Como a Europa trata de forma diferente refugiados da Ucrânia e do Oriente Médio

Em um mês de guerra na Ucrânia, mais de 3,6 milhões de refugiados já deixaram o país; a recepção acolhedora dos vizinhos europeus destoa das ações tomadas em crises de refugiados anteriores

Fernanda Pinottida CNN

Em São Paulo

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Desde o início da invasão russa na Ucrânia, no dia 24 de fevereiro, mais de 3,6 milhões de refugiados já deixaram o país na tentativa de fugir da guerra. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), essa já é a crise de refugiados que mais cresce na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

A grande maioria desses refugiados estão alocados em países europeus, principalmente aqueles que fazem fronteira com a Ucrânia. A recepção acolhedora dessa população contrasta com a forma como os países europeus lidaram com a última grande crise de refugiados, entre 2015 e 2016. Migrantes vindos, principalmente, da Síria e de outros países do Oriente Médio tentavam escapar da guerra em seus territórios.

No início de março, a União Europeia concedeu, por unanimidade, proteção temporária aos ucranianos. A decisão determina que refugiados da guerra na Ucrânia tenham direito a residência, acesso ao mercado de trabalho, assistência médica e educação infantil por pelo menos um ano.

Os países também tomaram iniciativas próprias para receber os migrantes ucranianos. O Reino Unido, que não faz mais parte da União Europeia, chegou a oferecer uma mesada para que sua população abrigasse refugiados.

Entre 2015 e 2016, cerca de 1 milhão de refugiados do Oriente Médio se deslocaram para a Europa e foram recebidos de maneira muito menos acolhedora. A maior parte foi para a Turquia, país que não faz parte da União Europeia, de lá, alguns tentavam entrar na Grécia para que pudessem ter acesso ao livre deslocamento entre os países do bloco.

A situação na década passada levou a uma escalada de políticas anti-imigração no continente. Um acordo foi feito entre a Turquia e o bloco europeu em 2016, fazendo com que todos os imigrantes irregulares que tentassem entrar na Grécia pela fronteira fossem mandados de volta ao país.

Na avaliação de Jeff Crisp, ex-diretor no Acnur e na Organização Internacional para as Migrações, a diferença na resposta dos países europeus entre as duas crises migratórias é nítida. “Os ucranianos se deslocaram de forma mais rápida e em maior número, mas não há o mesmo senso de alarme e medo na Europa.”

Crisp aponta alguns fatores que explicam a diferença, o primeiro deles é a discriminação de raça e etnia. “Os ucranianos são vistos como europeus brancos e cristãos”, ele explica. Os refugiados que vinham do Oriente Médio não eram percebidos como brancos, além de alguns serem muçulmanos. Para Crisp, essas características levaram os europeus a temerem possíveis ameaças terroristas.

A proximidade da Ucrânia e o fato da guerra no país estar sendo constantemente veiculada pela mídia do mundo todo também influenciam na resposta europeia. Crisp explica: “Há pouca dúvida se essas pessoas são refugiadas ou não. Em 2015 e 2016, havia a sensação de que talvez algumas pessoas fossem refugiados, mas outras poderiam ser apenas migrantes econômicos, buscando melhores oportunidades de vida.”

Além disso, a Rússia representa uma ameaça não só para a Ucrânia, mas para toda a Europa. Na década passada, muitas pessoas não sabiam direito o que estava acontecendo na Síria e, mesmo se soubessem, se sentiam pouco afetadas pelo conflito em si.

Entretanto, o porta-voz do Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho, explica que, do ponto de vista global, é mais comum que países vizinhos acolham aos refugiados de uma determinada região. “Os países vizinhos da Síria, como Turquia, Líbano, Jordânia e Iraque, têm acolhido milhões de refugiados sírios na última década.”

Refugiados na Polônia

A Polônia, que faz fronteira com a Ucrânia e é membro da União Europeia, talvez seja o caso mais claro da diferença no tratamento com os refugiados. Mais de 2,1 milhões de ucranianos estão no país, de acordo com dados do Acnur. O presidente do país, Andrzej Duda, falou em declaração que muitos estavam sendo acolhidos pelas famílias polonesas, “porque as pessoas sabem que devem abrir seus corações e receber os refugiados”.

No entanto, Duda age para endurecer as leis contra refugiados no país. No início de 2021, quando cerca de 4 mil pessoas vindas do Iraque e de outros países do Oriente Médio tentavam entrar na Polônia através da fronteira com Belarus, que não faz parte da União Europeia, o governo polonês fechou a fronteira e as pessoas foram mandadas de volta ao Iraque.

O futuro dos refugiados na Europa

Jeff Crisp aponta dois cenários possíveis após a Europa ter acolhido os refugiados ucranianos. No cenário positivo, o acolhimento dos ucranianos faria com que os europeus criassem mais empatia com a condição de todos os refugiados, independente de seu país de origem.

Outra possibilidade, que Crisp acredita ser a mais provável, infelizmente, é que os países europeus limitem ainda mais a entrada de refugiados, com a justificativa de que já estariam sobrecarregados com as pessoas vindas da Ucrânia.

O governo da Dinamarca parece confirmar este palpite. Enquanto o país está acolhendo refugiados ucranianos de braços abertos, as autoridades dinamarquesas seguem tentando mandar refugiados sírios de volta ao seu país – que continua em guerra – desde 2019.

Godinho se mostra mais otimista e ressalta que o acolhimento e recepção das pessoas refugiadas da Ucrânia deve ser elogiado. “Esperamos que este exemplo seja inspirador para reverter uma série de narrativas e políticas tóxicas verificadas em outras crises de refugiados”, ele diz, “é crucial que a União Europeia e outros países continuem a admitir pessoas vindas de outros países em seus territórios”.

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