Ilha secreta em Uganda guarda cachoeira considerada sagrada

A mais de 965 km do mar, a Cachoeira Nanziri encanta visitantes e guardiões espirituais na remota Ilha Bukasa, no Lago Vitória, o maior da África

Griffin Shea, da CNN
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Em uma ilha tropical a mais de 965 km do mar, uma cachoeira mística brota de uma rocha e desce por um penhasco, desaguando no Lago Vitória e, em seguida, no Nilo. É uma maravilha natural e, para muitos ugandenses, também espiritual.

Mas as pessoas que cuidam da Cachoeira Nanziri não têm certeza se querem que você saiba disso.

Veneza cobra uma taxa de visitação diária. Amsterdã proibiu a construção de hotéis. Mas o excesso de turismo está longe de ser uma preocupação para os habitantes da Ilha Bukasa. No momento, há pouquíssimas instalações para receber turistas — sem água encanada, sem eletricidade e sem nenhum lugar para ficar.

Ainda assim, não é impossível visitá-la — e uma viagem à ilha é uma jornada aventureira por uma paisagem mágica que poucos têm a chance de conhecer.

Bukasa é uma das 84 Ilhas Ssese que se estendem por 9 mil km² no Lago Vitória. Este arquipélago está entre os poucos lugares do mundo onde ilhas tropicais existem dentro de um país sem litoral.

Há ilhas mais fáceis de visitar. A maioria dos turistas — cujo número é pequeno mesmo nos períodos de maior movimento — vai a Bugala, onde fica a principal cidade das ilhas, Kalangala. Lá, os turistas encontram comodidades como pousadas e restaurantes.

Ilhas como Banda e Bulago possuem refúgios privados. Ngamba não tem opções de hospedagem, mas atrai visitantes de um dia ao santuário de chimpanzés da Fundação Jane Goodall.

Todas essas opções também me atraem, mas só tenho uma noite. O problema é que tudo no Lago Vitória é imenso. Entre os lagos de água doce, apenas o Lago Superior é maior. Imagine uma extensão de água do tamanho da Irlanda. Viajar entre as ilhas é como navegar em mar aberto. O lago pode passar de calmo a agitado, do sol à névoa, tudo durante uma única travessia.

Guia espiritual

Balsas percorrem duas rotas principais até as Ssese, saindo do continente por volta do meio-dia, pernoitando nas ilhas e retornando na manhã seguinte. Uma das viagens termina em Bukasa, e a outra vai até Kalangala. Para o meu cronograma, a escolha era uma coisa ou outra. Já vi muitas praias tropicais. Mas nunca estive em uma cachoeira mágica.

O problema é que ninguém parece saber como chegar lá.

"Você não pode ir sozinho. Nunca vai encontrar", avisa Jonathan Nsubuga, um arquiteto que visitou as ilhas como parte de sua pesquisa sobre a restauração dos Túmulos de Kasubi em Kampala. Ele liga para uma médium espiritual que havia consultado sobre as tumbas, para ver se ela pode ajudar.

Mukaka Sharifa afirma canalizar o espírito de Kintu, o governante do século XIII que fundou Buganda, o maior reino dentro do que hoje corresponde a Uganda. Isso lhe confere uma conexão especial com as ilhas. Acredita-se que Kintu tenha vindo de Ssese.

Sharifa me coloca em contato com seu irmão Micky, que pode me acompanhar para mostrar o caminho.

Foi assim que acabei em um ônibus aquático laranja para Bukasa — junto com uma cabra, algumas galinhas e sacolas gigantes repletas de coisas que as vilas de pescadores queriam e precisavam — com menos de 24 horas para encontrar a cachoeira.

Quando Micky e eu chegamos a Bukasa, pegamos um dos mototáxis "boda" que estavam esperando para transportar as pessoas, os dois espremidos atrás do motorista, com nosso equipamento de camping e nossas mochilas.

Presumo que estamos indo diretamente para a cachoeira mística em Nanziri, com bastante tempo antes do pôr do sol para vivenciar o espetáculo natural. Mas primeiro precisamos encontrar o guardião do santuário, que nos acompanhará até lá.

Um santuário palaciano

Nós nos perdemos mais de uma vez tentando encontrar o lugar. Quando finalmente chegamos ao fim de uma pequena estrada de terra, um homem com uma túnica branca nos aguarda. Ele diz que precisamos nos banhar antes de poder ir ao santuário. Não tenho certeza do que isso significa, mas ele tem um balde de água e galhos de figueira, que mergulha na água e depois espalha tudo sobre Micky e, em seguida, sobre mim.

O guardião chama o santuário de palácio, pois é a morada do espírito do rei. É retangular e projetado quase como um estábulo aberto. O céu está escurecendo, mas ainda não terminamos os cumprimentos. O guardião nos entrega a cada um um embrulho, uma folha de bananeira seca cuidadosamente enrolada. Dentro, há oito grãos de café torrados. Eles devem ser comidos devagar, um a um — pequenas mordidas fibrosas, acompanhadas de água de um jarro compartilhado. Isso sinaliza amizade, uma boa-vinda ao espaço.

A essa altura, concordamos que é tarde demais para chegar a Nanziri, então decidimos partir cedo pela manhã e ver as quedas ao amanhecer.

Embora tenhamos trazido uma barraca, o guardião diz que devemos dormir no santuário, nas esteiras trançadas, sob os cobertores que Micky havia trazido.

Pessoas visitam o santuário durante toda a noite — peregrinos ugandenses que vieram buscar saúde ou melhor sorte junto aos espíritos ancestrais profundamente enraizados ali. Alguns já se banharam na piscina da cachoeira, outros acabaram de chegar, a pé, na escuridão total.

Peregrinação descalça

Quando acordo pela manhã, o chão do santuário está repleto de pessoas dormindo lado a lado. Lá fora, mais pessoas dormem na grama, completamente vestidas, sem cobertores. De alguma forma, pelo menos 40 pessoas chegaram durante a noite.

Micky e eu partimos bem antes do amanhecer. Desta vez, duas motos nos levam, com o guardião navegando pelas trilhas de terra, iluminadas apenas pelos faróis das motocicletas. Quando ele nos manda parar, diz que precisamos tirar os sapatos e caminhar o restante do percurso descalços. Ele abre o caminho com seu cajado, parecendo flutuar pela trilha rochosa. Eu me encolho a cada pedra que cutuca a sola dos meus pés, preocupado com cobras, aranhas e outras coisas que não consigo ver.

O sol não nasce exatamente como nas fotos da savana aberta. O céu simplesmente vai clareando, e as estrelas vão se apagando. As árvores e as rochas começam a ganhar contorno.

E lá está a cachoeira. O guardião e Micky estão no final da piscina, com água jorrando de uma rocha, sem nenhum rio acima, como se alguém tivesse aberto uma torneira gigante e a deixado aberta.

A água é perfeitamente cristalina, mas não tenho coragem suficiente para entrar. Apenas mergulho minha mão nessa água fria que brota do chão. Abaixo da piscina, a água cai em cascata e desaparece entre as árvores, desembocando no Lago Vitória, que se estende por uma distância impossível de alcançar com os olhos.

Provavelmente, mais tarde no dia, as dezenas de peregrinos farão seu caminho até aqui — embora não haja espaço para muitos. O guardião diz que gostaria que mais pessoas viessem. O santuário precisa de dinheiro para manutenção, e ele e sua família dependem de esmolas para seu sustento.

Por enquanto, é um local apenas para os peregrinos que encontram o caminho até esse lugar sem sinalização no meio do nada, na esperança de partir com mais forças do que chegaram.

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