Quando as vacinas contra a Covid-19 estarão disponíveis para os brasileiros?

EUA avançam em perspectiva de vacinar população contra o novo coronavírus ainda em 2020, mas a projeção mais otimista no Brasil é apenas para fevereiro

Frasco de potencial vacina contra Covid-19
Frasco de potencial vacina contra Covid-19 Foto: Dado Ruvic/Reuters (3.nov.2020)

Guilherme Venaglia e Jéssica Otoboni,

da CNN, em São Paulo

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Tão perto, mas ainda tão distante. O Instituto Butantan, centro de pesquisa biológica ligado ao governo de São Paulo, já armazena cerca de 120 mil doses de uma vacina potencialmente capaz de conter a pandemia da Covid-19.

As doses da Coronavac, vacina produzida pela chinesa Sinovac e testada no Brasil em parceria com o Butantan, foram importadas com a condição expressa imposta pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de que não sejam aplicadas até que haja o registro efetivo do imunizante.

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O instituto espera receber nas próximas semanas insumos para a produção de outras 40 milhões de doses. O Ministério da Saúde projetou ter quase 143 milhões de doses previstas pelos acordos que já estabeleceu, o que seria suficiente para imunizar um terço dos brasileiros.

Mas a pergunta que não quer calar: quando uma vacina estará disponível no Brasil?

Poucos arriscam datas. Em 23 de novembro, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, arriscou uma: espera que a vacinação já seja possível em fevereiro, talvez ainda em janeiro. Ele estabeleceu o cronograma considerando que o órgão conclua os estudos necessários ainda em 2020 e que a Anvisa analise o caso em torno de um mês.

A agência federal não se compromete com prazos. À CNN, o gerente-geral de medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, incentivou os desenvolvedores a compartilhar o máximo de informações sobre os estudos, mesmo antes que estejam concluídos. “Somos cientistas e temos que avaliar estes dados com muito cuidado”, argumentou.

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Para Mendes, são três as vacinas mais avançadas. Além da Coronavac, a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca e a vacina da Pfizer/BioNTech estão no mesmo estágio de liberação, com a observação de que as duas primeiras já abasteceram a agência com informações técnicas.

Plano de Vacinação

No dia 1º de dezembro, o secretário nacional de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, afirmou que a câmara técnica que foi formada para planejar a vacinação contra a Covid-19 no Brasil concluiu uma etapa da preparação dos trabalhos.

Segundo ele, os grupos prioritários para a vacinação serão os seguintes, divididos em quatro fases:

• idosos
• pessoas com comorbidades
• profissionais da saúde
• indígenas
• pessoas privadas de liberdade
• adultos 
• crianças 

Primeira fase: profissionais de saúde, idosos a partir dos 75 anos, quem têm 60 anos ou mais e vive em asilos ou instituições psiquiátricas, e indígenas.

Segunda fase: pessoas com idade entre 60 e 74 anos.

Terceira fase: pessoas com comorbidades que podem agravar a Covid-19, como doenças renais crônicas e cardiovasculares.

Quarta fase: professores, forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e a população privada de liberdade.

No anúncio, Medeiros não mencionou nenhuma vacina em estudo, mas destacou que o governo considera todos os projetos de imunizantes em teste no país.

“O governo brasileiro não tem preferência por nenhum laboratório. Nossa preocupação sempre é a eficácia e a segurança da vacina, desde que seja devidamente registrada na agência regulatória, que é a Anvisa”, afirmou o secretário.

Apesar do anúncio, Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), afirmou que nem toda a população será vacinada contra o novo coronavírus em 2021.

“Dificilmente toda a população brasileira será vacinada contra a Covid-19 em 2021. Temos que ter expectativa de que no primeiro ano vamos vacinar os grupos prioritários e áreas com transmissão mais intensa,” disse ele. 

“Apenas em 2022, podemos esperar um programa de vacinação nacional que seja abrangente e que alcance toda a população. Isso vai depender da necessidade de ter uma dose anual, outra questão que deve ser discutida.”

Pfizer nos EUA

A luz no final do túnel acendeu para os norte-americanos nos últimos dias. Pfizer e BioNTech pediram à Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA, em inglês), o equivalente à Anvisa no país, autorização para o uso emergencial do imunizante que desenvolvem.

O FDA agendou o início da análise do pedido para o dia 10 de dezembro. Em entrevista à CNN, o chefe do programa de vacinas contra a Covid-19 dos EUA, Moncef Slaoui, afirmou que o país pode começar a distribuir já no dia seguinte – portanto, em 11 de dezembro –, caso a resposta seja positiva.

A Pfizer negocia com o Brasil. Recentemente, representantes da farmacêutica conversaram com o Ministério da Saúde. Apesar de haver a possibilidade de uma negociação, o imunizante também precisaria da aprovação no país.

Pfizer no Brasil

A vacina da Pfizer não tem exatamente o perfil desejável para o Brasil, mas não está descartada, de acordo com técnicos do Ministério da Saúde ouvidos pela CNN.

Há questões logísticas a serem resolvidas. A vacina requer temperaturas muito baixas (-70ºC) para transporte e armazenamento, o que interfere na distribuição das vacinas pelo país. No entanto, técnicos do governo afirmam que, após aberta, ela consegue manter a estabilidade durante aproximadamente 8 dias, em temperaturas de 2ºC a 8ºC, parâmetros considerados pelo Ministério da Saúde.

Além da Pfizer, outras quatro possíveis fornecedoras já se reuniram com o governo brasileiro. São elas: Janssen, Bharat Biotech, Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF) e Moderna. O país também se integrou à Covax, cooperação das Nações Unidas para custear projetos de vacinas.

Apesar disso, a Pfizer foi a companhia que compartilhou mais dados até o momento com a Anvisa. A vacina da empresa está na fase chamada de submissão contínua e já encaminhou documentos com dados até a fase 2 dos estudos, restando apenas as informações da fase 3.

Especialistas estão céticos

Entrevistados pela CNN, a microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e Marcelo Otsuka, coordenador do comitê de infectologia pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), veem as projeções com ceticismo.

“Ter vacina em janeiro é um pouco otimista demais. Vai demorar um pouquinho para elas apresentarem os resultados, serem encaminhadas para a agência regulatória, que vai examinar, aprovar, fazer o registro e só então organizar as campanhas”, explica Pasternak.

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“A gente tem que ter certeza da eficácia, análise dos estudos, ver resultados concretos, e toda a logística da produção à distribuição. Não é tão simples mesmo, é preciso ter paciência”, concorda Otsuka.

E quem vai primeiro?

Não são poucos os estudos de possíveis vacinas contra a Covid-19 mobilizados no mundo. Para além de um ou outro mais conhecido no Brasil, são cerca de 270 estudos, de diferentes origens, que o Ministério da Saúde afirma monitorar nesse momento.

Uma perspectiva é que, assim como nos EUA, não se deve esperar que haja no Brasil vacinas prontas e aprovadas para toda a população. Por lá, segundo Slaoui, os primeiros grupos a serem vacinados devem ser os profissionais da saúde, os idosos e as pessoas com condições preexistentes

A autoridade norte-americana também admite a possibilidade de não chegar a imunizar toda a população. Projetando ter 70% da população vacinada, Slaoui acredita que o país possa atingir a chamada “imunidade de rebanho”, quando há uma imunização ampla o suficiente para reduzir significativamente o potencial de contágio, até maio de 2021.

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