Cusco: as histórias e os sabores da antiga capital do Império Inca

Cidade no coração do Peru guarda resquícios da civilização Inca e traços coloniais espanhóis por suas ruas repletas de restaurantes, lojas e hotéis que combinam o melhor do passado com toques modernos

Daniela Filomeno no claustro do Convento de Santo Domingo, construído em cima do templo Qorikancha
Daniela Filomeno no claustro do Convento de Santo Domingo, construído em cima do templo Qorikancha CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Cusco, Peru

Um dos países mais fascinantes da América do Sul, o Peru possui admiração e reconhecimento a nível mundial. O território é abundante em riquezas histórico-culturais e gastronômicas, em que a cada ruína visitada e a cada garfada dada conseguimos sentir a herança singular deixada por estas terras.

Além da capital Lima, um dos lugares que potencializam esse poderoso conjunto é Cusco, cidade nos Andes peruanos que desempenha papel importantíssimo na história: foi a capital e o coração do antigo Império Inca, em que hoje abriga muitos símbolos arqueológicos que formam a identidade do país.

Literalmente de tirar o fôlego, Cusco fica a 3.400 metros acima do nível do mar e é por si só um Patrimônio Mundial da UNESCO, que destaca seu antigo centro urbano com funções religiosas e administrativas.

Antes das gravações da quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia na cidade, visitei Cusco há cerca de 20 anos em uma viagem de mochilão de 13 dias pelo Peru. Depois de tanto tempo, tenho certeza: a cidade está maior e vibrante, também segura e organizada, ao mesmo tempo que continua a carregar sua essência intocável do passado.

Em resumo, Cusco é assim: nos entrega experiências. É um local de muita cultura e história, mas também uma cidade com um quê de agito jovem e astral lá em cima.

A cidade

Base para conferirmos de perto as maravilhas de Machu Picchu, uma das sete maravilhas do mundo, tanto o centro quanto o entorno de Cusco possuem ruínas e construções históricas que datam desde os Incas, do século 15, passando pela herança colonial espanhola, do século 16.

Ruas estreitas pelo centro são repletas de lojas, restaurantes e bares, criando uma atmosfera vibrante e ao mesmo tempo acolhedora.

A Plaza de Armas é o coração do centro histórico, onde tanto os incas quanto os espanhóis também a utilizaram como núcleo. Hoje ela é cercada de construções coloniais e religiosas, como a Catedral de Cusco e a Igreja Companhia de Jesus, assim como lojas e restaurantes.

Apesar do estilo colonial prevalecer, interessante é que a maioria das construções daqui ainda possuem algumas paredes incas em suas fundações.

Vale lembrar que os 3.400 metros de altitude nos fazem ter reações adversas, como dores de cabeça, cansaço e até falta de ar. A dica é pegar leve no primeiro dia e ter à nossa disposição chá da folha de coca e muña. Em certos casos, hotéis também oferecem cilindros de oxigênio para ajudar na aclimatação.

Para chegar em Cusco a partir do Brasil é necessário pegar um voo internacional para Lima, a capital, e depois um voo doméstico de cerca de 1h15 até o aeroporto da cidade.

Vale lembrar que a língua oficial do Peru é o espanhol e que a moeda é o sole (novo sol peruano), em que R$ 1 equivale atualmente a 0,74 da moeda local.

Para entender Cusco: breve história

Cusco tem uma história de mais de três mil anos. No entanto, o período mais conhecido e importante da história da cidade, é sem dúvida, a época dos Incas.

Esta civilização fundou a cidade no século 13 e a transformou em sua capital no século 15, quando iniciaram a construção do Templo Qorikancha, a fortaleza de Saqsaywaman e Machu Picchu, por exemplo. Com Cusco como centro, os Incas governaram um império do Equador até o Chile e da costa do Pacífico até a Amazônia.

Em 1533, os espanhóis liderados por Francisco Pizarro conquistaram a cidade e o Império Inca. Os colonizadores derrubaram muitas das construções e impuseram sua própria cultura e religião. A Catedral de Cusco e o Convento Santo Domingo, erguido em cima do antigo templo do sol, são exemplos notáveis da arquitetura colonial espanhola por aqui.

Ao longo dos séculos, Cusco se tornou um importante centro religioso e cultural da América do Sul, em que nos lembra tanto a grandeza do Império Inca quanto a influência da colonização espanhola.

Templos: onde as divindades e a engenhosidade Inca se encontram

É a partir das ruínas dos templos deixados pelos Incas que conseguimos entender um pouco mais de suas crenças e avançados conhecimentos na matemática e na astronomia. A religião dos Incas acreditava em divindades como o Sol, a Terra e a Lua.

Portanto, podemos ver de perto e com os próprios olhos as maravilhas criadas por esse povo em torno destes deuses. É de se surpreender ainda pensar sobre suas construções, que são formadas por rochas de mais de 100 toneladas cortadas perfeitamente a ponto de se encaixaram umas com as outras – isto por volta do século 15, há mais de 600 anos.

Vale dizer que para entrar nas atrações é necessária a compra do Boleto Turístico de Cusco, que possui diferentes taxas e abrange diferentes locais. O boleto pode ser adquirido na entrada das próprias atrações, em agências de turismo ou no centro de informações turísticas da cidade.

Saqsaywaman e suas impressionantes rochas

Uma das mais impressionantes estruturas arqueológicas remanescentes em Cusco, o Saqsaywaman era o segundo templo mais importante dos Incas.

Estar aqui é ver com nossos próprios olhos a engenhosidade desta civilização: a construção, que remonta ao século 15, foi erguida com enormes blocos de pedra que pesam até 125 toneladas e se encaixam perfeitamente. Meu tamanho perto das pedras, por exemplo, chega a ser ínfimo.

Segundo Alicia Macedo, guia de turismo que nos auxiliou durante a passagem pelo templo, “nada foi feito de argila, somente barro para encaixar as pedras”. Ela aponta também que portas e janelas em forma de trapézio foram feitas para que as estruturas tivessem uma maior estabilidade.

O local é formado por uma série de pequenas torres e muros que são verdadeiras obras-primas – além de bons engenheiros, os Incas também eram bons matemáticos e astrônomos.

O templo, porém, foi praticamente dizimado pelos espanhóis, só restando alguns grandes paredões de rochas. Pouco se sabe sobre o propósito exato do templo: pesquisadores afirmam, na verdade, que o Saqsaywaman pôde ter sido uma fortaleza militar e que até 20 mil pessoas trabalharam em suas obras.

Da parte que sobrou, ao norte da cidade, podemos apreciar ainda vistas panorâmicas para Cusco e para os Andes peruanos.

Q’enqo e seu uso religioso

A cerca de três quilômetros do centro de Cusco fica o templo Q’enqo, palavra em quechua que quer dizer labirinto, escolhido para ser um local de cerimônias religiosas e de rituais.

Construído pelos antigos Incas durante o século 15, aqui podemos ver mais uma vez a exímia construção dos Incas com enormes rochas – algumas possuem até relevos em forma de serpentes e outras figuras míticas.

Interessante é que aqui podemos adentrar uma galeria subterrânea com uma única saída e entrada: é a representação da vida e da morte. O templo ainda é composto por anfiteatro e canais de água.

Acredita-se que aqui eram cultuados o deus do Sol, Inti, e a deusa da Terra, Pachamama.

Para além de sua importância, o marco arqueológico nos entrega vistas privilegiadas das montanhas peruanas e da cidade.

Qorikancha, Templo do Sol, e o passado colonial espanhol

Em poucas palavras, o Qorikancha foi simplesmente o mais importante templo nos tempos áureos da civilização Inca. Para se ter uma noção de sua relevância, o templo foi para os Incas o que o Vaticano é para os católicos.

Conhecido como Templo do Sol, a construção do século 15 fica na Praça Santo Domingo e permanece com algumas partes quebradas de antigos paredões de rochas.

Esta é uma das indicações da passagem dos espanhóis por aqui: como forma literal e impositiva de se sobrepor à religião e aos valores Inca, os colonizadores construíram um convento em cima do templo.

Assim, o Convento de Santo Domingo foi erguido para atender às necessidades dos colonizadores. Hoje vemos ainda alguns paredões e sistemas de drenagem, em que é interessante notar como as estruturas da ordem dos dominicanos foi construída em cima dos restos do templo – e como este sobreviveu ao tempo.

Sabores locais: Peru e heranças espanholas

Uma das portas de entrada mais celebradas para que conheçamos de fato o Peru é a sua gastronomia. A dica é vivenciar sua rica cultura gastronômica tanto em restaurantes cultuados quanto ao lado das barraquinhas de rua.

Aqui encontramos uma mistura de sabores indígenas e influências espanholas, com pratos e bebidas tradicionais que refletem a abundante história da localidade.

Vale lembrar que a região possui uma grande variedade de ingredientes locais, como milho, batata, quinoa, carne de alpaca e de porco, além de uma grande variedade de ervas e especiarias.

Os tradicionais Pisco Sour e a Chicha Morada também não podem faltar por aqui entre uma garfada e outra. Abaixo, seleciono três restaurantes superconhecidos da cidade – e do país – onde os sabores regionais são ressaltados e a cultura do Peru valorizada.

Chicha, por Gastón Acúrio

No segundo andar de uma casa colonial a apenas um quarteirão da Plaza de Armas, o chef Gastón Acurio, eleito um dos melhores chefs do mundo, honra e valoriza os sabores e a sabedoria de Cusco.

Com vários restaurantes sob sua batuta, digo que Gastón, inclusive, é mais do que um chef de cozinha, mas sim um promotor da gastronomia peruana – seus créditos vão para a internacionalização do ceviche, por exemplo, prato hoje espalhado pelo mundo inteiro.

Aqui no Chicha, porém, tudo é sobre comida regional: os produtos são daqui, assim como as tradições e cultura local e garantem pitadas apetitosas aos pratos.

A casa descontraída nos oferece combinações interessantes que funcionam, como carpaccio de alpaca e chips. Também experimentei um sorvete de cerveja com compota de maçã – pedida recomendada por aqui. Ceviche, é claro, também é a pedida certa. A casa trabalha com menu regional, escolhas do chef e também menu-degustação de oito tempos.

Em suma, é daqueles restaurantes que não podemos deixar de ir, seja para adentrar um pouco mais em uma cozinha de renome, seja para experimentar sabores locais, ou ainda sentir a vibração da vizinhança.

Limo

A cozinha nikkei é hoje uma das mais cultuadas ao redor do mundo, em que a fusão entre o Peru e o Japão nos concede refeições para lá de incríveis e saborosas.

E um dos melhores pontos para apreciar essa bem-vinda mistura é no Limo, que nos serve sushi, sashimi e ceviches em plena Plaza de Armas, com vistas diretas para a praça, a Catedral de Cusco e a Igreja da Companhia de Jesus.

Para melhor acompanhar, peça algum drinque autoral ou sucos refrescantes.

Cicciolina

Já uma escolha tradicional em Cusco, o Cicciolina é um bar de tapas com menu tradicional mas que se renova com cada prato do dia.

A casa, que fica no segundo andar de um casarão colonial na Calle Palacio, tem ambientes diferentes, como o do bar de tapas e do restaurante propriamente dito.

Da cozinha saem ingredientes regionais que misturam tradição e toques modernos. São muitos sabores experimentados pelos pratos e a dica é justamente essa: mergulhar de cabeça – e boca! – nas combinações, texturas e gostos.

Hotéis: luxo em construções históricas

Junto de seus templos, de sua vibração e da gastronomia ímpar, Cusco ainda nos oferece uma cartela hoteleira da mais alta qualidade. Interessante notar que muitos dos principais hotéis da cidade ocupam edifícios históricos restaurados, que aliam história e elegância às habitações modernas.

Um desses exemplos é o Belmond Palacio Nazarenas, situado em um antigo convento do século 17. O pé direito é original, com detalhes que remetem o tempo todo à cultura peruana e seu passado: afrescos coloniais e pinturas emolduradas a ouro estão dispostas pelo hotel.

São cerca de 55 quartos divididos em diferentes categorias, spa com tratamentos que utilizam insumos locais e ainda a primeira piscina ao ar livre de Cusco. A cozinha serve uma culinária peruana moderna com ervas e flores comestíveis cultivadas aqui mesmo.

E uma novidade: Pía León, chef por trás do Central, melhor restaurante da América Latina por cinco vezes seguidas, e do Kjolle, ambos em Lima, é a diretora culinária do novo Mauka, restaurante no hotel que visa a fartura da culinária cusquenha e seus diversos produtos, desde as montanhas andinas até a floresta amazônica.

Outro dos hotéis em locais históricos e que merece a menção é o Monasterio, também sob selo de qualidade da Belmond.

Localizado em um antigo mosteiro do século 16 a uma curta distância da Plaza de Armas, o empreendimento brilha nossos olhos com jardins exuberantes, grandes paredes de pedra e obras históricas.

Móveis em madeira maciça juntos dos lençóis brancos marcam os quartos, assim como alguns apartamentos dispõem de oxigênio suplementar para nos auxiliar contra os efeitos das altas altitudes. Os restaurantes servem típica culinária peruana com toques internacionais.

Mas uma das melhores experiências gastronômicas acontece mesmo em uma espécie de capela do hotel: o jantar neste espaço é uma das experiências oferecidas no hotel – e uma das mais emocionantes que fiz na vida.

É tocante entrar em um ambiente onde funcionários estão misteriosamente vestidos com roupas que os cobrem dos pés às cabeças e adentrar um local adornado por santidades e detalhes em ouro com dois cantores líricos cantando a plenos pulmões. Parece uma cena saída diretamente da ficção.