14 vacinas aprovadas para Covid-19 e dezenas em teste em todo o mundo; conheça

Mais de 200 imunizantes estão sendo pesquisados no planeta, informa a Organização Mundial de Saúde (OMS). Outros 13 já foram aprovados

Fábio de Oliveira, colaboração para a CNN*
24 de abril de 2021 às 05:00 | Atualizado 25 de abril de 2021 às 10:17
Profissional de saúde prepara dose de vacina contra o coronavírus
Profissional de saúde prepara dose de vacina contra o coronavírus
Foto: Alexandre Silva/FotoArena/Estadão Conteúdo

Um fato é quase certo: a pandemia de Covid-19 entra para a história como a deflagradora do desenvolvimento de vacinas em tempo recorde. O que em geral levaria uma década ou mais foi realizado em alguns meses, com a aprovação para uso emergencial em alguns países ainda em 2020.

Hoje, há 14 imunizantes contra a Covid-19 aprovados no planeta, como os da Pfizer/BioNTech, da Moderna e da Oxford/AstraZeneca (veja quadro abaixo). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 91 em fase clínica, ou seja, já estão sendo testados em seres humanos. No estágio anterior, com a pesquisa ainda em laboratório ou usando animais, o número é de 184.

Duas candidatas brasileiras devem em breve ser avaliadas em pessoas: a ButanVac, do Instituto Butantan, e a Versamune®-CoV-2FC, que é fruto de um consórcio entre a empresa brasileira Farmacore Biotecnologia, a americana PDS Biotechnology e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

Vacinas aprovadas no mundo
Foto: Arte/CNN Brasil

 

Vacinas aprovadas no mundo
Foto: Arte/CNN Brasil

De acordo com o Ministério da Saúde, há ao todo 17 imunizantes contra o SARS-CoV-2 sendo pesquisados no país. O grande avanço em meio à corrida por uma proteção imunológica contra a Covid-19 foi o surgimento das vacinas de RNA mensageiro, a informação genética contida no vírus. (veja quadro sobre os tipos de vacina). Os produtos da Pfizer/BioNTech e da Moderna contam com a tecnologia inovadora.

“Um conjunto de fatores levou ao rápido desenvolvimento de vacinas”, diz o químico Luiz Carlos Dias, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante da Força Tarefa Unicamp contra a Covid-19.

Em primeiro lugar, está o fato de que se trata de uma pandemia, ou seja, afeta o planeta inteiro. “Houve também um compartilhamento de resultados entre os cientistas nunca visto antes”, continua o professor. Além disso, os especialistas sequenciaram o genoma do SARS-CoV-2 logo em janeiro de 2020. “Todas as vacinas são baseadas no código genético do vírus”, explica Dias.

Por fim, os pesquisadores adaptaram plataformas em estudo para outras doenças, como a Zika e a Sars, para o microrganismo causador da Covid-19. É o caso do RNA mensageiro e da estratégia usada na vacina Oxford/AstraZeneca, que utiliza um vírus que causa resfriado em chimpanzés para transportar o gene de uma proteína do SARS-CoV-2 e, dessa forma, gerar a resposta imune. Ele não é capaz de se replicar no nosso organismo.

Tipos de vacinas existentes
Foto: Arte/CNN Brasil

 

A busca por uma vacina brasileira para a Covid-19

O Brasil conta com 17 vacinas em fase de estudo contra o novo coronavírus. A maioria está em fase pré-clínica, aquela etapa anterior aos testes com seres humanos na qual os cientistas realizam pesquisas com células e, em seguida, animais.

Duas já entraram com pedido de autorização junto à Anvisa (Anvisa) para iniciar a avaliação com voluntários. Nessa etapa, o objetivo é verificar se o organismo produz anticorpos e se não há efeitos colaterais graves.

Em nota à CNN, a Anvisa afirmou que recebeu o pedido de autorização de estudo da vacina Versamune no dia 25 de março e que, no dia 27 de março, respondeu à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) indicando a exigência de informações necessárias.

Já o pedido de estudo da ButanVac foi recebido no dia 26 de março. No dia 29 de março, foi emitida pela Anvisa a exigência para o Instituto Butantan referente ao pedido de anuência de estudo clínico para a candidata à vacina. A Anvisa informou que “a conclusão da análise do pedido de estudo depende dos laboratórios neste momento”.

A vacina do Butantan

A ButanVac é uma iniciativa do Instituto Butantan em parceria com as empresas Dynavax e Path. A vacina usa um vírus que causa infecção em aves, a doença de Newscastle, como vetor – que não provoca sintomas em seres humanos. Ela será fabricada utilizando o mesmo método para se obter o imunizante contra o vírus da gripe.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, explicou que a Butanvac é desenvolvida na plataforma utilizada para a produção da vacina da gripe, que é uma das mais usadas no mundo. Essa plataforma fica um período ociosa – porque a gripe é sazonal. “Sendo possível demonstrar a sua eficácia e eficiência, ela será uma vacina de baixo custo e que poderá ser rapidamente disseminada para todas as plantas de produção que existem no mundo”, conclui.

O microrganismo é inativado e contém a proteína que o coronavírus usa para entrar nas células – é isso que gera a resposta imune. O Butantan será o principal produtor do imunizante, com 85% da capacidade total, e o disponibilizará para o Brasil e os países de baixa e média renda. Parte da tecnologia que será usada foi desenvolvida pela Icahn School of Medicine do Hospital Mount Sinai, de Nova York.

“O Butantan já usou o material genético da nova variante do SARS-CoV-2, a P.1, no imunizante”, diz o químico Luiz Carlos Dias, que é professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Se for constatada a eficácia, a vacina poderá ser produzida no país sem a dependência de insumos da Índia e da China.”

O vice-governador do estado de São Paulo, Rodrigo Garcia (DEM) anunciou, em coletiva de imprensa, que o Instituto Butantan enviou na manhã desta sexta-feira (23) uma solicitação à Anvisa de início dos testes clínicos. Os estudos das fases 1 e 2 são realizados em um período de 20 semanas, mas o Butantan espera obter os resultados de análise a partir da décima primeira semana para, a partir disso, solicitar o uso emergência junto à Anvisa.

“A ButanVac é uma grande esperança, mas ainda exige nesse momento, o desenvolvimento clínico. A capacidade de produção nós temos. Uma vez aprovada, ela será produzida numa fábrica separada, independente da fábrica que produz a CoronaVac”, afirmou Dimas Covas.

Versamune

Com parte do financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), a Versamune é outro imunizante brasileiro que está sendo desenvolvido por um consórcio entre a empresa brasileira Farmacore Biotecnologia Ltda, a americana PDS Biotechnology, e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).

A vacina associa nanopartículas lipídicas a uma subunidade de uma proteína do SARS-CoV-2. Um de seus diferenciais em relação aos outros imunizantes é ativar a via do interferon tipo 1, um dos mecanismos mais efetivos para o combate às infecções virais e que induz memória imunológica de longa duração.

Em nota, o MCTI afirmou que os testes clínicos (fases 2 e 3) com pacientes devem começar em breve, após aprovação pela Anvisa, e que a perspectiva é de que o Brasil tenha uma vacina 100% nacional até o fim do segundo semestre deste ano.

Imunizante nasal

No Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (Incor), outra pesquisa com apoio do MCTI está em busca de um imunizante nasal para barrar o novo coronavírus. “Nos Estados Unidos, já existe uma vacina nasal para gripe”, conta o imunologista Jorge Kalil, que é diretor do Laboratório de Imunologia do Incor e coordenador do Instituto de Investigação em Imunologia.

O grupo de cientistas liderados pelo especialista procurou encontrar alvos moleculares para garantir uma resposta de anticorpos neutralizantes contra o SARS-CoV-2 e de células do sistema imune que, entre outras coisas, matam outras células que estejam infectadas. Para isso, os pesquisadores colheram e analisaram amostras de sangue de 220 pacientes que se recuperaram da Covid-19.

Eles também se valeram da bioinformática para investigar o genoma viral, avaliando pedaços das 36 proteínas do novo coronavírus e como agem no nosso corpo para, dessa forma, obter mais informações que possibilitam estimular o trabalho de células de defesa. Descobertos os antígenos capazes de deflagrar uma boa resposta imunológica, foi obtida uma proteína para ser utilizada no imunizante.

Os antígenos usados na vacina vão ser colocados em nanopartículas com um adjuvante, uma substância que incita a reação imunológica, para serem inalados. Por via nasal, há a produção de anticorpos específicos das mucosas, os IGA, e de células de defesa que atuam na região, além de IGC, anticorpos que circulam por todo o organismo. O protótipo já foi testado em animais. Kalil estima que dentro de dois a três meses deve solicitar autorização da Anvisa para iniciar a avaliação com seres humanos.

As principais dúvidas sobre imunização

1. Quais os riscos da vacinação em crianças e gestantes?

“Todas as vacinas, principalmente as produzidas com vírus vivos, como a da febre amarela e a do sarampo, apresentam o risco de atravessar a barreira placentária e acometer o feto”, explica o virologista Flávio Guimarães, que é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. Por isso, todos os estudos que consideram a participação de gestantes são realizados com cautela.

Uma análise preliminar com dados de americanos, feita com as vacinas da Pfizer e da Moderna, mostrou que os imunizantes não parecem representar nenhum risco 

O Ministério da Saúde vai discutir com associações médicas a possibilidade de inclusão de mulheres grávidas. Atualmente, o Ministério orienta a vacinação por gestantes, puérperas e lactantes que fazem parte de um dos grupos prioritários, especialmente com comorbidades.

Quanto aos pequenos, em geral os imunizantes são avaliados em pessoas a partir dos 18 anos. Mas pesquisas com a vacina contra a Covid-19 já começaram a ser feitas nos menores de idade. A prioridade de vacinação são idosos e indivíduos com outras doenças. “A criança pode adoecer, mas o risco é menor do que nesses grupos”, fala a pediatra Flavia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

2. As novas variantes interferem na imunização?

Os anticorpos produzidos pela vacina são direcionados para a proteína S, a que o vírus usa para entrar nas células. As mutações acontecem justamente na parte da proteína na qual eles se ligam para barrar essa invasão. Essa forma de contenção poderia ocorrer com menor eficiência, possibilitando um escape do vírus. Mas um estudo com a CoronaVac, do Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, mostrou que ela é eficaz com as novas variantes do Sars-Cov-2, inclusive a P.1, brasileira.

O imunizante da Oxford/AstraZeneca também foi capaz de barrar a P.1 , mas ela se mostrou menos resistente à cepa variante da África do Sul. Já uma pesquisa publicada no periódico científico New England Journal of Medicine apontou que as vacinas da Pfizer e da Moderna protegem contra a cepa sul-africana.

3. Quem já teve Covid-19 precisa ser vacinado?

Precisa, sim. “Quem já teve Covid-19 deve ser vacinado porque ainda não se sabe quanto tempo dura a imunidade adquirida”, diz o virologista Flávio Guimarães, que é professor da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. Essa é a orientação, por exemplo, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

4. Quais as reações adversas que podem ocorrer?

“Elas são, em geral, brandas, como febre, dor no corpo e no local de aplicação da vacina”, diz o virologista Flávio Guimarães. Reações alérgicas graves, por exemplo, não têm sido relatadas para os imunizantes contra a Covid-19.

Os casos de anafilaxia com a vacina da Pfizer não fugiram do número esperado, de acordo com a pediatra Flavia Bravo. De qualquer forma, a imunização deve ser realizada com profissionais com capacitação e equipamento para atender qualquer eventualidade.

Em março, vários países da Europa suspenderam o uso da vacina Oxford/AstraZeneca diante da suspeita de que ela poderia influenciar a formação de coágulos. A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que ela era segura e eficaz depois de especialistas atestarem que o uso do imunizante não está associado a um aumento do risco geral de coágulos no sangue, apesar de a investigação ter mostrado um número pequeno de distúrbios raros e incomuns de coagulação sanguínea.

A Fiocruz, produtora da vacina com a tecnologia de Oxford/AstraZeneca no Brasil, afirmou em nota oficial que a vacina não está associada ao aumento de risco de coágulos sanguíneos. 

5. É possível transmitir o vírus depois de ser imunizado?

“A princípio, é possível”, diz o virologista Flávio Guimarães, da UFMG. “Às vezes, algumas vacinas podem ter alguma possibilidade de escape imunológico.” Em outras palavras, não conseguem barrar um vírus completamente. “Além disso, nenhum imunizante tem eficácia de 100%”, completa o especialista.

6. O que acontece se eu tomar a primeira dose e não tiver vacina para a segunda? Eu fico imunizado?

Se a vacina exigir duas doses, e a pessoa só tomar uma, ela não fica protegida. “Não dá para garantir a eficácia com só uma dose”, explica o virologista Flávio Guimarães, da UFMG. Nas pesquisas que avaliam um imunizante, os cientistas levam em conta o número de picadas que são necessárias e o intervalo entre elas para o organismo produzir uma resposta imunológica satisfatória.

7. Por que as vacinas à base de RNA precisam ficar armazenadas em temperaturas abaixo de zero?

O material genético usado nesse tipo de imunizante, o RNA, sofre uma reação química de degradação com o aumento da temperatura, segundo o químico Luiz Carlos Dias, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Quando começaram a ser usadas, vacinas como as da Pfizer/BionNTech precisavam ficar armazenadas a -70°C, o que dificultava sua utilização em regiões sem os refrigeradores adequados.

No final de fevereiro deste ano, a Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, deu sinal verde para a farmacêutica transportar e conservar a vacina em temperaturas convencionais, entre -25°C e -15°C, normalmente encontradas em freezers farmacêuticos, por um período de até duas semanas.

8. Qual é a diferença entre eficácia e efetividade de uma vacina?

“No primeiro caso, é a capacidade de a vacina gerar proteção”, explica a pediatra Flavia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Os testes mostraram, por exemplo, que a vacina da Pfizer/BioNTech apresentou 95% de eficácia. “Já a efetividade é o resultado da imunização na vida real”, diz a médica. Em outras palavras, isso ocorre quando um grande contingente populacional é vacinado, a chamada fase 4 das pesquisas científicas. Pode ou não ser verificada uma queda na porcentagem de proteção encontrada em etapas anteriores.

*com colaboração de Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo