Europa além do óbvio: Liubliana, a capital pouco visitada que surpreende

Capital da Eslovênia combina sustentabilidade, boa gastronomia e paisagens deslumbrantes, despontando como uma das cidades mais charmosas da Europa Central

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
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Apesar de menos conhecida que outras capitais europeias, Liubliana, na Eslovênia, tem charme de sobra. Pequena e de raízes que remontam à era romana, a cidade se reinventou ao longo do tempo e hoje se destaca pela cena criativa, pelo urbanismo revitalizado e pela facilidade de ser percorrida a pé. É uma excelente alternativa às grandes capitais do continente ou uma parada estratégica em roteiros mais amplos. A dica é simples: não a subestime.

Eu nunca havia viajado para Eslovênia antes, mas tive o prazer de conhecer os principais pontos turísticos do país durante a jornada "Grande Expresso do Oriente", desenhada pela agência brasileira Latitudes. Durante 22 dias, cruzei a Europa da Suíça até a Turquia em uma travessia inspirada no clássico Expresso do Oriente, que redefiniu as viagens de trem. Depois de passar por 10 países e 14 cidades, minhas andanças renderam cinco episódios, que vão ao ar na 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.

Uma das paradas mais encantadoras foi justamente Liubliana, no coração da Eslovênia, na Europa Central. Às margens do rio Ljubljanica e cercada por colinas próximas aos Alpes Julianos, a cidade revela um cenário que nos convida à contemplação: há amplas áreas para pedestres, cafés à beira do rio e intervenções urbanas inteligentes assinadas pelo arquiteto Jože Plečnik, responsável por redesenhar espaços públicos ao longo do século XX.

Andar pelo centro é notar que a arquitetura barroca, medieval, art nouveau e modernista, além de influências do período socialista, compõem um mosaico que reflete diferentes visões de mundo. A sustentabilidade também entra na conta. A cidade foi eleita a Capital Verde da Europa em 2016 pelas transformações que têm fomentado, incluindo a redução do protagonismo dos carros, a ampliação da rede de bicicletas e os investimentos no transporte público.

Junte tudo isso a monumentos históricos, criações gastronômicas sazonais e vinhos locais, além de passeios bate e volta por paisagens de tirar o fôlego, e temos uma capital que se revela como um dos destinos mais completos, e ainda fora do radar, da Europa. Abaixo, confira 5 motivos para conhecer Liubliana: 

1. Andar pelo centro e passear entre cartões-postais

A principal via da capital, a Slovenska Street, é um manifesto de mudança. Antes, era uma movimentada avenida de quatro faixas dominada pelo tráfego de carros. Hoje, virou um espaço urbano compartilhado que prioriza pedestres, ciclistas e transporte público, representando uma transformação visual da cidade.

Caminhar sem pressa pelos arredores do centro é notar as nuances da arquitetura e suas relações entre história e política. O passeio fica mais proveitoso junto de um guia local, como no roteiro organizado pela Latitudes.

Edifícios funcionais, de linhas sóbrias e geométricas do período socialista dividem espaço com construções no estilo Secessão de Viena, derivada da Art Nouveau, que ganhou as ruas na virada do século XX com fachadas ornamentadas e decorações inspiradas na natureza.

Foi nessa época que surgiu a Ponte do Dragão, adornada com esculturas da criatura mitológica, símbolo da cidade. A ponte liga o centro histórico à área mais moderna, atravessando o rio Ljubljanica.

A Prešeren Square é a praça principal, ponto de encontro dos locais. "É onde nos encontramos para tomar um café ou drinques", conta Tine Acimovic, guia de turismo local.

Ali, de frente para a igreja, há uma estátua que representa o poeta France Prešeren, um dos mais importantes da cultura eslovena. "Nós não temos um político ou um general montado em um cavalo, que é o caso da maioria das cidades europeias. Temos, na verdade, um monumento a um poeta", diz Tine.

Entre outros destaques da cidade, indico a Ponte Tripla, que liga o centro histórico à cidade moderna; a Fonte Robba, inspirada nas fontes romanas; e o mercado central a céu aberto, onde podemos ter um gostinho da cultura local.

2. Visitar o Castelo de Liubliana

Cartão-postal máximo da capital, o Castelo de Liubliana foi erguido em uma colina acima da cidade há cerca de 900 anos. A Torre de Observação e as muralhas nos presenteiam com vistas deslumbrantes, enquanto a fortaleza abriga uma exposição sobre a história da Eslovênia, um museu de marionetes e diversos espaços históricos, como a Capela de São Jorge, a prisão e uma sala de projeção em vídeo.

Grande parte do que vemos hoje remonta ao século XV. Ao longo do tempo, além de fortaleza e residência, funcionou como depósito de pólvora, prisão e hospital militar. Hoje, funciona como um verdadeiro núcleo cultural ao reunir espaços expositivos, um café, um clube de jazz, bar de vinhos e restaurantes.

Os ingressos para adultos custam a partir de 17,10 euros (cerca de R$ 100). Podemos subir até o castelo com ajuda de um funicular, mas, se tiver fôlego, também é possível fazer uma caminhada de cerca de 10 minutos por trilhas.

3. Se deliciar com a gastronomia local

Para uma experiência completa, a gastronomia deve ser apreciada com carinho. A Eslovênia tem uma gastronomia bastante sazonal, o que nos dá a chance de comer produtos da estação.

Para experimentar uma iguaria, minha dica é uma paradinha no Klobasarna, no centro, especializado na linguiça da Carniola, chamada de "Kranjska Klobasa". Ela é feita de 80% de carne de porco e 20% de bacon, além de sal, pimenta e alho. É bastante leve, saborosa e melhor apreciada com pãozinho fresco e mostarda.

Para um almoço diferente, a dica é o Gostilna Na Gradu, no Castelo de Liubliana, que serve cozinha tradicional com um toque moderno. É um dos restaurantes recomendados pelo Guia Michelin e ocupa o pátio interno do castelo. Nada melhor do que brindar a ocasião com um vinho local.

"Desde a nossa independência, cada vez mais os produtores estão fazendo vinhos de maior qualidade", afirma o guia Tine Acimovic. Para mim, os vinhos eslovenos foram uma grata surpresa. Dê uma chance a eles e vá ao Vinoteka Movia, um bar de vinhos que nos oferece diferentes rótulos e degustações.

"A Eslovênia é um país pequeno, com pequenas regiões. Cada uma delas é diferente da outra. E, pelo vinho, conseguimos sentir essas diferenças. Estamos começando a mostrar para o mundo que somos um país importante nesse cenário", conta Grega Berce, gerente da Movia.

O país possui cerca de 17 mil hectares de vinhedos e a viticultura se divide principalmente em três regiões: Podravje, Posavje e Primorska, sendo esta última na fronteira com a Itália, de onde saem rótulos prestigiados.

Liubliana é uma das cidades presentes no Guia Michelin, com 20 restaurantes recomendados. A única estrela vai para o Grič, do chef Luka Košir, que serve uma interpretação da Eslovênia de uma forma sazonal e rural, oferecendo menus de degustação que mudam diariamente. O restaurante fica longe do centro, junto de paisagens verdes e pequenas vilas.

É o caso também do JB Restavracija, agora afastado da zona central. Quando visitei Liubliana, ele ocupava o térreo de um prédio da década de 1920 no centro da cidade. Mudou de endereço, indo para um clube de golfe nos arredores. Na ocasião, pude experimentar uma gastronomia sazonal e delicada, cheia de cogumelos, tubérculos e raízes.

4. Visitar o Castelo de Predjama e cavernas

Liubliana também é uma boa base para passeios fora da cidade. A cerca de 60 km da capital, o Castelo de Predjama e a Caverna de Postojna combinam impressionantes formações naturais e cenários dignos de cinema.

O passeio permite adentrar um castelo esculpido na boca de uma caverna, no alto de um penhasco, e desbravar um complexo de cavernas que forma um mundo subterrâneo escondido debaixo dos nossos pés.

Em meio a uma paisagem digna de “Game of Thrones”, o Castelo de Predjama surge a 120 metros do chão, lapidado na boca de uma caverna há mais de 800 anos. Trata-se do maior castelo em uma caverna do mundo, um dos únicos ainda conservados da Europa, cheio de túneis secretos.

Bem pertinho do castelo, um outro mundo se abre: descoberta em 1818, a Caverna de Postojna é, na verdade, um dos maiores sistemas de cavernas acessíveis na Europa. São cerca de dois milhões de metros cúbicos, 24 quilômetros de extensão e uma ferrovia subterrânea em operação desde o século XIX.

O Castelo de Predjama e a Caverna de Postojna fazem parte de uma mesma rede, com ingressos em diversas modalidades. Para visitar somente o castelo, o valor sai a partir de 21 euros (cerca de R$ 123); somente a caverna, 32,90 euros (R$ 193). O ingresso combinado é vendido a partir de 46,50 euros (R$ 279).

5. Fazer um bate e volta ao Lago Bled

Todo o esplendor fotogênico da Eslovênia se revela em Bled, a cerca de 55 km de Liubliana, convite perfeito para um passeio bate e volta. Um castelo medieval e uma igreja no meio de um lago formam um dos cartões-postais mais incríveis do mundo. A cidade fica na encosta dos Alpes Julianos, ao sul da fronteira austríaca, e abriga o Lago Bled, eleito um dos lagos mais bonitos do mundo.

O cenário faz jus à fama: a torre da igreja dedicada à Virgem Maria ergue-se no meio das águas enquanto o horizonte é marcado pelos traços medievais do Castelo de Bled. Os picos nevados dos Alpes são a cereja do bolo. Um dos programas é caminhar sem pressa à beira do Lago Bled, rodeado por vilas pitorescas.

Mas uma visita não fica completa sem, de fato, cruzarmos as águas até a pequena Ilha de Bled, onde podemos nos emocionar com a singela igreja e comer docinhos tradicionais. O acesso à igreja sai por 12 euros (cerca de R$ 70). Além de barquinhos tradicionais, a travessia no lago pode ser feita por meio de pequenas embarcações elétricas. Os valores giram em torno de 15 e 18 euros (R$ 88 e R$ 106). Os horários e valores podem ser consultados no site.

 

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