50 Best Bars 2026: o que os números revelam sobre o cenário da coquetelaria
Além da força da Europa e da Ásia na lista, distribuição geográfica dos estabelecimentos revela o avanço da coquetelaria sul-americana no cenário internacional

Na última semana, foi divulgada a lista de 2026 do The World’s 50 Best Bars, uma das premiações mais importantes da coquetelaria mundial. O Bar Leone, de Hong Kong, conquistou a primeira posição pela segunda vez consecutiva, seguido pelo Moebius de Milão, e pelo Alquímico, de Cartagena, na Colômbia. Três bares de três continentes ocupando o pódio, algo que já ajuda a ilustrar o momento que a coquetelaria mundial está vivendo.
Todos os anos, boa parte da atenção fica concentrada nas primeiras posições, nas estreias e nos estabelecimentos que mais subiram ou desceram no ranking. Mas gosto também de olhar para a lista de uma maneira mais ampla.
Quando analisamos a distribuição geográfica dos 50 bares, conseguimos entender um pouco melhor quais mercados estão ganhando protagonismo, quais continuam fortes e como a coquetelaria vem se desenvolvendo ao redor do mundo.
Os números de 2026
A Europa continua sendo o continente com maior presença no ranking, reunindo 18 dos 50 estabelecimentos, ou 36% da lista. É uma liderança que faz sentido quando pensamos na tradição de cidades como Londres, Paris, Barcelona e Milão, que há décadas ajudam a construir e desenvolver a cultura dos bares.
Mas, quando comparamos esse resultado com a participação europeia de anos anteriores, percebemos que outros mercados vêm conquistando espaço.
A Ásia aparece logo atrás, com 14 bares, representando 28% do ranking. Além de ter o melhor bar do mundo, o continente demonstra uma força impressionante, especialmente em Hong Kong, que concentra quatro estabelecimentos entre os 50 melhores, e Bangkok, com outros três. São cidades que conseguiram desenvolver identidades próprias na coquetelaria, combinando técnica, ingredientes locais, hospitalidade e uma enorme diversidade de propostas.
A presença asiática não é exatamente uma novidade. Singapura, Hong Kong e Tóquio já são referências internacionais há bastante tempo. O que chama a atenção é a consistência com que a região continua colocando diferentes bares entre os melhores do mundo, sem depender de um único endereço ou estilo de coquetelaria.
Destaques da América do Sul
Entretanto, o dado mais interessante da edição está aqui na América do Sul. Em 2020, nosso continente tinha apenas quatro representantes no top 50. Em 2026, o número subiu para nove. Ou seja, mais que dobramos desde a pandemia, nos dando hoje 18% da lista.
É uma evolução expressiva, especialmente quando lembramos que estamos falando de apenas 50 posições disputadas por bares do mundo inteiro.
A Colômbia lidera a representação sul-americana neste ano, com três estabelecimentos, incluindo o Alquímico, de Cartagena, na terceira posição mundial. Brasil, Peru e Argentina aparecem com dois bares cada.
É interessante observar também a distribuição desses endereços: Cartagena, Medellín, Lima, Buenos Aires e São Paulo estão representadas, mostrando que o crescimento da região não depende exclusivamente de uma única capital.
Acredito que esse movimento seja resultado de um amadurecimento importante da coquetelaria da América Latina como um todo.
Durante décadas, os grandes centros europeus e dos EUA foram tratados como referências quase obrigatórias para quem queria desenvolver um bar de alto nível. Hoje, vemos estabelecimentos sul-americanos construindo propostas cada vez mais autorais, valorizando ingredientes regionais, técnicas próprias e, principalmente, a identidade cultural dos lugares onde estão inseridos, criando uma conexão genuína com suas comunidades.
Não significa que a coquetelaria latina tenha deixado de buscar referências internacionais. Significa que ela passou a ter mais confiança no que pode oferecer ao mundo. E isso, comprovadamente, faz diferença.
Bares mundo afora
Outro dado interessante aparece quando analisamos as cidades com mais estabelecimentos premiados. Hong Kong, Nova York e Paris dividem a liderança, com quatro bares cada. Na sequência, aparecem Atenas, Bangkok, Londres e Cidade do México, todas com três representantes.
A presença de Atenas entre as cidades mais premiadas merece atenção. A capital grega aparece com três bares, incluindo o Line, na quinta posição mundial e atual ganhador da edição europeia do ranking. É um exemplo de como uma cidade que não costuma ser a primeira lembrança quando falamos de grandes capitais da coquetelaria consegue construir uma cena extremamente relevante e competitiva internacionalmente.

A Cidade do México também reforça sua posição como um dos principais destinos para quem gosta de bons bares. Com três representantes, incluindo o Handshake Speakeasy, sexto colocado (1º em 2024), a capital mexicana mantém uma presença importante entre os grandes centros mundiais.
No total, são 26 cidades representadas entre os 50 melhores bares de 2026. Um número que considero relevante porque mostra como o reconhecimento internacional está globalizado e distribuído por diferentes mercados.
Coquetelaria brasileira e novos horizontes
No Brasil, a edição deste ano trouxe dois representantes, ambos em São Paulo: o Exímia, na 20ª posição, e o Tan Tan, na 35ª.
Obviamente, tenho uma relação muito especial com esse resultado. Como sócio e fundador do Exímia, acompanhar o reconhecimento da nossa casa entre os melhores bares do mundo é motivo de enorme orgulho, principalmente pelo trabalho de toda a equipe envolvida.
Mas, olhando para o cenário brasileiro de maneira mais ampla, acredito que a presença de dois estabelecimentos na lista também reforça a capacidade que temos de desenvolver uma coquetelaria competitiva internacionalmente. É algo inédito para nosso país.
O Brasil possui ingredientes, profissionais e uma cultura de hospitalidade que oferecem inúmeras possibilidades para a criação de bares com identidade própria. Ao mesmo tempo, ainda temos espaço para desenvolver outros polos além de São Paulo, ampliando nossa presença nas principais premiações internacionais.
Como disse, quando observamos os resultados ao longo de vários anos, conseguimos identificar movimentos que merecem atenção. Um deles é a mudança na distribuição geográfica dos bares premiados.
A Europa continua muito forte. A Ásia mantém sua relevância e ocupa a primeira posição mundial. A América do Norte segue com oito representantes. Mas a América do Sul, que há poucos anos tinha uma participação relativamente pequena, agora responde por quase um quinto de toda a lista.
Para quem trabalha com coquetelaria, esse crescimento representa mais do que reconhecimento. Ele amplia a circulação de profissionais, desperta o interesse de consumidores internacionais e coloca novos destinos no roteiro de quem viaja para conhecer grandes bares.
Acredito que o aspecto mais interessante do 50 Best não seja descobrir qual bar ficou em primeiro ou segundo lugar: é perceber que hoje existem cada vez mais cidades capazes de oferecer experiências de coquetelaria em altíssimo nível. E, para nós, brasileiros, é especialmente positivo ver a América do Sul ocupando um espaço cada vez maior nessa conversa.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Nicholas Fullen

Empreendedor do setor de gastronomia e hospitalidade, integrante da Forbes Under 30 (2022) e jurado do Campari Bartender Competition, Nicholas Fullen é sócio-fundador e CPO do Grupo Locale — que reúne o Locale Caffè, Locale Trattoria, Exímia Bar, Oguru Sushi & Bar, Go By Oguru e Poke by Oguru. Nicholas lidera o desenvolvimento de produtos e a estratégia de expansão do grupo.


