Janeiro branco: viajar também é cuidar da mente e das emoções
Janeiro Branco inspira uma reflexão sobre viagens, tempo e saúde emocional, a partir do olhar da psicanalista Tamyris R. Silva

Janeiro chega como um convite coletivo à revisão de rotas. É o mês em que o calendário recomeça e, com ele, a possibilidade de olhar para si com mais atenção. Não por acaso, também é marcado pelo Janeiro Branco, movimento que propõe uma escuta mais cuidadosa da saúde mental e das emoções.
A partir desse contexto, a psicanalista Tamyris R. Silva propõe uma reflexão sensível sobre como o ato de viajar, desacelerar e se permitir viver novas experiências, inclusive à mesa, pode se tornar uma poderosa ferramenta de cuidado emocional e reconexão com o próprio desejo.
Para Tamyris, essa conexão entre viagem e saúde emocional não acontece de forma automática. Ela se constrói nos detalhes, nas escolhas e, principalmente, na maneira como se vive o tempo fora da rotina. Mais do que indicar destinos ou roteiros, suas reflexões passam por atitudes sutis que transformam a experiência de viajar em um verdadeiro espaço de escuta interna.
A seguir, a psicanalista compartilha alguns olhares e práticas que ajudam a tornar o deslocamento físico também um movimento de cuidado psíquico.
Planejar uma viagem é um gesto de escuta interna
Escolher um destino, os restaurantes, uma estrada a ser percorrida não é apenas pura e simples logística. É, também, um exercício refinado de contato com o próprio desejo.
O bom planejamento de uma viagem envolve:
- antecipar opções sem se deixar consumir pela ansiedade;
- escolher experiências valiosas sem culpa;
- sustentar preferências que impliquem em algumas renúncias.
Ao transpor essas capacidades para o cotidiano, podemos traduzi-las em decisões diárias mais claras, menos reativas e mais coerentes com quem se é.
Mudar de lugar muda o prisma pelo qual se enxerga a si mesmo

Cidades ainda desconhecidas, idiomas não muito familiares, ritmos diferentes suspendem a repetição automática da vida diária. O corpo percebe primeiro: um mercado local, uma rua silenciosa no fim da tarde, a cadência de uma refeição que não precisa ser encerrada em 15 minutos.
Esses diferentes movimentos externos produzem efeitos internos: questões antigas passam a ser olhadas em perspectiva e, muitas vezes, com mais leveza.
O prazer gastronômico como experiência de expansão psíquica
A comida, assim como os sonhos, possui linguagem própria. Ela fala de memória, sobre afetos, cultura, ancestralidade e, também, de desejo.
Apaixonar-se por novos sabores requer curiosidade, coragem e abertura ao desconhecido. Existe o prazer, a surpresa e, às vezes, estranhamento. Nem tudo agrada e isso também faz parte da experiência que equilibra satisfações e frustrações.
Em um nível psíquico, se dispor a provar algo novo:
- reduz a rigidez mental
- aumenta a coragem ao enfrentamento do risco
- relaxa a necessidade de controle
- amplia a tolerância às frustrações
No dia a dia, isso se reflete em uma maior flexibilidade nas escolhas, no estabelecimento de vínculos saudáveis e na maneira de lidar com imprevistos e na capacidade de encontrar novas soluções.
O verdadeiro luxo é o tempo
Viajar bem não é apenas sobre acumular experiências ou carimbos no passaporte. É, antes de tudo, se dar permissão para que as vivências aconteçam em ritmos que, muitas vezes, não são ditados por nós.
Sentar-se longamente à mesa enquanto a equipe de cozinha dá o seu melhor para a refeição que, no tempo certo, será servida. Caminhar entre ruas, lojas, vielas e praças sem destino exato.
Permitir-se o "dolce far niente" não como fuga, mas como escolha de quem entende que no ócio existe um campo criativo imenso. Esse tempo desacelerado regula o sistema emocional.
O prazer deixa de ser compensação e passa a ser conquista através de presença. O corpo volta a comunicar seus limites à mente que, menos frenética, sai do excesso de pensamentos circulares.
No mês do Janeiro Branco soa oportuno ampliar a pergunta: como estamos vivendo o tempo?
Viajar não elimina conflitos. Mas desloca-os do lugar interno a partir do qual eles são vividos e pensados.
Cuidar dos roteiros e das reservas é essencial para uma boa viagem. Cuidar da saúde emocional, do próprio desejo e do tempo interno é um luxo ainda mais silencioso - e mais duradouro.
Talvez por isso tantas pessoas percebam, ao voltar de uma viagem, que algo nelas se moveu. Algo que pede continuidade. Algo que merece ser escutado e olhado com atenção.
Viajar, afinal, também pode ser isso: um convite sutil para reconhecer o que realmente pulsa em si - um pulsar que se manifesta nas experiências de fora, mas que ressoa com o que há por dentro.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia
Sobre Tamyris R. Silva

Tamyris R. Silva é psicanalista, psicoembrióloga e facilitadora de processos de autoconhecimento voltados ao bem-estar emocional, com foco na escuta clínica e no cuidado ético e integrativo de cada paciente.
Acredita que tanto o ato de viajar quanto o de vivenciar um processo de análise são experiências que ampliam o olhar não para buscar respostas imediatas, mas para construir uma relação mais consciente, expandida e verdadeira consigo mesmo.
Em quase duas décadas dedicadas à própria análise e aos estudos da subjetividade inconsciente, desenvolveu um trabalho que valoriza o tempo, a profundidade e a singularidade de cada percurso.


