A história do engenheiro que fundou a primeira vinícola urbana do Brasil
Eduardo Gastaldo trocou o mundo corporativo para dar vida às obras produzidas na garagem de casa

Em meio aos prédios, ao ritmo acelerado e aos contornos de uma capital fria, o tempo encontra o silêncio embalado pelos ventos gelados do Guaíba. É no bairro Chácara das Pedras, em Porto Alegre (RS), que as sombras das árvores reservam a incrível ousadia de um engenheiro que transformou a garagem de casa em uma cantina, embalada pelo "som úmido" do romper das cascas das uvas.
Enquanto abre o portão da vinícola, Eduardo Gastaldo dá passagem ao seu lar de descanso. A atmosfera é envolvente e transmite uma sensação de harmonia, de história com traços bucólicos que se assemelham à melodia de uma milonga.
Como costuma acontecer nas famílias italianas, tudo começou na mesa. A paixão pelo vinho veio do bisavô, Januário Greco, que fazia vinho para consumo próprio na década de 1930. Antes disso, já tinha deixado outra marca na cidade: foi responsável por colocar em circulação um dos primeiros automóveis de Porto Alegre, um Dion-Bouton que enfrentava ruas de terra e desníveis quando a capital ainda parecia uma cidade do interior.
Ao se casar com Camila, Eduardo também encontrou um grande parceiro de taças: o sogro. A combinação dos acordes familiares ressoou no nome da vinícola, Ruiz Gastaldo, uma homenagem às duas famílias.
Dono de uma elegância ímpar, foi em 2017 que Eduardo decidiu trocar o dia a dia no atendimento de uma consultoria internacional para pegar a própria picape e ir até à Serra Gaúcha buscar a matéria-prima que estava prestes a mudar os contornos da sua vocação profissional.
Eduardo conta que fez a prensagem das uvas e trouxe o mosto em um tonel no porta-malas para a viagem de volta a Porto Alegre. A movimentação brusca da viagem deu um toque a mais na fermentação alcoólica.
Sem o auxílio de uma empilhadeira, não foi possível retirar a carga do veículo. Foi com o empurrar dos próprios braços que a pigéage transformou em partitura toda a dedicação e carinho para uma garrafa de vinho.

Vinificação livre em busca da tipicidade
Por algum tempo, Gastaldo chegou a se aproximar da produção de vinhos naturais, mas decidiu seguir a cadência dos seus próprios dedilhados ao prezar muito mais pelo próprio bom gosto do que por uma filosofia que, por vezes, torna-se dogmática.
"Eu acredito muito no potencial da natureza, mas numa natureza ordenada. Utilizamos leveduras selvagens para a fermentação até o momento em que eu acredite que está sendo preservada a integridade e tipicidade da casta. Se o vinho começa a ir, sozinho, para um caminho que que destoa, tenho a missão de colocá-lo novamente nos contornos que preservam a nossa identidade", afirma.
Em conversas, o vinhateiro até brinca que, nos períodos de fermentação, ele desce do quarto e "dá bom dia aos vinhos", analisa o andamento da madrugada e, durante a noite, "os coloca para dormir". Afinal, é a pura representação da família Ruiz Gastaldo.
"A todo momento vejo como imprimir o meu toque, a minha visão, seja na intensidade das remontagens, ou na delicadeza de uma pigeage, tempo de maceração, a interação com as leveduras e por aí em diante."
Uma homenagem à família

Durante a adaptação da garagem de casa em uma vinícola urbana, Camila estava grávida do filho caçula do casal, João Pedro.
Foi ele quem batizou o primeiro rótulo engarrafado, o "João Pedro Cabernet Sauvignon". Posteriormente, os outros dois herdeiros também ganharam suas representações enológicas, como "Matheus Cabernet Franc" e "Luísa Chardonnay".
Todos ornam como uma sinfonia, são regidos pelo maestro Eduardo e encontram seu protagonismo em cada etapa do espetáculo que é a degustação.
Uma homenagem à "urbanidade"
É difícil imaginar encontrar um produtor de vinhos no meio de prédios e construções. Mas o belo também pode surgir nestes ambientes.
Gastaldo faz uma homenagem às paisagens de Porto Alegre, como o "Nevoeiro Nebbiolo", um retrato típico dos dias de cerração do inverno gaúcho. Também há o "Elétrico Gamay", que remete aos dias de chuvas fortes na região, e o "Pinot Noir Piratini", que estampa o símbolo máximo da política do estado.

Por falar em Nebbiolo, foi sobre ele que ouvi uma das melhores definições já feitas sobre um vinho brasileiro. Alguém me disse que, ao abrir uma garrafa de Nevoeiro, você encontra o Barolo mais próximo que existe fora da Itália. Achei exagero. Depois provei. E parei de discutir.
Novo passo familiar
Em 2026 as garrafas foram "remasterizadas". A filha Luísa decidiu dar uma consonância e identidade aos rótulos. A maioria das aquarelas foi pintada por ela com cores e intensidades diferentes para passar aos consumidores o que eles encontrarão naquele vinho. As garrafas são numeradas e assinadas à mão pelo seu autor.
Entre aquarelas, barricas e garrafas, a vinícola urbana segue crescendo dentro de casa. Como uma milonga tocada sem pressa, cada integrante da família encontrou seu espaço na composição.
É a arte transformando o vinho em expressão.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Stêvão Limana

Stêvão Limana é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), pós-graduado em enologia, postulante a sommelier profissional e maratonista nas horas vagas. Na TV, fala sobre política e eleições, enquanto na internet foca em vinhos e gastronomia.


