Mundo não usa corretamente suas armas contra a Covid-19, dizem especialistas

Principal arma na luta contra a Covid-19 é a vacinação igualitária em todos os países

Foto de ilustração sobre a variante Ômicron do coronavírus
Foto de ilustração sobre a variante Ômicron do coronavírus 27/11/2021 REUTERS/Dado Ruvic

Rob Pichetada CNN

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Mesmo com armas importantes para conter a propagação do novo coronavírus, o mundo ainda tem dificuldades de colocar em prática as soluções mais simples. É o que apontaram alguns especialistas ouvidos pelo CNN.

A questão principal é a ausência de um plano global, segundo a diretora assistente de programas do Duke Global Health Institute, Andrea Taylor.

“Não somos bons em lidar com crises globais – não temos realmente a infraestrutura, a liderança ou a responsabilidade (necessárias)”, disse a especialista.

Para Paul Hunter, professor de medicina da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, a grande maioria dos especialistas em doenças infecciosas pensa que o SARS-Cov-2 veio para ficar.

“Os netos dos nossos netos ainda estarão pegando (o vírus)”, disse ele. Mas “a doença, se tornará parte de nossa história à medida que a infecção se transforma em apenas mais uma causa do resfriado comum”.

Há, entretanto, uma questão muito mais pertinente: quanto tempo levará para chegarmos lá?

Essa resposta não depende da sorte – está, pelo menos em grande parte, nas mãos das pessoas.

As pandemias desaparecem como um resultado de esforços humanos, como desenvolvimento de vacinas, rastreamento de contatos, análise genômica, medidas de contenção e cooperação internacional.

Em resumo, o mundo tem um kit de ferramentas para acabar com a pandemia o mais rapidamente possível, dizem os especialistas.

Alguns países se saíram melhor no enfrentamento à Covid-19 do que outros. Mas, para acelerar o fim disso, inúmeros especialistas – incluindo Taylor, da Duke Global Health Institute – estão pedindo por uma nova abordagem global, especialmente quando se trata de vacinas, tratamentos e compartilhamento de informações.

Esse esforço é a melhor maneira de acabar com a pandemia rapidamente, dizem eles – e, a menos que isso aconteça, as pessoas em todos os cantos do mundo ainda poderão estar vivendo sob a nuvem de Covid em 2022, e depois disso.

“Sabíamos com antecedência o que aconteceria se adotássemos essa abordagem nacionalista, mesmo assim fizemos”, disse Taylor. “E agora estamos vivendo com as consequências disso”.

A principal ferramenta do mundo

 Se o mundo tem um arsenal para ajudar a acabar com a pandemia, a arma mais importante é a mais óbvia, segundo Roberto Burioni, professor de microbiologia e virologia na Universidade San Raffaele em Milão. “A primeira ferramenta que temos é a vacina”.

O desenvolvimento de diversas vacinas, todas altamente eficientes para evitar os casos mais graves e diminuir o nível de transmissão, foi inédito. O recorde anterior para se lançar uma vacina no mercado era de 4 anos, mas a pandemia de Covid-19 superou as expectativas e redefiniu os mais alto padrões do mercado.

É fácil ver o quão crucial as vacinas são para se chegar ao fim da Covid-19. “Conforme mais pessoas são infectadas, vacinadas e reinfectadas, a gravidade da doença gradualmente diminui por causa da imunidade acumulada – essa é a teoria”, diz Hunter.

Ter a vacina, porém, não é suficiente; ela precisa ser administrada na maior quantidade de pessoas possível, e na quantidade necessária.

Mesmo nos países desenvolvidos onde a disponibilidade de doses não é um problema, a diminuição gradual da imunidade, a transmissibilidade de novas variantes e os grupos de céticos deixaram claro que, para prevenir ondas de infecção, são necessários altíssimos níveis de cobertura.

“O que nós devemos atingir é imunização generalizada”, diz Burioni. “Um cenário possível é que, se nós formos capazes de vacinar a maior parte da população, este vírus continuará circulando, mas não irá causar tanto dano”.

Assim como seus esforços contínuos para encorajar pessoas não-vacinadas a tomar sua primeira dose, os países ricos têm agora duas novas estratégias de inoculação: garantir com que crianças em nível escolar sejam vacinadas, e administrar doses de reforço – quantas forem necessárias para manter a proteção em um nível elevado.

“A vacinação de crianças pode ter um impacto enorme para o futuro”, diz Burioni.

As campanhas de vacinação em níveis escolares estão sendo aceleradas em boa parte do mundo, e nos EUA, o Food and Drug Administration (FDA) recentemente aprovou o uso da vacina da Pfizer em crianças entre 5 e 11 anos.

E o Reino Unido anunciou na quinta-feira um acordo para a compra de 114 milhões de doses extras da Pfizer para seus 67 milhões de habitantes para aplicações ao longo de 2022 e 2023.

É um caminho que várias nações desenvolvidas devem trilhar conforme se preparam para um futuro onde as vacinas serão administradas rotineiramente.

“Nós não sabemos quantas doses de reforço vamos precisar, mas isso é um problema de ordens logística e econômica”, acrescentou Burioni.

Esse é o caso, ao menos, nas regiões das nações desenvolvidas.

Mas o mundo tem uma ampla evidência que a Covid-19 vai continuar sendo uma ameaça em outros locais até que esteja controlada em todos os cantos – e especialistas alertam que, para atingir este objetivo, uma ação radical é necessária.

‘Festa ou fome’

O surgimento da variante Ômicron na África Subsaariana, onde as taxas de vacinação são baixas, destacou mais uma vez a importância de uma estratégia para vacinar as nações mais pobres.

O problema? Essa estratégia não existe, alertam alguns especialistas.

“Não são apenas bolsões – grandes áreas do mundo têm uma cobertura vacinal inaceitavelmente baixa”, disse Taylor.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), menos de 8% das pessoas em países de baixa renda receberam pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus. Enquanto isso, 63,9% das pessoas em países de alta renda receberam pelo menos uma dose, informa a OMS.

Na União Europeia e nos Estados Unidos, cerca de 70% das pessoas receberam pelo menos uma dose da vacina, de acordo com o Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças e com os Centros dos EUA para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês).

As consequências potenciais dessa disparidade são óbvias: novas variantes globalmente problemáticas do vírus foram todas detectadas pela primeira vez em lugares que experimentaram grandes surtos não controlados, onde a cobertura vacinal era baixa – Alpha no Reino Unido em dezembro passado, a Delta na Índia em fevereiro, e, agora, a Ômicron na África Subsaariana.

“A iniquidade da vacina […] prologará a pandemia”, disse Michael Head, pesquisador sênior em saúde global da Universidade de Southampton. “A melhor maneira de ser egoísta” é ser altruísta, insistiu Burioni. “Precisamos fornecer vacinais para todo mundo”.

As soluções para acabar com essa desigualdade vacinal são menos claras – mas não estão fora de alcance.

Em primeiro lugar, o fornecimento de vacinas deve ser aumentado e estabilizado. O programa de compartilhamento de vacinas da OMS, o Covax Facility, previu, em setembro, que 25% menos doses serão fornecidas ao mundo em desenvolvimento do que o previsto anteriormente.

“No momento, é festa ou fome – (os países) não recebem nada por três meses e, de repente, recebem milhões de doses”, disse Taylor. “O abastecimento tem que vir de maneira previsível e confiável”.

Head, que publicou pesquisas sobre o fornecimento de vacinas em Gana no ano passado, acrescentou que, quando as vacinas chegaram por meio do Covax Facility, muitas vezes elas estavam perto da data de validade e não estavam acompanhadas dos freezers ou equipamentos necessários para transportá-las pelos países de destino.

Ele pediu a criação de novos centros de produção de vacinas na África para estabelecer um fluxo de vacinas mais confiável.

A OMS culpou as deficiências em uma fábrica da Johnson & Johnson pelo fracasso da meta do Covax Facility.

Em setembro, os atrasos em uma fábrica indiana de desenvolvimento de vacinas AstraZeneca causaram problemas de abastecimento no Reino Unido e na União Europeia nos primeiros meses de 2021 – mostrando o efeito dramático que uma única instalação pode ter na distribuição global.

“Suprimento deve ser acompanhado de apoio financeiro para garantir que essas doses cheguem às pessoas”, acrescentou Taylor.

Os países mais ricos também deveriam financiar pesquisas e ajuda local para as nações onde as vacinas não estão sendo distribuídas rapidamente, concordaram Head e Taylor. “Há uma falta real de dados claros sobre o que está acontecendo em países da África Subsaariana. Precisamos de mais clareza sobre isso, para que possamos entender a extensão do problema”, disse Taylor.

Esse é o problema que a plataforma de responsabilidade global da Duke, que Taylor ajuda a administrar, está tentando resolver. A iniciativa está fornecendo uma análise de tendências e obstáculos em países mais pobres, onde as campanhas de vacinação têm vacilado.

E as nações desenvolvidas também devem dar o exemplo.

Head disse que os participantes de seu estudo em Gana “estavam vendo como o mundo ocidental lidou com a vacina AstraZeneca”, que é a vacina com a qual o Covax mais conta, mas que sofreu várias interrupções durante a campanha na Europa.

Isso incluiu uma série de países que suspenderam a vacinação com a AstraZeneca em março devido a problemas de coágulos sanguíneos. Posteriormente, a agência reguladora de medicamentos da Europa declarou que é seguro usar a vacina, mas a confiança foi prejudicada.

A hesitação quanto à vacinação entre seus participantes aumentou depois das pausas nas campanhas dos países europeus, disse Head. “O que vemos e fazemos como norte global em relação às vacinas é visto e ouvido em outras partes do mundo”.

Mas, acima de tudo, os especialistas clamam por liderança.

“É muito semelhante ao que enfrentamos com a mudança climática – temos líderes que são líderes de nações, não temos realmente líderes globais. Não temos responsabilidade global”, disse Taylor.

Lutando contra a próxima pandemia

Especialistas dizem que medidas nacionais ainda são vitais conforme a pandemia se aproxima da sua fase final. Ondas ainda vão continuar a atingir diferentes nações em diferentes momentos, e “os países precisarão trabalhar com suas próprias experiências e capacidades”, disse Head.

Isso significa que as medidas para conter a Covid vieram para ficar. “Como indivíduos, nós devemos continuar nos protegendo e protegendo as pessoas ao nosso redor usando máscaras, mantendo o distanciamento social e nos vacinando”, disse Ana Garcia, professora de medicina preventiva e saúde pública na Universidade de Valência, na Espanha.

Mas isso deve ser combinado com uma perspectiva internacional para acelerar o fim da pandemia.

“Nós estamos falando de globalização do comércio, das finanças e do turismo há um bom tempo”, diz Garcia. “Essa pandemia – assim (como) o aquecimento – parece um teste. Ela realmente exige que nós passemos a agir como em um mundo global.”

Esse sentimento tem sido repetido por líderes globais, mas especialistas dizem que nenhuma ação aconteceu.

Recentemente, cientistas se dividiram quanto às restrições de viagens colocadas sobre os voos partindo da África do Sul e de nações vizinhas, depois que autoridades detectaram o surgimento da variante Ômicron.

O presidente Sul-Africano Cyril Ramaphosa disse que as restrições são injustificadas e que elas foram condenadas pelas Nações Unidas e pela OMS.

“É profundamente preocupante que países estão sendo penalizados por outros porque estão fazendo a coisa certa”, acrescentou na quarta-feira o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

“Existe um risco real de desencorajamento para que venham a revelar uma próxima (variante)”, disse Taylor, “porque uma nova irá surgir”.

Especialistas estão pedindo para que os países se unam em relação à Covid, e não se afastem – e este chamado foi conduzido pela OMS esta semana, quando sugeriu um tratado global para evitar os mesmos erros sejam cometidos quando a próxima pandemia surgir.

“A Ômicron demostra por que o mundo precisa de um novo acordo sobre pandemias: nosso sistema atual desincentiva os países a alertar os outros sobre ameaças que inevitavelmente irão chegarem seus territórios”, disse Tedros.

“Em seu cerne, a pandemia é uma crise de solidariedade e compartilhamento”, diz ele.

Pode ser algo difícil de se engolir. Diversos cientistas traçam paralelos com a luta contra o aquecimento global – um esforço que, mesmo em sua hora mais crítica, vem sendo atrasado por interesses nacionais de competição.

Mas é uma proposta que muitos estão desesperados para ver realizada. “Algum tipo de acordo legal vinculativo que os países assinem pode nos dar algo como um plano global de coordenação, algo que estamos sentindo falta agora”.

“Faria toda a diferença”, diz Taylor. “Se nós conseguíssemos fazer isso acontecer”.

(Texto traduzido. Leia o original aqui.)

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