Bulgária e Turquia: viagem entre impérios, mesquitas e cidades milenares
De Sófia a Istambul, roteiro pelos Bálcãs une camadas de diferentes culturas, sabores locais reinterpretados e cidades moldadas entre Oriente e Ocidente

Atravessar os Bálcãs é entender que a Europa nunca foi um território estático. Conflitos, guerras e disputas de impérios moldaram a região ao longo dos séculos e, até hoje, a geopolítica local tem sido definida, adaptada e transformada. No meio disso, encontrei mesas fartas como sinal de hospitalidade, cidades vibrantes cheias de riquezas culturais e uma força de reinvenção extraordinária.
A Bulgária e a Turquia formaram o trecho final do "Grande Expresso do Oriente", jornada de conhecimento que durou mais de 20 dias entre trem e hotéis. Desenhada pela agência brasileira Latitudes, pioneira ao realizar viagens em grupo com aprendizados profundos sobre os destinos, a travessia me revelou uma Europa distante dos cartões-postais mais óbvios.
Ao todo, percorri 10 países e 14 cidades, o que rendeu cinco episódios da 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia. A última porção da viagem, com passagem por cidades como Sófia e Plovdiv, na Bulgária, e Istambul, na Turquia, evidenciou ainda mais o encontro entre Oriente e Ocidente, que coexiste nas ruas, nos templos, nos idiomas, na comida e na arquitetura.
Viajar por essa parte do continente é vivenciar uma história que se arrasta há séculos. É ver marcas da antiga União Soviética diante de igrejas ortodoxas e caminhar por ruínas romanas enquanto minaretes erguem-se no horizonte. Saí dessa jornada transformada não apenas pelas paisagens e monumentos, mas pela sensação de ter atravessado uma região que ensina, o tempo todo, sobre reinvenção e memória.
Sófia: catedrais douradas, passado comunista e novos sabores
Com cerca de 1,5 milhão de habitantes, Sófia foi uma das cidades que melhor sintetizou a essência dessa travessia entre vários mundos. Vibrante e surpreendentemente moderna, a capital búlgara carrega marcas de sua trajetória política e religiosa.
A história recente do país ajuda a explicar parte dessa identidade. "A Bulgária fica independente no início dos anos 1900 com ajuda da Inglaterra, da Áustria-Hungria e da Alemanha, por exemplo. No começo dos anos 1990, ela transita de um país comunista, alinhado à União Soviética, para tentar abandonar esse mundo", explica Saulo Goulart, historiador que esteve presente na viagem.
Assim, andar por Sófia é perceber essas camadas convivendo lado a lado. No centro da cidade, a monumental Catedral Alexander Nevsky domina a paisagem com cúpulas douradas. Construída após a libertação búlgara do domínio otomano, funciona quase como um manifesto arquitetônico da identidade ortodoxa do país. Mármore, pedras preciosas, muitos detalhes dourados e enormes ícones religiosos reforçam a grandiosidade do endereço.
A poucos passos, a atmosfera muda completamente na Igreja de Santa Sofia, templo que acabou dando nome à própria cidade e que remete aos séculos IV e VI. No subterrâneo, ruínas romanas, antigos mosaicos e vestígios arqueológicos revelam uma história impressionante. Entre os corredores, símbolos cristãos usados na catequização, como desenhos que representam o paraíso, ajudam a contar como religião e poder caminharam juntos ao longo do tempo.
Sófia também chama a atenção pelos contrastes arquitetônicos. No centro, o antigo palácio real em estilo neoclássico, hoje um museu de arte, divide espaço com edifícios de influência soviética, largas avenidas e construções comunistas monumentais. Até o chão do centro histórico guarda uma peculiaridade: parte do pavimento é feito com uma argila amarela vinda do Danúbio, material caro que passa duas vezes pelo forno antes de ganhar as ruas da capital.
Como sempre acontece comigo, entender uma cidade também passa pela mesa. Cheguei a Sófia com uma lista de restaurantes em mãos, e o Cosmos estava no topo. Liderado pelo chef executivo Vladislav Penov, o restaurante trabalha com ingredientes locais vindos de até 200 km da capital e traduz a culinária búlgara sob um olhar contemporâneo.
Provei um Kačamak, prato cremoso à base de milho, reinterpretado com peixe defumado e ingredientes frescos, além de um cordeiro servido sobre arroz fermentado, acompanhado dos miúdos e do próprio molho da carne. Na sobremesa, um leve bolo de baunilha perfumado com rosa húngara e sorvete de iogurte encerrou a refeição.
Nos arredores da capital, outro símbolo ajuda a compreender a força da espiritualidade búlgara. A cerca de 1h30 de Sófia, o Mosteiro de Rila surge cercado por montanhas e florestas em uma paisagem quase fictícia. Fundado no século X por São João de Rila, o complexo ortodoxo é considerado o mais importante da Bulgária e integra a lista de Patrimônios Mundiais da UNESCO.
Ao longo dos séculos, o mosteiro foi atacado e reerguido. O que vemos hoje é uma reconstrução do século XIX. No interior da igreja principal, a iconografia impressiona: há madeira talhada, ouro, afrescos e relíquias sagradas. Para mim, uma das cenas mais marcantes estava do lado de fora: além das longas filas para chegar perto das relíquias religiosas, havia muita procura pelos famosos pães preparados pelos monges.
Plovdiv: uma cidade construída sobre civilizações
De Sófia seguimos para Plovdiv, uma das cidades mais antigas da Europa. Há registros de assentamentos humanos na região há cerca de seis mil anos, apesar de alguns sítios arqueológicos apontarem ocupações ainda mais antigas.
Plovdiv tem uma atmosfera diferente do restante dos Bálcãs. As famosas casas simétricas do século XIX, construídas durante o renascimento nacional búlgaro, criam um ambiente quase cenográfico. Ao mesmo tempo, ruínas romanas, mesquitas otomanas e cafés modernos convivem com a vida cotidiana. No centrinho, há vielas de pedra, música ao vivo, ruínas e pequenos restaurantes lado a lado.
No Nebet Tepe, complexo arqueológico que marca um dos primeiros assentamentos da cidade, enormes pedras revelam camadas de ocupação humana, já que tribos indo-europeias, romanos, bizantinos e otomanos passaram por aqui.
Um dos monumentos mais incríveis da região é o Teatro Romano de Filipópolis, construído no século I d.C. Ainda preservado, reforça a ideia de que, nos Bálcãs, diferentes culturas vão se acumulando.
Istambul: onde Oriente e Ocidente se encontram

Depois de atravessar os Bálcãs por terra, chegar a Istambul marcou o fim da viagem. Lar para mais de 16 milhões de pessoas, Istambul não é a capital da Turquia, mas sua cidade mais populosa. Coração dos antigos impérios Otomano e Bizantino, a cidade é um prato cheio para quem ama o passado e, principalmente, para quem ama ver como ele influencia o presente.
Antiga Constantinopla, a cidade condensa séculos de história, comércio, religião e disputas geopolíticas em uma única paisagem. Merece muito mais do que uma breve parada, mas poucos dias bastam para entendermos sua força simbólica.
Uma das paradas obrigatórias é no Grand Bazaar, onde corredores são tomados por especiarias, tapetes, joias, perfumes e chás. Alguns vendedores são tão persuasivos que falam até português. Nascido originalmente no século XV, o bazar segue como um centro comercial ativo, ocupando uma área de mais de 30 mil metros quadrados. A visita pode durar 30 minutos ou levar um dia inteiro, dependendo do nosso intuito. Na hora de comprar, a regra é clara: devemos negociar.
Outro ponto inesquecível foi a subida à Torre de Gálata, construída originalmente como torre de vigilância. Hoje, oferece uma das vistas mais privilegiadas da cidade. Do alto, o Chifre de Ouro mostra por que Istambul se tornou tão estratégica para diferentes impérios. Daqui, é possível enxergar mesquitas, barcos cruzando o estreito e bairros que se conectam aos dois continentes.
Com mais de 90% da população muçulmana, Istambul reúne mais de três mil mesquitas. Nomes como Mesquita Azul, Hagia Sophia e Süleymaniye estão entre os locais sagrados mais emblemáticos do mundo, mesclando fé e história.
A gastronomia única, os monumentos bem preservados, os passeios sobre a água e os banhos turcos são outros motivos pelos quais Istambul merece ser apreciada em uma viagem mais longa.


