Brasileiro quer saber de café: interesse por café especial cresce 180%
No Dia Internacional do Café, levantamento do Google Trends revela como brasileiros estão descobrindo novos tipos, grãos e formas de preparar a bebida

O brasileiro pode até estar tomando um pouco menos de café, mas está cada vez mais interessado em saber o que existe por trás da xícara. Nos últimos cinco anos, as buscas por “café especial” cresceram 180% no Google, enquanto o termo “café gourmet” registrou alta de 160%, segundo levantamento do Google Trends compartilhado com a CNN Viagem & Gastronomia.
O interesse não fica apenas no tipo de café. Em 2026, a busca por “moedor de café” atingiu, em agosto, o maior patamar já registrado pelo Google Trends, com destaque para as regiões Sudeste e Sul. Em julho, “café em grãos” também bateu recorde de buscas, assim como “café solúvel”.
É um movimento que diz bastante sobre a maneira como a bebida passou a ocupar espaço na vida do brasileiro. O café continua sendo um hábito cotidiano, presente em 98% dos lares do país, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). Ao mesmo tempo, cresce a curiosidade sobre origem, preparo, equipamentos e características da bebida.
As dúvidas que aparecem no Google ajudam a revelar outro lado dessa relação. Nos últimos 12 meses, as principais buscas relacionadas ao café misturaram preparo, saúde, sabor e conservação.
As oito perguntas mais buscadas foram:
- Grávida pode tomar café?
- Como fazer café cremoso?
- Para que serve café com limão?
- Café faz mal à saúde?
- Café é ácido?
-
Quantas calorias tem uma xícara de café com açúcar?
-
O que é café gourmet?
-
Café estraga?
Menos café, mais interesse
O movimento das buscas acontece justamente em um momento em que o consumo brasileiro teve uma leve retração. Segundo a ABIC, o Brasil consumiu 21,41 milhões de sacas de 60 quilos entre novembro de 2024 e outubro de 2025, queda de 2,31% em relação ao período anterior. O consumo per capita de café torrado e moído também recuou, de 5,01 quilos para 4,82 quilos por habitante ao ano.
Ainda assim, o país permanece como o segundo maior consumidor de café do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O brasileiro consumiu, em média, cerca de 1.400 xícaras ao longo do período.
A queda, portanto, não parece significar uma perda de protagonismo da bebida. Até porque, enquanto o volume consumido diminuiu, o interesse por diferentes categorias e formas de preparo ganhou espaço nas pesquisas.
Esse movimento também ajuda a entender a ascensão do café especial. A bebida passou a ser observada a partir de atributos que antes ficavam restritos a profissionais e apreciadores mais dedicados: origem, variedade, altitude, processamento, torra e método de preparo.
A expressão “café especial” surgiu na década de 1970, quando a comerciante norte-americana Erna Knutsen passou a usá-la para identificar pequenos lotes produzidos em regiões capazes de gerar cafés com características sensoriais próprias. O conceito ajudou a deslocar o café da lógica de commodity e a aproximá-lo de universos como o vinho e a gastronomia, com maior atenção ao território, ao produtor e à identidade de cada grão.
É justamente essa mudança de olhar que Caio Tucunduva, colunista da CNN Viagem & Gastronomia, vem acompanhando em seus textos sobre o assunto. Como escreveu recentemente, o café especial ganhou uma dimensão que vai além da bebida: envolve sabor, preparo, descoberta e até uma certa teatralidade em torno da xícara.
Não por acaso, a curiosidade também chegou aos equipamentos. A busca recorde por “moedor de café” em agosto mostra que parte desse interesse começa antes mesmo do preparo. O consumidor quer entender o grão, escolher como moê-lo e descobrir o que muda quando ele próprio participa do processo.
O café sai da xícara
Essa nova relação com a bebida também aparece na gastronomia. O café já não está restrito ao espresso servido depois da refeição ou ao coado do café da manhã. Entra em drinques, como o espresso martini, e em receitas que vão de risotos a tiramisù.
E há ainda um movimento que interessa diretamente ao turismo: conhecer o café no lugar onde ele é produzido.
Em São Paulo, o projeto Rotas do Café reúne 57 atrativos em 25 municípios, entre fazendas históricas, museus, centros de pesquisa e propriedades ligadas à produção cafeeira. A bebida passa, assim, a ser também uma porta de entrada para conhecer paisagens, produtores, histórias e modos de vida.
Nas cidades, as cafeterias especializadas seguem o mesmo caminho. O Brasil colocou 12 estabelecimentos entre as 100 melhores cafeterias da América do Sul em 2026, segundo o ranking The South America’s 100 Best Coffee Shops. No ano anterior, eram sete. Os endereços selecionados estão espalhados por oito estados, mostrando que a cultura do café especial não se concentra mais apenas nos grandes centros tradicionais.
Talvez a mudança mais interessante esteja justamente aí. O café continua sendo uma das bebidas mais cotidianas do brasileiro, aquela que aparece no começo da manhã, depois do almoço ou no meio de uma conversa. Só que, para uma parcela cada vez mais curiosa dos consumidores, já não basta apenas beber.
É preciso saber de onde veio o grão, como ele foi torrado, qual moagem usar e qual método de preparo escolher.


