A taça da Copa do Mundo se foi, mas a xícara fica

Enquanto o Brasil amarga o maior jejum de títulos nas Copas, os cafés especiais brasileiros vivem sua era mais vitoriosa e conquistam paladares nos quatro cantos do planeta

Caio Tucunduva, colaboração para o Viagem & Gastronomia
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No dia 5 de julho, enquanto Erling Haaland cabeceava o segundo gol para a Noruega no MetLife Stadium, em Nova Jersey, e Bruno Guimarães ainda ruminava o pênalti desperdiçado no primeiro tempo, milhões de brasileiros desligavam a televisão, envoltos na familiar mistura de indignação e fatalismo que só o futebol sabe produzir.

A Seleção estava eliminada. Outra vez. Nas oitavas. Por um europeu. Pela sexta Copa do Mundo seguida. Carlo Ancelotti olhava para o gramado com a serenidade de quem ainda não entendeu bem onde está. Neymar converteu um pênalti tardio de consolo. A festa já tinha acabado antes de começar.

São 28 anos sem a taça. O maior jejum da história do canarinho. Quem nasceu depois do pentacampeonato do Japão e da Coreia, em 2002, nunca viu o Brasil levantar um troféu. São adultos formados, com carreira, filhos, hipoteca e trauma acumulado em doses quadrienais. Hexa virou uma palavra que só existe no futuro do subjuntivo, "quando vier", nunca "quando vier porque vai vir".

Mas o Brasil tem um talento peculiar que os noruegueses jamais vão dominar: a arte de ser extraordinário fora do que todo mundo está observando. E é aqui que a história muda de cheiro, literalmente.

Porque, enquanto o país enxugava as lágrimas verde-e-amarelas, outra seleção brasileira estava vencendo partidas em Xangai, em Melbourne, em Nova York e nos melhores cafés de Tóquio. Uma seleção que não usa camisa número 10, mas que carrega nos grãos a assinatura de um terroir que o mundo finalmente aprendeu a respeitar.

Os cafés especiais brasileiros nunca estiveram tão em alta. Não é força de expressão, é um dado concreto e cheiroso. Em abril deste ano, 19 empresários do setor participaram de uma missão comercial em Qingdao, na China, e na Hotelex Shanghai 2026, maior feira de hospitalidade da Ásia. O resultado? 436 contatos comerciais com importadores chineses e uma projeção de negócios que pode ultrapassar US$ 109 milhões (mais de R$ 556 milhões) nos próximos 12 meses.

Na Austrália, a participação brasileira na MICE (Melbourne International Coffee Expo), principal feira de cafés especiais da Oceania, projetou outros US$ 17,5 milhões (cerca de R$ 89 milhões). Nos Estados Unidos, onde o Brasil já é o maior fornecedor, uma nova missão do projeto Brazil, The Coffee Nation abriu perspectivas de US$ 188 milhões (mais de R$ 960 milhões) em contratos.

A receita cambial do café brasileiro cresceu mais de 25% em 2025, chegando a US$ 14,2 bilhões (aproximadamente R$ 72,5 bilhões), mesmo com leve redução no volume exportado.

Traduzindo: o mundo não está comprando mais café brasileiro apenas porque precisa. Está comprando porque quer. Porque descobriu que o Bourbon Amarelo do Sul de Minas tem personalidade. Que os grãos do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo, têm notas cítricas e frutadas que encantaram o público da Hotelex Shanghai tanto quanto a taça da seleção norueguesa encantou os fãs da Copa. Com uma diferença: o Brasil ganhou o prêmio do café.

O hexa que o Brasil já conquistou

Durante décadas, o Brasil foi o gigante adormecido do café de qualidade, produtor máximo em volume, mas associado ao commodity sem rosto. Esse tempo acabou. O Café Orfeu do Sul de Minas acumula 31 finais no Cup of Excellence e ostenta o título de "Lenda da Excelência" da Alliance for Coffee Excellence, distinção que o Brasil detém em dobro, sendo o único país do mundo com dois produtores laureados.

A região do Caparaó emergiu nos últimos três anos como potência global: em edições recentes do Coffee of the Year, oito dos dez finalistas vieram dessa única microrregião. Não é coincidência, são décadas de pesquisa agronômica da Embrapa, de Q-Graders formados e de produtores que entenderam que altitude, solo de basalto e técnica de pós-colheita de precisão valem mais do que qualquer pênalti cobrado em mata-mata.

O projeto Brazil, The Coffee Nation, desenvolvido pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em parceria com a ApexBrasil, age como uma espécie de comissão técnica do café, só que com resultados.

Enquanto a seleção canarinha não conseguia furar a defesa norueguesa, o projeto inaugurava uma "Base de Promoção do Café Especial do Brasil" em Qingdao, na China, consolidando um hub logístico para toda a Ásia. A safra 2026/27 deve ser a maior da história do país, entre 71 e 74 milhões de sacas. O hexa do café já chegou há muito tempo, e o mundo inteiro está tomando.

Existe uma lição meio amarga e meio reconfortante nessa história dupla. O Brasil que chora nas Copas e o Brasil que conquista nos grãos são, no fundo, o mesmo país: exuberante, contraditório, maior do que qualquer narrativa simples. Haaland não pode tirar o Caparaó de ninguém. A Noruega classificou-se para as quartas de final, mas ela não produz Bourbon Amarelo, não tem o Sul de Minas, não tem as serras do Espírito Santo acordando antes do sol para colher os frutos na hora certa.

Daqui a quatro anos, talvez a Seleção se redima. Talvez não. Mas o café especial brasileiro não precisa esperar 2030. Ele já é campeão do mundo e provavelmente está sendo degustado agora mesmo em alguma cafeteria de Tóquio, Xangai ou Melbourne por alguém que nunca viu um único jogo do Brasil e, mesmo assim, está bebendo o melhor que esse país tem a oferecer.

É suficiente? Claro que não. O futebol tem uma dor que o café não cura. Mas enquanto esperamos o hexa, pelo menos temos algo com 87 pontos na escala SCA, notas de frutas vermelhas e um retrogosto longo que fica na boca muito mais tempo do que a eliminação de 2026. Salve, Brasil. Em campo ou na xícara.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Caio Tucunduva

Engenheiro civil, Caio Tucunduva é especialista e mestre em sustentabilidade pela USP. Se apaixonou pelo mundo do café e, já especialista em hospitalidade, começou pelos cursos do Senac de barista e gestão de bares e restaurantes. Formou-se como degustador e classificador de café, tornando-se mestre de torra. Foi para a Austrália oferecer consultoria de torra de café brasileiro e aprendeu novas técnicas, como a blendagem de café verde, uma de suas marcas registradas. Ainda desenvolveu uma técnica de maturação de cafés especiais em madeiras e destilados. Hoje, percorre o país atrás de bons produtores.

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