10 mulheres da arte urbana brasileira que você precisa conhecer

Com a crescente atuação feminina, o grafite ganha temas de família, afeto, ancestralidade, questões raciais e cotidiano

Ana Luiza Brant, colaboração para o Viagem & Gastronomia
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O grafite está na moda. Literalmente e artisticamente. Recentemente, a estética da arte urbana ganhou espaço até nos desfiles de grandes grifes internacionais, mostrando como essa linguagem saiu das ruas para ocupar o universo fashion e cultural de forma definitiva. Isso só reforça como essa cena está mais quente do que nunca.

Por muito tempo, o grafite e a arte urbana foram vistos como territórios majoritariamente masculinos. Mas basta olhar com mais atenção para as cidades para perceber uma mudança potente acontecendo nos muros.

Já repararam que, desde que as mulheres passaram a ocupar a cena da arte urbana, o afeto, a delicadeza e as narrativas femininas também começaram a aparecer nas empenas dos prédios?

As mulheres vêm ocupando cada vez mais espaço no grafite e no muralismo brasileiros, transformando as ruas em grandes galerias a céu aberto. Entre empenas de prédios, muros espalhados pelas capitais e intervenções urbanas gigantescas, surgem trabalhos que falam sobre maternidade, força, família, afeto, corpo, memória, infância, ancestralidade, feminismo, questões raciais, meio ambiente, espiritualidade, cotidiano urbano e tantos outros temas importantes.

O mais interessante é perceber como essas artistas não apenas "participam" da cena: elas são protagonistas dela. Abaixo, conheça 10 mulheres que ajudam a mostrar como o grafite brasileiro está cada vez mais potente, diverso e impossível de ignorar:

1. Aline Bispo

Nascida na capital paulista, Aline Bispo é uma artista brasileira que começou no grafite e hoje transita entre murais urbanos, pintura, moda, literatura e grandes feiras de arte. Sua produção fala sobre ancestralidade, identidade brasileira e cultura afro-brasileira com muita cor e força visual.

Ela ganhou destaque nacional ao criar a capa de "Torto Arado", do autor Itamar Vieira Junior, um dos livros mais importantes da literatura brasileira recente, ganhador dos prêmios Jabuti e Oceanos.

2. Luna Bastos

Natural de Teresina, no Piauí, Luna Bastos é artista urbana, tatuadora e ilustradora. Ela conta que, ainda adolescente, se encantou pela ideia do grafite como forma de comunicação, por ser uma maneira de colocar sentimentos, ideias e histórias nos muros da cidade.

Vinda de uma família de costureiras, Luna carrega essa bagagem nas próprias pinturas. Os traços parecem bordados, as linhas evocam texturas, e cada obra é cheia de detalhes, grafismos e camadas que fazem a gente querer olhar mais de perto.

As cores também chamam a atenção. Luna costuma usar tons mais claros e suaves, muito ligados à natureza e a uma sensação de calma: algo que cria um contraste lindo no meio da paisagem urbana. Recentemente, a artista ocupou a fachada do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, mostrando como seu trabalho vem ganhando cada vez mais espaço na cena da arte urbana brasileira.

3. Minhau

Se você já viu um gato gigante, supercolorido e com olhos enormes espalhado por São Paulo, provavelmente era um mural da Minhau.

A artista se tornou uma das figuras mais reconhecidas da arte urbana paulistana justamente por transformar seus gatos em verdadeiros personagens da cidade. Os traços são fáceis de reconhecer: cores vibrantes, formas geométricas, olhos enormes e uma estética quase pop que faz os murais parecerem saídos de uma animação.

Tem algo divertido e afetivo no trabalho dela que conversa muito com a cidade e também com as crianças. Além do visual bastante marcante, Minhau também ajudou a abrir espaço para mulheres dentro da cena do grafite brasileiro, ocupando os muros de São Paulo em uma época em que a arte urbana ainda era muito masculina.

4. Ananda Nahu

Natural de Juazeiro, na Bahia, Ananda Nahu é uma das artistas brasileiras que mais vem ganhando destaque dentro e fora do país. Em 2016, entrou para a história ao pintar o maior mural já feito no estado de Ohio, nos Estados Unidos, um grande marco para uma artista brasileira da arte urbana.

Seu trabalho mistura muralismo, pintura, ilustração e diferentes suportes artísticos. A artista assina o enorme tapete do Rosewood São Paulo, onde também tem obras espalhadas pelos corredores do hotel, mostrando como sua produção hoje ocupa espaços de design, arquitetura e hotelaria.

As obras de Ananda têm uma identidade muito forte. Tons terrosos, cores vibrantes, sensibilidade e grande potência visual. É um trabalho que carrega referências da cultura brasileira, afro-brasileira e indígena de um jeito muito autoral.

Além dos murais gigantes espalhados pelo Brasil e pelo mundo, Ananda também já colaborou com marcas como Nike, Gucci e Kohler, reforçando como a arte urbana brasileira hoje atravessa moda, design, cultura e grandes projetos internacionais.

5. Panmela Castro

Panmela Castro é uma das pioneiras do grafite feminino no Brasil e transformou a arte urbana em ferramenta de ativismo e denúncia contra a violência doméstica.

A artista carioca começou pintando trens e muros ainda adolescente e hoje tem trabalhos espalhados por cidades do Brasil e do exterior. Uma frase muito ligada à trajetória dela é: "a arte salvou a minha vida".

6. Priscila Barbosa

O trabalho da paulistana Priscila Barbosa tem uma delicadeza que chama a atenção logo de longe. Diferente de muitos murais vibrantes da arte urbana, ela cria imagens mais silenciosas, com atmosfera quase nostálgica, com uma paleta muito própria que inclui tons terrosos, ferrugem, areia, dourados e azuis profundos.

Suas personagens aparecem em grandes escalas, mas sempre carregando uma sensação de calma, afeto e humanidade, nos apresentando algo íntimo. Mesmo ocupando fachadas gigantes, as obras parecem cenas simples do cotidiano transformadas em memória. Priscila transforma pessoas comuns, relações familiares e pequenos gestos em protagonistas da paisagem urbana.

Artista visual, muralista e ilustradora, Priscila já realizou exposições no Brasil, Líbano, Estados Unidos, Nova Zelândia e Holanda, além de ter colaborado com grandes marcas, incluindo Sony, Uber, Netflix e Asics.

7. Gugie Cavalcanti

Quem vê um grande sorriso ocupando um prédio inteiro já pode desconfiar: provavelmente é Gugie. Os grandes sorrisos, os abraços, os olhares e os gestos de cuidado acabam criando imagens que são quase impossíveis de ignorar na cidade.

Seu trabalho também tem uma identidade visual muito forte. As cores vibrantes, os contrastes intensos e os retratos hiperexpressivos fazem com que os murais tenham um impacto imediato. É daquelas artistas que você bate o olho e reconhece.

Em São Paulo, uma de suas obras monumentais fica na Sé, no edifício de número 167 da rua Tabatinguera. O endereço ganhou o mural "Respirar", que ocupa os 18 andares de sua empena lateral e retrata uma mulher negra sorridente, com o olhar voltado para o céu. No Rio, no fim de 2025, um mural de 300 m² intitulado “Semente da Terra” ganhou as laterais de um edifício na Lapa em homenagem ao ícone da música Milton Nascimento.

8. Criola

Criola, nome artístico de Tainá Lima, é uma das artistas mais importantes da arte urbana brasileira. Natural de Belo Horizonte, a artista já levou seus murais para diferentes cidades do Brasil e do mundo, ajudando a consolidar a força da cena feminina na "street art" contemporânea.

O próprio nome já diz muito sobre sua produção. Influenciada pela estética e pelas matrizes africanas, Criola transforma os muros em espaços de representação, força e identidade da mulher negra.

Seus trabalhos são marcados por cores vibrantes, muitos grafismos, símbolos ancestrais e personagens femininas que parecem ocupar a cidade de forma potente e quase espiritual. É um trabalho muito fácil de reconhecer. Os rostos, os adornos, as estampas e a composição das cores criam uma linguagem visual muito própria daquelas obras que fazem as pessoas literalmente pararem na rua para olhar.

Além dos murais, Criola também transita pela moda e pelo design. A artista já assinou coleções para marcas como a Renner, mostrando como a arte urbana hoje também ocupa outros espaços da cultura visual brasileira.

9. Hanna Lucatelli

O trabalho de Hanna Lucatelli carrega algo raro na arte urbana: silêncio. Mesmo ocupando prédios gigantes, seus murais parecem criar uma pausa no meio do caos da cidade.

É impossível olhar para as obras dela e não perceber os temas que aparecem, como mães, crianças, famílias, colo e cuidado. As pinturas nos passam uma sensação de proteção e humanidade muito forte. As personagens parecem reais, mas, ao mesmo tempo, carregam algo simbólico. Muitas vezes, os murais falam sobre migração, pertencimento, ancestralidade e maternidade sem precisar explicar nada. Nosso olhar faz isso sozinho.

Seus trabalhos se espalham por São Paulo, Porto Alegre e até Toronto, no Canadá. A artista também tem presença constante em festivais de arte urbana, como o MAPA — Mostra de Arte Pública de Itabira (MG), e o Festival de Arte Urbana Vulica Brasil, que ocorreu em Brasília em agosto do ano passado.

10. Rita Wainer

Rita Wainer é artista visual, ilustradora e uma das mulheres que ajudaram a construir uma linguagem mais poética dentro da arte urbana brasileira. É uma artista que ocupa os muros sem perder a delicadeza, mas também sem deixar de falar sobre força, presença e liberdade.

Nascida em São Paulo, Rita começou sua trajetória ligada à moda e ao universo da ilustração, e talvez venha daí esse olhar tão forte para composição, cor e narrativa visual. Suas obras quase parecem cenas de um sonho espalhadas pela cidade.

As figuras femininas aparecem com frequência no seu trabalho, quase sempre carregando mensagens sobre identidade, afeto, liberdade e expressão feminina. Os personagens alongados, as cores vibrantes e a atmosfera quase onírica fazem com que seu trabalho seja muito fácil de reconhecer.

Além dos murais e pinturas, Rita também passou por grandes projetos ligados à moda, publicidade, design e editoriais, ajudando a aproximar ainda mais a arte urbana do universo pop e cultural brasileiro.

Para ficar de olho

Bianca Foratori é uma artista visual e muralista nascida em Jundiaí, no interior de São Paulo, que vem se destacando na cena da arte urbana brasileira por transformar referências do cotidiano popular em pinturas monumentais.

Seu trabalho mistura elementos muito ligados à memória afetiva brasileira, incluindo bordados, paninhos estampados, flores, quintais, artesanato, tecidos, objetos domésticos e cenas simples da vida cotidiana. Além de ter criado peças para o apartamento da atriz Bella Campos no Rio de Janeiro, a artista faz várias colaborações com unidades do Sesc pelo estado de São Paulo. Suas obras conversam diretamente com uma das perguntas mais interessantes da arte: quem decide o que é bonito? Quem decide o que é "de bom gosto"?

Das artistas que mencionei acima, pare e pense: de quantas delas você já viu uma obra pela cidade sem saber quem era a autora?

*Os textos publicados pelos Insiders e Colunistas não refletem, necessariamente, a opinião do CNN Viagem & Gastronomia.

Sobre Ana Luiza Brant

Formada em Comunicação e Audiovisual, além de ser Art Advisor e empreendedora no ramo cultural, Ana Luiza Brant atua com arte contemporânea desde 2011. Desenvolveu projetos voltados à difusão da arte e à ampliação do acesso ao universo artístico, explorando as possibilidades do ambiente digital para aproximar novos públicos e tornar a arte mais presente no cotidiano. Em 2019, fundou o Culture Kids, projeto dedicado a despertar o interesse das crianças pela arte, cultura e criatividade. A iniciativa busca ampliar o repertório das novas gerações. Seu trabalho cria pontes entre o público e o universo artístico de forma acessível, envolvente e significativa. Ana acredita na arte como uma linguagem universal, capaz de inspirar, transformar e ampliar as formas de ver e compreender o mundo e também de olhar para nós mesmos.

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