Bordeaux, tradição que continua escrevendo o futuro do vinho

Mais do que terroir e grandes rótulos, a região francesa mostra que o verdadeiro patrimônio do vinho está nas pessoas, nas famílias e na capacidade de inovar sem perder suas raízes

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Bordeaux é, provavelmente, a região vinícola que mais visitei na vida. Depois de tantas viagens, degustações e conversas, cheguei a uma conclusão que vale para qualquer grande vinho: antes de ser feito de uvas, ele é feito de pessoas. Só depois vêm o terroir, o clima, a técnica e as tradições centenárias.

Quando a gente olha de fora (ou o meio em que ele é comercializado e apreciado), o universo do vinho parece ser um mundo de glamour, rótulos disputados, garrafas que alcançam valores impressionantes, leilões e muitos egos.

Mas basta passarmos alguns dias dentro das vinícolas para percebermos que, antes de tudo isso, o vinho é uma atividade rural. É uma vida construída por famílias, por gerações e por pessoas que dedicam a vida inteira a entender o dia a dia e seu impacto no seu pedaço de terra.

Grandes vinhos começam antes da adega

Outro aprendizado que sempre levo de Bordeaux é que um grande vinho começa muito antes da adega. Ele nasce no vinhedo. Aliás, a frase que mais ouço na região é: o vinhedo é quem decide o vinho que dará. Quanto mais conheço os diferentes terroirs de Bordeaux, mais entendo que o solo, o clima e o trabalho humano são inseparáveis.

No Velho Mundo isso fica ainda mais evidente. Estamos falando de propriedades que atravessaram revoluções, guerras, crises econômicas, geadas e mudanças de comportamento ao longo dos séculos. Mesmo assim, continuam produzindo vinho e preservando um conhecimento que passa de geração em geração.

Um exemplo disso foi a visita ao Château Haut-Brion e ao Château La Mission Haut-Brion. Hoje eles pertencem à mesma família e são duas das propriedades mais emblemáticas de Bordeaux. Curiosamente, ficam praticamente dentro da cidade, em uma região onde existem vinhas desde a época dos romanos.

O Haut-Brion também ocupa um lugar importante na história do vinho. Em 1855, Napoleão III encomendou uma classificação para a Exposição Universal de Paris. Corretores de vinho de Bordeaux elaboraram uma lista com os châteaux que, naquela época, tinham a maior reputação e alcançavam os maiores preços no mercado. Essa classificação se tornou uma das maiores referências do vinho mundial e permanece praticamente intacta até hoje.

Em mais de 170 anos, houve apenas uma mudança relevante: em 1973, o Château Mouton Rothschild foi promovido de Deuxième Cru para Premier Cru, uma alteração autorizada por Jacques Chirac, então ministro da Agricultura da França. O Haut-Brion foi o único château de Graves incluído entre os Premiers Crus, em uma lista dominada pelos grandes vinhos do Médoc.

Até pouco tempo, conhecer um Premier Grand Cru Classé como o Haut-Brion era um privilégio de poucos. Agora, esse universo começa a ficar um pouco mais acessível. Pela primeira vez, o Château Haut-Brion lança um projeto estruturado de enoturismo, permitindo que visitantes tenham acesso a um dos endereços mais emblemáticos do vinho mundial por meio de visitas e experiências privadas.

Tradição e inovação

Mas a história não se resume aos grandes nomes. Ao mesmo tempo em que visitamos propriedades como Haut-Brion e La Mission Haut-Brion, também conhecemos vinícolas que, para muita gente, parecem novas, mas de novas não têm absolutamente nada.

Foi o caso do Château Jean Faure, do Château Bonalgue e de outras propriedades familiares que visitei nesta viagem. São propriedades com centenas de anos de história. Algumas já estão na 14ª ou 15ª geração da mesma família. É impressionante pensar que tantas transformações aconteceram no mundo e essas famílias continuam cuidando da mesma terra.

O mais interessante é perceber que tradição não significa ficar parado no tempo. Muitos produtores preservam a história, mas continuam inovando. Olivier Decelle, no Château Jean Faure, fez uma aposta importante na agricultura biológica e em uma produção que busca expressar cada vez mais o terroir. Para isso, investiu em cubas de concreto, reduzindo a interferência da madeira para deixar que o solo apareça mais claramente no vinho.

Essa combinação entre tradição e inovação aparece em vários lugares. O Haut-Brion ajudou a consolidar práticas como a clarificação dos vinhos, técnica que continua sendo utilizada até hoje, e está entre os poucos châteaux que ainda mantêm um controle muito próximo sobre a produção das próprias barricas.

Hoje trabalha em parceria com uma das tanoarias mais respeitadas da França, preservando um conhecimento artesanal enquanto incorpora tecnologia e precisão. Lafite Rothschild, Château Margaux e Smith Haut Lafitte também mantêm esse cuidado com a produção das barricas, algo raro até mesmo em Bordeaux.

Quando conversamos com quem cuida dos vinhedos, acompanhamos o trabalho das equipes e entendemos a responsabilidade de manter um patrimônio que atravessa séculos, percebemos que conhecimento não está apenas nos livros. Ele está na rotina dessas famílias e de quem trabalha todos os dias na vinha e na adega.

Legado de Pierre Lurton

E, quando falo de pessoas, não posso deixar de lembrar de Pierre Lurton. Ele está à frente de dois dos maiores ícones do vinho francês, o Château Cheval Blanc e o Château d’Yquem. Mas, ao mesmo tempo, mantém um projeto muito pessoal, em sua casa, o Château Marjosse.

É interessante ver alguém responsável por dois dos vinhos mais famosos do mundo dedicar o mesmo cuidado a uma propriedade sem o peso das grandes classificações. Isso mostra que a paixão pelo vinho vai muito além do prestígio de um rótulo.

Bordeaux também ensina que tradição e mudança convivem o tempo inteiro. Saint-Émilion possui uma classificação criada em 1955 e revisada a cada dez anos. Enquanto isso, uma nova geração de produtores experimenta novos caminhos, investe em agricultura orgânica e biodinâmica, em novas técnicas de vinificação e em formas diferentes de interpretar o terroir.

Depois de tantas viagens para cá, continuo voltando com a sensação de que ainda há muito para aprender. Viajar, provar os vinhos onde eles nascem e conversar com quem dedica a vida a esse trabalho continua sendo a melhor forma que encontrei de entender o vinho.

Cada visita acrescenta uma nova história, um novo produtor e um novo olhar sobre uma região que continua evoluindo sem perder aquilo que a tornou uma das maiores referências do mundo.

CNN Viagem & Gastronomia em Bordeaux

Bordeaux foi o primeiro destino internacional que apareceu na telinha do CNN Viagem & Gastronomia, há mais de quatro anos. A cidade é mais do que um ponto de partida para os renomados vinhedos: é agradável, vibrante, repleta de bistrôs e cativa pelo equilíbrio entre a tradição e a modernidade.

Patrimônio Mundial da Unesco, há muito para ver e sentir em Bordeaux. Construções bem preservadas, doces em lojinhas típicas, passeios pelo rio, hotéis especiais e, claro, uma imersão pelos melhores vinhos do mundo e seus conceituados châteaux - afinal, tudo em Bordeaux nos leva ao vinho. Abaixo, relembre os programas na íntegra:

Bem-vindos a Bordeaux

Bordeaux: Experiências no Reino do Vinho

Bordeaux: Uma jornada pelos grandes vinhedos

Bordeaux: A vida nos grandes châteaux

Bordeaux: Celebrando a história

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