristal? A resposta começa na própria composição do material.
As taças de vidro convencionais tendem a ser mais espessas e pesadas. No mercado também aparecem materiais comercializados como "crystalite", desenvolvidos para reproduzir algumas características visuais e físicas associadas ao cristal.
Gabriel Mozart trabalha há anos com a produção de peças de cristal e explica que, para ele, a distinção começa justamente na matéria-prima.
"O que diferencia o vidro do cristal é a matéria. Não existe cristal sem o óxido de chumbo. O vidro não tem essa matéria, então é um erro ou uma indução ao erro falar que existe cristal de alumina, titânio ou ecológico."

Segundo ele, o cristal utilizado pela Mozart é produzido com óxido de chumbo, matéria-prima que é fundida com os demais componentes em altas temperaturas.
"O óxido de chumbo é fundido junto com as demais matérias-primas a 1.480°C. É sintetizado e se transforma, após 12 horas de fundição, em um material inerte que é o cristal. Não há química reversa que faça o cristal voltar ao óxido de chumbo."
Acompanhar a produção de uma taça de cristal é, ao mesmo tempo, estar dentro de uma linha de produção com fornos por todos os lados, mas também um momento de contemplação. A "arte de soprar" o cristal encanta pela fineza da técnica e pelo cuidado com um material tão sofisticado e tão artesanal.
Quando o cristal é puro, em caso de quebra, vale a pena até guardar alguns pedaços e cacos para levar de volta à cristaleria, afinal, com alguns graus de forno e o talento de um "soprador", ela poderá voltar à sua forma original.
Toda essa experiência pode ser observada de perto por quem visita a Mozart e o Museu do Cristal, uma das atrações mais bem avaliadas em Santa Catarina. No tour é possível viajar no tempo ao ver obras raras feitas com o material e acompanhar as etapas produtivas, como a mistura, fundição, lapidação e polimento.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Stêvão Limana

Stêvão Limana é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduado em enologia, postulante a sommelier profissional e maratonista nas horas vagas. Na TV, fala sobre política e eleições, enquanto na internet foca em vinhos e gastronomia.


