Fraude bilionária no ICMS: entenda como funciona o sistema de créditos

Advogado explica que transações fora dos sistemas oficiais da Sefaz-SP já indicam irregularidade em operações

Fernanda Palhares, colaboração para a CNN Brasil, em São Paulo
Compartilhar matéria

A Operação Distrato, que desarticulou um esquema de venda de créditos falsos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) na manhã desta quarta-feira (15), com prejuízo estimado em mais de R$ 3,8 bilhões aos cofres do Estado de São Paulo, agora entra em uma nova fase: a investigação das 752 empresas que adquiriram esses créditos.

A força-tarefa vai analisar os documentos apreendidos para verificar se as empresas tinham conhecimento da fraude ou se agiram de boa-fé ao utilizar os créditos.

Em entrevista à CNN Brasil, o advogado tributarista Caio Henrique Pereira Azevedo explica que o ICMS é um imposto cobrado em diferentes etapas da cadeia de circulação de um produto. Isso significa que ele incide quando a mercadoria sai da fábrica para o distribuidor, do distribuidor para o comerciante e, por fim, é vendida ao consumidor.

Para impedir que esse imposto se somasse a cada etapa, originando o denominado "efeito cascata", a Constituição consagrou o princípio da não cumulatividade: cada empresa credita o imposto que já pagou na entrada da mercadoria, ou dos insumos, e compensa esse valor com o imposto devido na saída, recolhendo ao Estado apenas a diferença. É o chamado sistema de débito e crédito
Caio Henrique Pereira Azevedo, advogado tributarista

Quem fiscaliza os créditos de ICMS?

Segundo Caio Henrique, a fiscalização da emissão e da utilização dos créditos de ICMS é de responsabilidade da Secretaria da Fazenda de cada estado. Em São Paulo, essa função é exercida pela Secretaria da Fazenda e Planejamento (Sefaz-SP), por meio dos auditores fiscais, que identificam irregularidades e aplicam autos de infração.

Quando há suspeita de crime, a apuração passa a contar com o Ministério Público, que investiga e denuncia os crimes tributários, e a Procuradoria-Geral do Estado, responsável pela cobrança judicial e pela defesa dos interesses da Fazenda
Caio Henrique Pereira Azevedo, advogado tributarista

No estado de São Paulo, os três órgãos atuam de forma integrada. A Sefaz-SP reúne as provas fiscais e contábeis, o Ministério Público conduz a investigação criminal, podendo solicitar quebra de sigilo e cumprir mandados de busca e apreensão e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-SP) trabalha para cobrar judicialmente os valores desviados.

O que uma empresa deve fazer antes de utilizar um crédito de ICMS?

O advogado explica que a primeira medida é verificar se a operação é permitida pela legislação. Em São Paulo, a venda de créditos de ICMS é proibida. A transferência desses créditos só pode ocorrer nas situações previstas no Regulamento do ICMS paulista, com autorização prévia da Sefaz-SP e por meio dos sistemas oficiais do órgão.

Se a operação está sendo oferecida “por fora” desses sistemas, isso já é um sinal de irregularidade
Caio Henrique Pereira Azevedo, advogado tributarista

Como prevenir?

As recomendações do advogado são:

  • Checar no próprio sistema da Sefaz-SP (eCredAc/DEC) a existência e a disponibilidade do crédito para a transferência. Nunca basear-se exclusivamente em extratos e/ou documentos fornecidos pelo próprio ofertante;
  • Duvidar de propostas de transferência "fora dos canais oficiais";
  • Não efetuar nenhum lançamento fiscal, antes de ser submetido a análise técnica - mesmo para eventuais créditos destinados a rubricas genéricas, como "Outros Créditos" na GIA ou na EFD, já que esta é uma forma comum de disfarçar créditos fictícios;
  • Solicitar assessoria jurídica e contábil independente da parte que está oferecendo o crédito, para que avaliem a real origem e legalidade da operação antes de qualquer adesão. 

Fraude bilionária em ICMS

Embora as autoridades reconheçam que muitos empresários foram enganados por um cenário complexo forjado para transparecer legalidade, há a constatação de que algumas empresas podem ter se aproveitado da situação conscientemente para recolher menos impostos.

Para ilustrar a desconfiança que os falsos deságios milionários deveriam ter gerado nos contratantes, o auditor da Receita Estadual, Ronaldo Mello Nogueira, fez um questionamento sobre a suposta ingenuidade no mercado.

Para convencer os clientes a fechar negócio, os escritórios de advocacia investigados criavam um ambiente repleto de falsificações. Nogueira detalhou que os criminosos não paravam apenas em apresentar despachos forjadoscontratar figurantes para fingir ser auditores em reuniões.

Eles chegavam a apresentar apólices de seguro falsas, prometendo às empresas que, caso houvesse algum confisco pelo Estado, o seguro cobriria os prejuízos.

Com essa garantia, as empresas deixavam de pagar os impostos devidos e repassavam aos escritórios honorários de êxito que podiam atingir 70% do valor dos créditos. "A apuração é de que o golpe se assemelha a um estelionato", afirmou o auditor.

Segundo a Secretaria da Fazenda, a operação cumpriu 38 mandados de busca e apreensão e tem como objetivo estancar a fraude, gerando um "efeito pedagógico" aos que pensarem em se aventurar nesse tipo de ilícito.

De acordo com a pasta, contribuintes envolvidos terão a oportunidade de se autorregularizar de acordo com a legislação.

Entre os principais alvos das buscas está o grupo econômico ligado ao advogado Nelson Wilians, dono de um dos maiores escritórios do Brasil. No Paraná, a advogada Mayra de Paula também foi alvo, apontada pelas autoridades como suposta "sócia" de Wilians nas irregularidades.

Outro lado

À CNN Brasil, o escritório de Nelson Wilians afirmou estar colaborando com as autoridades.

"O escritório recebeu o cumprimento da medida de busca e apreensão com serenidade, transparência e absoluto espírito colaborativo, mantendo-se à disposição das autoridades competentes e atuando de forma proativa para o completo esclarecimento dos fatos", diz a nota.

O espaço seguirá aberto para demais comentários de todos os envolvidos.