SP pode se tornar um dos maiores laboratórios de coquetelaria do mundo

Capital paulista reúne força econômica, diversidade cultural, público plural e uma energia criativa que não pede licença, alimentando uma coquetelaria ousada

Márcio Silva, colaboração para o Viagem & Gastronomia
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Tenho viajado pelo mundo há muitos anos e sempre ouço a mesma pergunta: "Por que São Paulo tem um papel tão decisivo em colocar o Brasil em destaque na coquetelaria mundial?" A resposta, para mim, é simples e, ao mesmo tempo, profunda.

O Brasil está na moda. Ser brasileiro é estar no centro das atenções globais. E São Paulo vive um fenômeno incrível.

Recentemente, a cidade se destacou globalmente com a melhor vida noturna do mundo no ranking "World's Best Cities 2026", da consultoria Resonance, liderando métricas a respeito da atividade noturna e da presença no Instagram, superando metrópoles como Nova York e Londres. A capital paulista reúne força econômica, diversidade cultural, público plural e sofisticado e uma energia criativa que não pede licença.

Laboratório de coquetelaria

Mas, além desses fatores, há algo mais profundo: uma maneira muito particular de transformar a técnica em afeto e o afeto em linguagem. É nesse cruzamento, entre dados e sensações, que nasce a razão pela qual São Paulo desponta como um dos grandes laboratórios de coquetelaria do Brasil.

Nenhuma outra cidade do continente concentra tamanha mistura de identidades. Em poucos quilômetros convivem tradições regionais de leste a oeste, de norte a sul, misturadas com culturas japonesas, italianas, libanesas, africanas, entre tantas outras.

São Paulo é uma metrópole feita de escolhas, diásporas e memórias que se sobrepõem. Essa diversidade cria um repertório sensorial único, que alimenta uma coquetelaria ousada e absolutamente impossível de ser imitada.

O público também explica grande parte dessa transformação. O paulistano é curioso, viaja, pesquisa, compara e valoriza experiências. E, mais importante, incentiva o bartender a sair do óbvio. Em São Paulo, ousadia não é risco, é requisito. Isso dá liberdade para que bares experimentem ingredientes nativos, resgatem biomas brasileiros, recriem clássicos e explorem técnicas antes exclusivas da gastronomia.

A força econômica da cidade sustenta esse ciclo virtuoso. São Paulo concentra investimentos que viabilizam bares ambiciosos, com laboratórios próprios, equipes técnicas, equipamentos de ponta e tempo para aperfeiçoar ideias. Poucas cidades latino-americanas oferecem condições tão robustas para que a experimentação sobreviva e evolua.

Ao mesmo tempo, os bares de São Paulo vivem um momento especial de valorização da biodiversidade brasileira. Ingredientes como cambuci, puxuri, grumixama, uvaia e madeiras como jequitibá, amburana e cumaru saíram da invisibilidade e passaram a ocupar o centro das atenções de vários profissionais de bar.

A coquetelaria paulistana se tornou um espaço de afirmação cultural, onde a pesquisa sensorial encontra ancestralidade - e onde o Brasil se expressa com profundidade.

Jeito paulistano de receber

Mas, para além da técnica, há algo que não aparece no menu: a maneira paulistana de receber. A hospitalidade aqui não é uma sequência de protocolos, é uma escuta ativa, um calor humano que acolhe até em meio ao caos urbano.

É essa combinação de precisão, ritmo, criatividade e afeto que faz com que quem visita um bar em São Paulo sinta algo que vai além do sabor. Sinta pertencimento e, neste momento, ouço muito que o serviço do paulistano é diferenciado.

Os rankings internacionais apenas confirmam o que a cidade já vinha construindo: bares paulistanos presentes no The World’s 50 Best Bars, no Spirited Awards e no Top 500 Bars colocam São Paulo no mapa global desde 2017.

O intercâmbio de “guest shifts”, colaborações e visitas de bartenders estrangeiros, alimenta um ecossistema que se renova constantemente. Cada bar que abre provoca os outros a evoluir. Cada carta nova gera diálogo. Cada profissional que viaja leva São Paulo contigo e traz de volta uma faísca inédita.

Os bartenders em São Paulo não apenas produzem ótimos coquetéis: criam narrativas, identidade e linguagem. Questionam, reinventam, misturam e devolvem ao mundo um Brasil contemporâneo, sofisticado e emocional. A cidade funciona como um experimento permanente, em que a técnica caminha lado a lado com a sensibilidade e a coquetelaria se transforma em expressão cultural.

Por tudo isso, São Paulo não é apenas uma grande cena: a cidade já se comporta como um dos maiores laboratórios de coquetelaria, não só do Brasil, mas do mundo, um lugar onde o futuro da nossa indústria não é previsto, mas é construído, balcão após balcão.

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Márcio Silva

Premiado bartender mentor e empresário da indústria de bares, Márcio Silva é sócio-proprietário do Exímia Bar, no 61º lugar no The World's 50 Best Bars 2025, ao lado da chef Manu Buffara e dos irmãos Nic e Gabriel Fullen, do Grupo Locale. Márcio integra há sete anos consecutivos a lista das 100 pessoas mais influentes da indústria global de bares, publicada pela Drinks International – Bar World 100.

Também é reconhecido como líder na cultura mundial de bares pelo Spirited Awards – Tales of the Cocktail, dos EUA, e detém o título de Melhor Profissional de Bar Mundial pelo "Premios Excelencias – Fitur" (Feira Internacional de Turismo), de Madri, na Espanha. Aprendeu o ofício na Europa, onde trabalhou com importantes nomes da mixologia. De volta ao Brasil em 2009, foi consultor responsável pela abertura do SubAstor e, em 2019, tornou-se o primeiro brasileiro a liderar um bar do país na lista do The World’s 50 Best Bars, feito obtido com o Guilhotina.

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