Como Reino Unido e Singapura pretendem viver com a Covid-19

Países tem abordagem diferentes para lidar com o vírus a longo prazo. Entenda:

Tara John e Nectar Gan, da CNN
17 de julho de 2021 às 11:28
Usar somente com a reportagem: Como Singapura e Reino Unido pretendem viver com
Singapura e Reino Unido têm visões diferentes sobre o vírus
Foto: Feline Lim/Getty Images

Mais de um ano e meio após o início da pandemia de coronavírus, as nações ricas do mundo estão começando a aceitar que a Covid-19 não vai desaparecer — apesar das altas taxas de vacinação estarem reduzindo drasticamente o número de hospitalizações e mortes.

Mas, embora possam concordar que o vírus veio para ficar, de alguma forma, no futuro previsível, esses países têm abordagens radicalmente diferentes para lidar com ele.

Singapura, um estado insular de 5,69 milhões de habitantes, e o Reino Unido, lar de cerca de 66 milhões de pessoas, tiveram experiências de pandemia — e resultados — muito diferentes até agora.

O Reino Unido tem um dos maiores números de mortes relacionadas à Covid-19 no mundo — quase 129.000 desde o início da pandemia —, enquanto apenas 36 pessoas morreram por conta do vírus em Singapura. A cada 100.000 habitantes do Reino Unido, houve 192,64 mortes. Isso cai para 0,63 em Singapura, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins. 

O governo do Reino Unido foi amplamente condenado por ser lento na implementação de medidas de controle da pandemia, como tornar obrigatório o uso de máscaras e instaurar lockdowns, quando o vírus começou a se espalhar na primavera de 2020.

Por outro lado, Singapura fechou rapidamente as suas fronteiras, implementou um abrangente programa de rastreamento e testes  e impôs requisitos de quarentena desde o início.

Agora os dois países estão traçando caminhos diferentes para sair da pandemia; seus planos provavelmente serão vistos como casos de teste para outras nações, à medida que intensificam seus programas de vacinação.

Os roteiros

Reino Unido alerta para infecções da variante originária da Índia em escolas (05.jun.2021)
Foto: Reprodução / CNN

Em junho, legisladores de Singapura revelaram o roteiro do país para um "novo normal" em uma carta publicada no Straits Times , descrevendo um afastamento radical do modelo anterior de "transmissão zero". 

As chamadas abordagens "zero-Covid" foram adotadas por vários países e territórios na região da Ásia-Pacífico.

Mas a carta revelou que as autoridades de Singapura estavam procurando mudar de rumo, passando do monitoramento diário de casos para um foco em resultados médicos como "quantos ficaram doentes, quantas pessoas estão na unidade de terapia intensiva (UTI), quantos precisam ser intubados para oxigênio, e assim por diante ", escreveram eles.

No futuro, eles esperam, a Covid-19 será tratada como uma doença menos grave, como a gripe ou a catapora.

Semanas depois, o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, fez uma observação semelhante, prevendo que a Covid-19 "se tornaria um vírus com o qual aprendemos a conviver como já fazemos com a gripe".

Johnson anunciou planos para suspender quase todas as restrições ao coronavírus, incluindo o uso da máscara e as regras de distanciamento social, na Inglaterra em 19 de julho.

Ele disse que o lançamento bem-sucedido da vacina no país — onde 66% da população adulta já recebeu as duas doses da vacina — quebrou o vínculo entre infecções e doenças graves.

Mas o número de casos da Covid-19 ultrapassou 50.000 por dia no Reino Unido, ao mesmo tempo em que a "vida normal" é retomada — quase 52.000 novos casos e 49 mortes foram registrados na sexta-feira (16).

A reabertura da Inglaterra é a mais recente medida pandêmica para dividir opiniões no país.

Embora muitos membros do Partido Conservador de Johnson apoiem sua abordagem, os cientistas emitiram avisos terríveis de que a saúde de milhões de pessoas está em jogo, uma vez que a imunidade coletiva não foi alcançada e cerca de 17 milhões de pessoas — algumas classificadas como extremamente vulneráveis à Covid-19 — permanecerão não vacinadas.

Depois que o estudo sugeriu que milhares de pessoas poderiam morrer se o Reino Unido reabrir em julno, Johnson deu o pontapé inicial no "Dia da Liberdade" do Reino Unido. 

O Dr. Oliver Watson, um pesquisador que modela a transmissão de Covid-19 no Imperial College London, disse à CNN que parecia haver pouca vontade política para atrasar ainda mais a reabertura, apesar dos números e da maior transmissibilidade da variante Delta, que agora é a cepa dominante da Covid-19 no Reino Unido.

Watson contrastou o afrouxamento das restrições do Reino Unido diante de todos os dados, com a situação em Singapura, onde — apesar da determinação de voltar à vida normal — as autoridades ainda parecem ansiosas para reprimir os casos do vírus.

"A facilidade com que Singapura vai apertar suas restrições em resposta a surtos locais é completamente diferente de como eles [o governo do Reino Unido] lidam com as coisas", disse ele.

Um "experimento antiético"?

Aeroporto em Singapura
Foto: David Gray/Getty Images

Singapura atualmente registra em média 26 novos casos de Covid-19 por dia; ainda não há data fixa para sua reabertura.

O ministro da Saúde do país, Ong Ye Kung, disse à Bloomberg em 9 de julho que o roteiro de Singapura divergia consideravelmente da "abordagem big bang" do Reino Unido para a reabertura. “Acho que o que queremos é seguir um caminho mais intermediário”, disse ele, explicando que era fundamental atingir altas taxas de vacinação e “manter medidas de contenção e mitigação”.

Cerca de 40% da população de Singapura recebeu sua segunda dose da vacina, e o governo diz que o país está a caminho de vacinar 3/4 de toda a sua população até 9 de agosto. Ao contrário do Reino Unido, adolescentes com mais de 12 anos estão incluídos no os dados de vacinação. O Reino Unido ainda não aprovou a vacina para essa faixa etária.

Ye Kung disse à Bloomberg que "o equilíbrio mudará", mas as medidas de mitigação e contenção não seriam abandonadas. Em vez disso, disse ele, a reabertura de Singapura seria gradual, "pacote por pacote — nada de 'big bang' — e a cada passo do caminho, haverá a certificação de que a população está segura".

De volta à Inglaterra, muitos estão assistindo a aposta de reabertura de Boris Johnson com preocupação.

Mais de 100 médicos e cientistas alertaram na semana passada que a mudança não foi apenas prematura, mas que "a transmissão total afetará desproporcionalmente crianças não vacinadas e jovens que já sofreram muito".

A estratégia criará "um terreno fértil para o surgimento de variantes resistentes a vacinas", colocando em perigo o Reino Unido e o resto do mundo, acrescentaram. "Acreditamos que o governo está embarcando em um experimento perigoso e antiético e pedimos que ele interrompa os planos de abandonar as mitigações em 19 de julho", escreveram eles.

Falando em uma entrevista coletiva na segunda-feira, Johnson defendeu os planos de reabertura, dizendo que as próximas férias escolares atuariam como um "quebra-fogo natural" para ajudar a limitar a disseminação do vírus entre as crianças.

Johnson também pediu que as pessoas assumam uma "responsabilidade pessoal" e recomendou que usassem coberturas para o rosto em espaços lotados ou fechados, apesar de sua decisão de retirar a máscara.

Essa confiança na responsabilidade pessoal levantou sobrancelhas. "É muito fácil [transferir] esse ônus da responsabilidade pessoal e jogar a culpa na população se as mortes aumentarem", disse Watson.

"Além dos 17 milhões de pessoas sem proteção, um aumento nos casos também pode causar a morte de alguns indivíduos parcial ou totalmente vacinados", disse ele, acrescentando que é "horrível" assistir ao Reino Unido — um dos poucos países do mundo ter acesso em larga escala às vacinas —  desperdice esta ferramenta vital contra a Covid-19 com uma reabertura antecipada.

Vacinas e testes

Vacinação no Reino Unido contra o novo coronavírus
Foto: Reuters

Em contraste com o Reino Unido, o roteiro de Singapura para sair da crise da Covid-19 enfrentou pouca oposição pública, em parte graças aos altos níveis de confiança no governo, que é creditado por ter ajudado a manter o vírus sob controle nos últimos 18 meses.

Em sua luta contra o coronavírus, o estado-ilha tem vantagens que muitos países maiores não têm: tem uma população pequena que está acostumada a uma formulação de regras um tanto draconianas e hierárquicas.

Além disso, sua experiência com o surto de SARS em 2003 deu-lhe uma vantagem de 17 anos na criação de instalações de quarentena, construção de laboratórios e uma força de trabalho para a próxima doença viral.

Isso significa que, nos meses após o primeiro caso relatado na China, "estávamos em cima disso", disse Dale Fisher, professor de doenças infecciosas da Universidade Nacional de Singapura (NUS), à CNN.

Uma grande parte do sucesso de Singapura em conter o coronavírus reside em seu extenso e agressivo sistema de rastreamento de contato. Usando a tecnologia sem fio Bluetooth, seu aplicativo Trace Together rastreia encontros íntimos entre pessoas, permitindo que contatos íntimos de casos confirmados sejam isolados rapidamente. O uso do aplicativo é obrigatório para entrar em lojas e locais públicos.

Fila para a vacinação em Singapura
Foto: NurPhoto / Colaborador / Getty Images

Mas a atitude não é isenta de controvérsias.

O governo admitiu este ano que os dados do aplicativo Trace Together podem ser entregues à polícia para investigações criminais, gerando críticas do público.

Altos níveis de cobertura vacinal são fundamentais para o plano de reabertura do governo. Mas os legisladores não têm certeza se alcançarão a cobertura de 90 ou 95% necessária para imunidade de rebanho, disse o ministro da Saúde, Ong, à Bloomberg. "Podemos conseguir 80%, se tivermos sorte", disse ele.

As autoridades de Singapura estão trabalhando com base no fato de que a Covid-19 deixará de ser uma pandemia e se tornará endêmica entre sua população — ela ainda circulará, mas a uma taxa muito baixa.

A reabertura de Singapura será gradual e as alavancas não serão levantadas da noite para o dia.

Apesar de ter menos casos do que no Reino Unido, as regras atuais de distanciamento social de Singapura limitam os encontros a cinco pessoas. Quando 40% da população adulta do Reino Unido recebeu as duas doses da vacina em junho — que é o número atual de vacinação total em Singapura —, até 30 pessoas podiam legalmente se reunir em um ambiente fechado.

E, ao contrário do Reino Unido, a entrada em Singapura é amplamente limitada aos cidadãos e residentes permanentes do país — mas eles devem ficar em quarentena por 14 dias em um hotel ou em casa.

No final de julho, as pessoas totalmente vacinadas poderão se reunir em grupos de oito. A partir desta semana, funcionários em ambientes de "alto risco" — como ginásios, restaurantes e salões de beleza — serão obrigados a fazer testes Covid a cada quinze dias, de acordo com um site do governo . Enquanto isso, o teste no local de trabalho não é obrigatório no Reino Unido. 

"Conforme mais pessoas forem vacinadas em Singapura, o número de infecções será menos preocupante", disse Fisher, especialista em doenças infecciosas. "Em vez de relatar infecções diárias, o foco deve ser em quantas dessas infecções se revertem em hospitalizações e mortes", acrescentou.

"Isso muda o jogo, porque o que significava um caso há um ano, quando não havia vacina, é bem diferente do que significa um caso agora", disse Fisher.

Ainda assim, a reabertura de Singapura "não será no estilo britânico 'tire as máscaras e vamos festejar'", disse ele.

Os detalhes mais finos do roteiro de Singapura ainda estão sendo elaborados por suas agências de saúde, mas Fisher avalia que a reabertura pode permitir que os cidadãos viajem mais livremente e fiquem em quarentena em casa se forem vacinados, em vez de em instalações dedicadas.

Pessoas infectadas com Covid-19 e, ocasionalmente, alguns de seus contatos próximos, são isoladas em instalações exclusivas. Mas à medida que Singapura reabre gradualmente, as pessoas infectadas irão se recuperar em casa "porque com a vacinação os sintomas serão em sua maioria leves. Com outras pessoas ao redor da pessoa infectada também vacinadas, o risco de transmissão será baixo", disse a carta do Straits Times.

Foto: Getty Images (dowell)

"A questão é que não queremos manter os bloqueios tão apertados, mas também não queremos 5.000 casos durante a noite", disse Fisher. "Eu acho que vai ser sobre manter um controle, mas indo em direção a restrições mais brandas."

Um ato de equilíbrio

Embora muito tenha sido falado sobre a necessidade de equilibrar as medidas de saúde pública e economia, os dois não são mutuamente exclusivos, dizem os especialistas.

"Pode parecer uma coisa boa economicamente abrir o país imediatamente, mas se o resultado final for outra onda de infecções, o que eu acho que é razoavelmente possível no Reino Unido, então, a longo prazo, pode ter sido ruim economicamente", disse David Matchar, professor da Duke-NUS Medical School em Singapura, à CNN.

Matchar disse que Singapura está tentando suspender as restrições lenta e continuamente, a fim de evitar que os hospitais fiquem superlotados e, por sua vez, evitar os choques econômicos causados por bloqueios drásticos.

Os acontecimentos em Israel — um dos países mais vacinados do mundo — prenunciam os riscos que virão.

Israel começa a vacinar adolescentes entre 12 e 15 anos contra a Covid-19 (06.Jun.2021)
Foto: Reprodução/CNN

Depois de suspender a maioria dos regulamentos da Covid-19 em junho, os legisladores israelenses restabeleceram a obrigatoriedade da máscara em lugares fechados no final de 25 de junho, após um aumento nos casos causados pela variante Delta.

Apesar de suas afirmações anteriores de que a suspensão do bloqueio do Reino Unido era "irreversível", nesta semana o primeiro-ministro Johnson afirmou não descartar a reimposição de restrições se uma nova variante resistente às vacinas emergir. 

"Parece uma pena que o Reino Unido não possa esperar um pouco mais como Singapura e, em vez disso, esteja optando por apostar nos ganhos de seu lançamento de vacina 'brilhante e eficaz'", disse Watson, do Imperial College.

(Texto traduzido. Leia o original em inglês.)