Passeios culturais e históricos em Lima: o que fazer na capital do Peru

Cidade reúne desde igrejas que contam o passado colonial espanhol até centro de arte que tem ajudado a revitalizar área fora do centro

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
Compartilhar matéria

É impossível contemplar a oferta gastronômica e a vida cultural de Lima em apenas uma viagem. Ou duas. A capital peruana é um destino que revela suas camadas históricas, culturais e culinárias aos poucos.

Um dos exemplos é o Huaca Pucllana, sítio arqueológico em Miraflores, um dos pedaços mais badalados da capital. Uma grande pirâmide pré-inca descansa no meio do bairro e, até hoje, especialistas escavam os arredores em busca de mais descobertas.

Para a 10ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia, a ideia inicial era compilar o máximo de passeios e restaurantes em apenas um episódio. Spoiler: me despedi de Lima com três programas. Porém, ainda há muito o que ver e comer.

Capital gastronômica da América Latina, a cidade prova ser um paraíso para os foodies de plantão. Mas para além da minha visita aos melhores restaurantes do mundo, como o Maido, o Central e o Kjolle, assim como endereços que têm despontado entre moradores e viajantes, Lima nos oferece um mergulho cultural e histórico de valor imensurável.

Enquanto o centro guarda relíquias que narram o passado espanhol e de independência do país, galerias de arte contemporâneas são uma fuga vibrante no cotidiano. Igrejas e museus diversos também se enfileiram pela cidade. É um equilíbrio interessante.

A seguir, confira um giro histórico e cultural para compor seu roteiro em Lima:

Huaca Pucllana: pirâmide pré-inca no meio de Lima

É incrível pensar que a história e a urbanização andam lado a lado, fato notável em uma visita a Huaca Pucllana, um dos sítios arqueológicos mais acessíveis de Lima, no coração de Miraflores. O destaque é a pirâmide escalonada que chega aos 25 metros de altura, deixada aqui pela Cultura Lima, civilização pré-inca que viveu em torno de 200 a 700 a.C.

“Quando pensamos em pirâmides, normalmente pensamos nas do Egito, que são triangulares. As do Peru são planas porque foram templos. A parte mais importante é justamente a parte plana superior", explica Saskia Prieto, guia do sítio arqueológico.

Além da arquitetura monumental resistente a terremotos, o local funcionou como um centro cerimonial e administrativo. O mais interessante é que a história não acabou: ainda falta metade da pirâmide para ser escavada, processo que começou nos anos 1980. "Ainda há muito o que aprender sobre os Limas. Nossa percepção deles pode mudar de uma semana para a outra. Podemos encontrar algo que mude toda a percepção deste local", afirma a guia.

Além de um circuito turístico, o local conta com um museu que reúne os artefatos encontrados nas escavações. Informações sobre horários e preços podem ser consultados no site.

Basílica de Santo Domingo

O centro de Lima é cheio de pontos que narram a história do passado colonial e o processo de independência do país. A dica é percorrer vários dos monumentos e ruas a pé. A caminhada pode começar pela Basílica de Santo Domingo, complexo religioso que abriga uma das igrejas mais antigas da capital - a fundação remonta ao século 16, logo após a chegada dos espanhóis.

A igreja mistura arquitetura barroca e neoclássica, com azulejos originais vindos de Sevilha, na Espanha, e afrescos pintados à mão nas paredes. “A torre da igreja foi construída inicialmente para que os fiéis viessem à missa através dos sons dos sinos. No total, para chegar a última sacada, é preciso subir 35 escadarias. De lá, podemos avistar a cidade, o convento, o porto de Callao e parte do oceano", diz Patricia Montoya Rivera, guia da basílica.

O complexo abriga ainda um claustro, que funciona como um pátio superagradável e fotogênico, e uma das primeiras bibliotecas da América do Sul.

Tour pelo centro histórico

Após a basílica, a sugestão é continuar o passeio pela Plaza San Martín, uma das mais importantes da cidade, inaugurada em 1921 para celebrar o centenário de independência do Peru. No meio da praça há um monumento a Don José Martin, proclamador da independência.

Os arredores têm edifícios antigos preservados, como o Teatro Colón, inaugurado em 1914, que já teve seus tempos de ouro. Ao redor dele ficam edifícios igualmente imponentes, construídos posteriormente, entre os anos 1940 e 1960.

Ao lado da praça fica a Jirón de la Unión, uma grande e movimentada via de pedestres que conecta duas áreas centrais de Lima, nos mostrando a fusão entre o passado colonial e a vida urbana atual. No meio dela fica a Iglesia de la Merced, que tem uma das portas barrocas mais bonitas de toda a cidade. Os detalhes são tão minuciosos que poderíamos passar horas os contemplando.

Uma pequena praça na frente da igreja é lar para o monumento de Ramón Castilla, tido como um dos presidentes mais emblemáticos do país no século XIX. "Foi nessa praça, inclusive, que foi proclamada a independência do Peru", conta o guia de turismo Pablo Solórzano.

O tour pelo centro histórico pode terminar na Plaza de Armas, que reúne o Palácio do Governo e a Catedral de Lima, com construções que datam de 1535. “A cidade como a conhecemos hoje nasceu aqui. Quase 500 anos se passaram e a disposição continua a mesma", diz Pablo.

Basílica e Convento de São Francisco: passeio imperdível

Também no centro histórico, a Basílica e o Convento de São Francisco merece um destaque próprio. Para mim, é um dos pontos altíssimos em um passeio cultural pela capital. O convento foi residência dos franciscanos a partir de 1547 e visitá-lo é fazer um resgate riquíssimo sobre a história da ocupação espanhola na cidade.

Uma famosa escadaria dentro do convento nos leva a uma cúpula no estilo mudéjar, uma das mais simbólicas da América e que representava o "Novo Mundo". "É como se fosse um teto estrelado. Há muita influência arabesca, herança dos espanhóis do sul da Espanha, da Andaluzia", explica Cayetano Villavicencio, guia do convento.

A biblioteca é outro show à parte: além de ser uma joia arquitetônica por si só, ela abriga mais de 25 mil livros, não só do século XVI, mas ainda mais antigos. "Eram bíblias e livros de expansão do catolicismo e da doutrina, fomentados pela Igreja Católica e pelos reis", diz Cayetano. Aqui, cerca de 75% dos livros antigos são escritos em latim.

E tem mais: o complexo guarda uma cripta sepulcral, a maior do tipo na América do Sul, onde descansam cerca de 100 mil restos mortais, que foram coletados ao longo de mais de 280 anos entre os séculos XVI e XIX. O complexo oferece visita guiada com guias bilíngues por todas essas áreas - consulte informações no site.

Casa Fugaz, em Callao: transformações socioculturais

 

Ver essa foto no Instagram

 

Uma publicação compartilhada por Angelica Bergamini (@angelica_bergamini)


Callao é um bairro que fica ao norte de Lima, conhecido por ser um polo cultural e artístico fora do eixo central. As ruas carregam um passado boêmio e o antigo Edifício Ronald é um bem valioso que remonta ao Peru republicano.

O edifício hoje dá lugar à Casa Fugaz, que reúne ateliê, galerias e espaços de convivência voltados à arte. "Não se encontra algo assim em outra parte do mundo. Temos uma casa de seis andares e 14 salas de arte onde podemos reunir e convidar muitos artistas e pensadores", diz Leyla Aboudayeh, diretora cultural do projeto Monumental Callao.

A proposta é instigar uma nova ocupação dos arredores, inclusive com ajuda da população local, através de mudanças causadas pela arte, cultura e gastronomia. A criminalidade na região já chegou a ser muito alta e a inclusão da arte como uma ferramenta sociocultural tem ajudado a recuperar o espaço público e o senso de confiança.

A entrada é gratuita e há um rooftop com vista para o porto de Callao. A programação da Casa Fugaz pode ser conferida diretamente no site.

Bônus: giro cultural por Barranco

A apenas algumas quadras do Oceano Pacífico, o bairro de Barranco é um dos pedaços mais especiais de Lima. Uma simples caminhada pelo bairro revela sua alma gastronômica: cafés, cevicherias e sorveterias se enfileiram por aqui. É também lar para o Central e o Kjolle, dos chefs Virgilio Martínez e Pía León, entre os melhores restaurantes do mundo.

Como todo bom bairro, o agito cultural é garantido. Entre as dicas destaca-se o Museu Pedro de Osma, em um casarão sereno que exibe obras de arte riquíssimas que são uma mistura do catolicismo com crenças incas. Algumas das peças são raras e só podem ser contempladas aqui.

Outro point é o MAC Lima - Museu de Arte Contemporânea, um contraponto ao passado com peças e programações artísticas que refletem os tempos atuais. Recorrentemente ocorrem exposições com foco em obras e artistas latino-americanos.

Para terminar o dia, passe pela Ponte dos Suspiros, que carrega uma lenda romântica: devemos atravessá-la sem respirar para termos direito a um desejo. Depois, contemple o pôr do sol em um dos vários mirantes com vista para o mar. É daqueles momentos que ficam na memória.

 

Acompanhe Viagens e Turismo nas Redes Sociais