Há vida gastronômica na madrugada de Belo Horizonte
O térreo do Mercado Novo, no Centro de BH, ganha novos bares que funcionam das 22h às 6h

Belo Horizonte sempre foi conhecida por ser uma cidade que dorme cedo. Os bares fecham antes do cliente sentir vontade de ir para casa. Uma busca constante por um local para a saideira é assunto recorrente entre os boêmios de carteirinha. Mas prepare-se: essa história mudou. Há madrugada em BH para o bem dos inimigos do fim.
“Eu vivo a madrugada há muitos anos. A maioria dos bares fecha meia-noite. A galera que trabalha não tem para onde ir tomar uma cerveja. Ou era o Nonô Rei do Mocotó, ou o Bar do Paulão, no Prado”, explica Leonardo Ribeiro, mais conhecido como Bolota, apelido que também dá nome ao seu bar.

No início desse ano, Leo resolveu trocar o dia pela noite. “Colou” em um outro endereço famoso por invadir a madrugada, o Bar do Zé Luiz, que funciona há mais de 40 anos na parte de baixo do Mercado Novo, no Centro. Construído na década de 60 com o propósito de se tornar o maior mercado urbano da América Latina e abandonado por décadas, o Mercado Novo entrou na rota gastronômica da cidade em 2018, quando chegou ao segundo e terceiro andares uma nova geração de bares, cafés e negócios da economia criativa.
De mercadão esquecido a point descolado da capital, o lugar se consolidou. Para se ter uma ideia, hoje são 1020 lojas em funcionamento, espalhadas em 36 mil m² distribuídos em quatro pavimentos. De acordo com o síndico do espaço, Luiz Felipe de Castro, em julho de 2025, 400 mil pessoas passaram pelo espaço.
Muitos desses visitantes, no entanto, nem desconfiam da feira livre que acontece todos os dias no seu andar térreo. Alface, cebola, espinafre, couve, cheiro-verde espalhados em caixas de plástico tomam conta dos corredores, ingredientes que vão parar nas cozinhas de vários restaurantes na região.
Na parte central da capital, é o primeiro mercado a abrir para atender quem tem pressa e vê a vida começar bem cedo. Fundado em 1985, seu Zé Luiz foi o primeiro a abrir as portas para atender esse público de verdureiros, caminhoneiros e feirantes. Com comida boa e acessível, virou também reduto de taxistas, músicos e os amantes da boêmia.

“No início, a gente só vendia tropeiro, aí depois fomos aumentando o cardápio e diversificando”, conta Gilson Luiz Pereira, herdeiro de Zé Luiz e que começou a trabalhar com o pai aos 16 anos quando o estabelecimento foi inaugurado. Hoje, o cardápio conta com PFs como frango com quiabo na terça para quarta-feira; vaca atolada (costela de boi com mandioca) de quarta para quinta; e peixe frito com pirão de quinta para sexta; feijoada de sexta para sábado; e salpicão e tropeiro de sábado para domingo. Todos a R$ 25. O frango frito (R$ 10) é famoso entre os petiscos. “E tem o sanduíche com maionese defumada, que o povo adora. E eu não dou a receita para ninguém”, brinca Gilson.
Novo movimento
Há pouco mais de dois meses, Gilson não está mais só nos corredores do térreo do Mercado. O lugar virou destino das mais variadas tribos que frequentam a noite belo-horizontina. Primeiro, veio a cervejaria Nuuh, que ocupa seis lojas. “A gente levantou grades que estavam fechadas há mais de 18 anos. Tem gente falando em gentrificação, mas é importante dizer que não tiramos nenhum feirante de seu box. Só ocupamos espaços que estavam abandonados”, explica Leo Bolota.
Gilson, do pioneiro bar do Zé Luiz, não tem do que reclamar. “Alguns clientes reclamam que agora ficou mais cheio. As minhas vendas aumentaram mais de 50%”, explica o dono, que também viu a clientela mudar, com uma turma mais jovem. “Mas os clientes fiéis não abandonam”, conclui.
Atualmente, são seis novos estabelecimentos que dividem a atenção dos boêmios. Bar del Ruim, Bar do Daniel, Bar Sub, Lambe-lambe e Bolota’s. O Del Ruim, que já existe há 6 anos também no Centro, trouxe para o Mercado a sua famosa almôndega de jiló (R$ 18), torresmo de barriga (R$ 18) e carne de panela com batata (R$ 30). “É uma proposta inovadora e a gente consegue atender os mais diferentes públicos por aqui”, explica Lorene Caetano, que divide a sociedade com o marido, Bruno César.
O Bar do Daniel, que existe desde 1969, no bairro Lagoinha, também resolveu abrir sua segunda unidade ali. “A gente traz a estufa raiz”, explica o sócio Gustavo Miranda, apontando para carne de panela com batatinha (R$ 17); torresminho no copo (R$ 10); e conserva de jiló com bacon (R$ 10). O que mais faz sucesso é o pastel de feira de carne com queijo (R$ 10).

A Nuuh Cervejaria aposta nos bolinhos de frango com requeijão; linguiça com cream cheese; carne com jiló (R$ 13, cada). Há ainda sacanagem e capetinha (R$ 2). Para beber, são cinco estilos de cerveja, entre elas IPA (R$ 15, 300ml) e Session IPA (R$ 17, 300 ml). Lambe-lambe traz seis sabores, que se alteram a cada semana. O de tangerina, limão e flor de sal custa R$ 13, o copo e R$ 43, a garrafa.
Ah! E tem música. Todos os dias há apresentações de bandas e músicos que apresentam repertórios diversos como samba. MPB, pagode, pop e rock. Os shows ao vivo acontecem das 10h às 2h, quando um DJ assume o som e segue até às 5h.
Tem feirante que traz a família para participar da festa aos finais de semana. A turma que viu o dia amanhecer, acaba levando para casa alface, tomate e outros ingredientes para a semana. É aquele lance, um pouco de drinques, um pouco de salada. Nada como equilíbrio, né?
Mercado Novo (Térreo): Avenida Olegário Maciel, 752, Centro — Belo Horizonte / Horário de funcionamento: terça a sábado, das 22h às 6h.
*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.
Sobre Carolina Daher

Carolina Daher é jornalista, pesquisadora e curadora gastronômica. Acima de tudo, é mineira. Adora comida, mesa farta e café coado com queijo. Não dispensa o que vem da roça e se encanta com as coisas da cidade grande. Acha que doce de leite é muito melhor que Nutella. Vive nas Gerais e caminha pelo mundo em busca de histórias e sabores. Também é colunista da Revista Encontro, curadora do Fartura — Comidas do Brasil e responsável pela Encontro Gastrô, maior premiação gastronômica de Belo Horizonte e Brasília.


