Como é visitar Escópia, a curiosa e incomum capital da Macedônia do Norte
Fora das rotas mais tradicionais da Europa, Escópia reúne arquitetura iugoslava, bazar histórico e um neoclassicismo controverso cheio de monumentos e estátuas
Localizada ao norte da Grécia, a Macedônia do Norte é uma joia ainda pouco conhecida dos Bálcãs. Fora do radar, especialmente entre viajantes brasileiros, o país reúne a rica herança histórica da região, marcada por influências bizantinas, otomanas e iugoslavas, e cidades cheias de contrastes.
Conhecido por ser um dos territórios mais montanhosos do mundo, o país não tem saída para o mar e, além da Grécia, faz divisa com Sérvia, Kosovo, Bulgária e Albânia. Estimativas apontam que há 2 milhões de habitantes, dos quais cerca de 500 mil fazem morada em Escópia, a capital, uma das cidades mais incomuns que já visitei.
A cidade mistura brutalismo, construções otomanas centenárias e um neoclassicismo recente que chega a nos lembrar Las Vegas.
O impacto é imediato: a capital choca com a quantidade de estilos arquitetônicos, incluindo fortaleza do VI, igrejas ortodoxas, construções modernas, traços Art Déco, Art Nouveau e prédios inspirados na Belle Époque. A cidade também foi o local de nascimento de Madre Teresa de Calcutá, ainda no período em que a região integrava o Império Otomano.
Foi esse o cenário que encontrei durante um trecho do “Grande Expresso do Oriente”, viagem de trem criada pela agência brasileira Latitudes inspirada no lendário Expresso do Oriente. Da Suíça à Turquia, passei por 10 países e 14 cidades da Europa, com uma parada na Macedônia do Norte. O percurso resultou na 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.
Escópia: em busca de uma identidade

Anteriormente conhecida apenas como Macedônia após declarar independência da Iugoslávia em 1991, o país foi batizado oficialmente de Macedônia do Norte no começo de 2019.
"É um país curioso. Ao mesmo tempo em que não pode negar o passado eslavo, tenta trazer uma descendência grega", conta Saulo Goulart, historiador que acompanhou a viagem.
Coração pulsante da Macedônia do Norte, Escópia é cortada pelo rio Vardar e cercada pelas encostas do Monte Vodno. Quase devastada por um terremoto em 1963, a capital passou por um amplo esforço internacional de reconstrução, com forte ênfase no brutalismo tradicional iugoslavo.
Em tempos mais recentes, parte dessa transformação ganhou força com o projeto "Skopje 2014", lançado pelo governo para reforçar uma identidade nacional por meio da construção de estátuas monumentais, pontes e edifícios de inspiração neoclássica. A iniciativa divide opiniões, mas moldou profundamente a paisagem urbana da cidade.
A Macedônia chama a atenção das pessoas através do turismo e construiu um cenário que evoca um passado quase mítico. O passado é forjado não através de ruínas, mas com ajuda de uma estatuaria nova, como de Alexandre e das musas
Em muitos momentos, a cidade é visualmente confusa, como se diferentes épocas competissem pela atenção, tudo ao mesmo tempo. Mas é dessa mistura quase improvável de estilos e referências que nasce sua personalidade única.
O que visitar em Escópia
Museus, pontes históricas, fortaleza e monumentos grandiosos moldam a capital. Um dos pontos centrais é o Antigo Bazar, um dos maiores e mais antigos dos Bálcãs. É marcado por um labirinto de vielas, onde convivem mesquitas otomanas, lojas de antiguidades e de produtos frescos e bares.
Cafés se espalham pelas ruas do bazar e costumam ganhar vida do início da manhã até tarde da noite, principalmente durante o verão.
A Ponte de Pedra (Kamen Most), construída no século XV, liga o centro moderno ao bazar e se destaca como um dos símbolos da cidade. A Praça da Macedônia fica nas redondezas, cheia de monumentos e fontes. Aqui há a estátua "Guerreiro a Cavalo", instalada como parte do controverso projeto urbanístico "Skopje 2014".
A estátua é amplamente associada a Alexandre, o Grande, embora o governo macedônio tenha passado a descrevê-la apenas como um guerreiro genérico em meio às disputas históricas e identitárias com a Grécia.
Da praça é possível avistar a Fortaleza de Kale, erguida sobre uma colina desde o século VI. Das muralhas da antiga fortaleza, podemos apreciar tanto a cidade quanto as montanhas ao fundo. A paisagem urbana ainda mistura obras grandiosas e símbolos nacionais, como a Porta Macedônia, um arco triunfal que narra momentos da história local com ajuda de detalhes esculpidos.
Entre os destaques culturais estão também o Museu Arqueológico da Macedônia do Norte, com peças que ajudam a entender a longa trajetória da região. Já a Catedral de São Clemente de Ohrid é um contraponto: apresenta arquitetura ortodoxa moderna de concreta que convida à contemplação.
Outro ponto marcante é a Casa Memorial de Madre Teresa. Embora tenha ficado mundialmente conhecida por seu trabalho humanitário em Calcutá, na Índia, Madre Teresa nasceu e cresceu em Escópia. O memorial reúne objetos pessoais, uma réplica de seu quarto, documentos históricos e uma pequena capela que nos dá uma melhor dimensão das origens da religiosa antes de sua projeção internacional.
Gastronomia e passeios bate-volta
Na gastronomia, a fartura é regra nos Bálcãs, assim como a sazonalidade. Alguns pratos emblemáticos do país compartilham história com territórios vizinhos, como a salada shopska, que costuma levar tomate, pepino, pimentão e queijo branco; o ajvar, uma pasta de pimentão assado; o tavče gravče, feijão cozido em panela de barr; e carnes cozidas lentamente.
O Vodenica Mulino, um dos restaurantes mais sofisticados da capital, me surpreendeu com ingredientes e receitas típicas da culinária macedônia, sempre acompanhados por vinhos locais. Mais do que refeições, as mesas funcionam como demonstrações de hospitalidade.

À noite, terraços à beira do rio são uma dica para jantar, além dos "kafanas", restaurantes rústicos bastante tradicionais que geralmente têm música, melhor encontrados no bairro de Debar Maalo.
A partir de Escópia, também é fácil fazer passeios bate-volta para atrações nos arredores. Entre os destinos mais populares estão o cânion de Matka, com paisagens entre paredões rochosos, trilhas e passeios de barco; o Monte Vodno, que oferece vistas panorâmicas da cidade e abriga a Cruz do Milênio; e mosteiros históricos espalhados pela região.
Raio-x da Macedônia do Norte
- Língua: fala-se majoritariamente macedônio, língua próxima do búlgaro que utiliza o alfabeto cirílico;
- Moeda: dinar macedônio; para se ter uma noção, 1 dinar macedônio hoje vale cerca de 9 centavos de real;
- Melhor época para visitar Escópia: para passeios e caminhadas, as melhores épocas são de abril a junho e de setembro a outubro. O verão é marcado por dias longos e festivais, como o Festival de Verão de Escópia (Skopje Leto), entre junho e julho, com concertos, ópera, teatro e apresentações ao ar livre. O inverno é época do mercado natalino e de temperaturas mais propícias para percorrer museus e locais fechados.


