O valor de um território: minha palestra no Connection Terroirs do Brasil

Inspirada pelos debates do Connection Terroirs do Brasil e por uma recente viagem ao Pantanal, compartilho uma reflexão sobre o que realmente torna um destino inesquecível. Mais do que seus produtos, são as histórias, as pessoas e o senso de pertencimento que transformam um território em algo único

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Nesta semana, fui palestrante do Connection Terroirs do Brasil, em Gramado (RS), evento que reúne produtores, especialistas, pesquisadores e profissionais do turismo para discutir um tema cada vez mais relevante: como transformar a identidade de um território em valor econômico, cultural e turístico.

Ao longo de dois dias de debates, ouvi histórias sobre cafés, vinhos, queijos, azeites, tequila, biodiversidade, indicações geográficas e desenvolvimento regional. Mas, curiosamente, saí do evento pensando menos nos produtos e mais nas pessoas. Essa foi, inclusive, a principal reflexão da minha fala na abertura do encontro.

Há mais de vinte anos percorro o Brasil e o mundo para contar histórias de destinos, gastronomia e cultura. Nesse período, acompanhei a ascensão do turismo de experiência, a valorização dos produtores locais e o crescente interesse dos viajantes pela origem daquilo que consomem. Mas tenho a impressão de que vivemos uma mudança mais profunda.

Por muito tempo, o turismo girou em torno das atrações. Depois, das experiências. Hoje, me parece que a busca é por significado.

Essa reflexão ganhou força durante uma viagem recente ao Pantanal. Já estive ali inúmeras vezes como jornalista. Desta vez viajei acompanhada dos meus filhos. Naturalmente, queria que eles vissem as onças, os rios, a fauna exuberante e as paisagens que fazem daquele bioma um dos lugares mais extraordinários do planeta.

Mas, quando voltamos para casa, as lembranças que eles carregavam eram outras. Falavam do guia que os acompanhou. Do pesquisador que explicou o trabalho de conservação. Do peão pantaneiro que compartilhou histórias da vida na fazenda. Lembravam das pessoas por trás da paisagem.

Aquilo me fez pensar sobre uma pergunta que surgiu diversas vezes durante o Connection: o que realmente torna um território relevante?

Tradicionalmente, quando falamos em terroir, pensamos em solo, clima, altitude, variedades agrícolas e técnicas de produção. São elementos fundamentais. Mas talvez eles não sejam suficientes para explicar por que alguns lugares exercem um fascínio tão grande sobre quem os visita.

Ninguém atravessa um oceano apenas para beber uma taça de vinho. Se fosse assim, bastaria comprar uma garrafa. Da mesma forma, ninguém viaja milhares de quilômetros apenas para provar um queijo, um café ou um azeite.

Na verdade, o que atrai os viajantes é a possibilidade de compreender o contexto que tornou aquele produto possível.

É por isso que regiões como Toscana, Provence e Douro se transformaram em referências mundiais. O vinho continua importante, claro, mas funciona como uma porta de entrada para algo muito maior: a paisagem, a cultura, as tradições familiares, os modos de vida e as histórias construídas ao longo de gerações.

O produto é o embaixador. A identidade é o verdadeiro patrimônio.

Essa percepção apareceu de diferentes formas ao longo dos debates em Gramado. Surgiu quando produtores falaram sobre a importância das indicações geográficas para fortalecer o sentimento de pertencimento das comunidades. Apareceu nas discussões sobre sucessão familiar no campo, tema fundamental para regiões que buscam preservar seus saberes e manter os jovens conectados às suas origens. Também esteve presente nas conversas sobre reputação, proteção de marcas e valorização dos ativos territoriais.

Embora os temas fossem diversos, todos apontavam para uma mesma direção: o valor de um território não está apenas naquilo que ele produz, mas na capacidade de transformar produção em cultura, cultura em identidade e identidade em pertencimento.

E acredito que esta é uma das maiores oportunidades do Brasil.

Temos uma biodiversidade extraordinária e uma gastronomia que conquistou reconhecimento dentro e fora do país. Mas o nosso maior diferencial talvez esteja em algo menos tangível: as histórias que carregamos e a relação construída entre comunidades e território ao longo das gerações.

Vejo isso na Serra da Mantiqueira, onde cafés especiais, azeites, vinhos e pequenos produtores ajudam a construir uma narrativa própria para a região. Vejo isso na Chapada Diamantina. Vejo isso no Pantanal. Vejo isso em inúmeros destinos brasileiros que descobriram que autenticidade não é um slogan de marketing, mas um patrimônio.

Porque um solo semelhante pode existir em outro lugar. Uma técnica pode ser reproduzida. Uma tecnologia pode ser comprada. Mas ninguém consegue replicar uma memória coletiva, uma cultura local ou uma identidade construída ao longo do tempo.

Ao final do Connection Terroirs do Brasil, saí com a sensação de que, quando falamos de origem, falamos de algo maior do que produtos. Falamos de pertencimento.

E talvez seja por isso que, depois de tantos anos viajando, cheguei a uma “nova definição” de terroir. Para mim, ela extrapola a expressão da terra, do clima ou da técnica. Mais do que isso, ela dialoga com a relação entre as pessoas e o lugar que chamam de seu. Afinal, são as pessoas que transformam origem em identidade.

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