A incursão profissional de Gabriel da Muda no universo dos botequins

Sambista, que já foi dono de uma padaria de fermentação natural, é um dos sócios do Miudinho, na Tijuca

Daniel Salles, colaboração para o Viagem & Gastronomia
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Os botequins estão para o samba como a praia está para o surfe e o Maracanã está para o futebol. "Samba e botequim é a mesma coisa", atesta o cantor Gabriel da Muda. Ele é um dos fundadores do célebre Samba do Trabalhador, capitaneado por Moacyr Luz. A roda de samba se repete, toda segunda-feira, no Renascença Clube, no Andaraí, Zona Norte carioca.

Depois que o show acaba, por volta das 21h30, todo mundo parte em procissão - músicos, produtores, amigos e quem mais quiser - para o Bar do Momo, na Tijuca, a 1 km de distância. "Essa caminhada coletiva virou mais uma tradição do Samba do Trabalhador", diz Muda, para quem "todo sambista tem um bar de estimação". Ele, na verdade, tem vários.

Um deles, sem dúvida, é o Bar do Momo, na ativa desde 1972. "Morei na frente dele a vida toda", diz o cantor, hoje radicado em Botafogo. No finalzinho do ano passado, Muda estreitou os laços com o universo dos botequins ainda mais: inaugurou o dele, o Miudinho, nos arredores do Maracanã, em sociedade com Guilherme Bon e Vinicius Zamana. Estes dois, que também são donos do Botica, em Botafogo, são os responsáveis pela gestão da novidade. "Minha função é receber os amigos e contribuir com o controle da qualidade", afirma o sambista.

O Miudinho é fruto das conversas entre Bon e o cantor. Este último, depois de uma viagem para o Japão, em 2024, teve a ideia de montar na Tijuca uma espécie de izakaya - como os botecos japoneses são chamados - com foco em espetinhos. "Faltava no bairro um botequim que não apostasse só em pedidas como sanduíche de pernil ou de linguiça, dois clássicos que eu adoro, mas que pesam no estômago", diz o músico. Conversa vai, conversa vem, surgiu o conceito do Miudinho. Não se trata de um estabelecimento especializado em miúdos, como moela de frango, embora a cozinha prepare itens do tipo. "Na verdade, é um bar de ‘miudezas’, um endereço para quem não quer se empanturrar", explica o sambista.

O nome, uma ideia de Bon, é a junção da palavra "miúdos" com "meal deal", como são chamados os combos de almoço oferecidos em lojas de conveniência e restaurantes londrinos. Inaugurado em setembro, o Miudinho é comandado pela chef sansei Aline Sasaqui. Ela prepara desde onigiris (bolinhos de arroz) até pato curado.

Entre os espetinhos há opções para paladares diversos. Um dos hits é o de língua com shoyu koji, tarê e pimenta. O de quiabo no missô atende a turma que não come carne. E há outros itens como azeitonas temperadas, berinjela no missô e salada de batata com ovos - as opções do dia são sempre listadas em um quadro de giz. Dispostas na calçada, as mesas e as cadeiras são vermelhas, de plástico, e a bebida mais consumida é a cerveja, em garrafas de 600 mililitros. "No Miudinho, buscamos a informalidade máxima", diz Muda.

"Para ele, que é apaixonado pelo mundo dos bares, virar sócio de um empreendimento do gênero foi um caminho natural", diz Mariana Rezende, vice- presidente de comunicação do sindicato de bares e restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) e sócia do Bar da Frente, com unidades na Praça da Bandeira e em Copacabana. "A presença de Muda no quadro societário do Miudinho é mais uma prova de que o samba, no Rio de Janeiro, é indissociável dos botequins".

Em junho, por sinal, acontece a 2ª edição do Fórum de Líderes na Gastronomia (FOLGA), organizado pelo SindRio — neste ano, em parceria com o Mundo Mesa — na Marina da Glória. Serão dois dias de evento, 16/6 e 17/6. O tema de um dos painéis previstos para o segundo dia, às 14h35, é esse: "tradição e inovação dos botecos cariocas". Será uma conversa entre Guilherme Bon, Eliana Rocha, sócia do Jobi, no Leblon, e Priscila Continentino, sócia do Brejo Bar, no Flamengo. A mediação ficará a cargo do jornalista Daniel Salles.

O Miudinho não é a primeira incursão profissional de Muda na gastronomia. Em 2021, ele inaugurou, com outros sócios, a padaria Fabro, especializada em fermentação natural. O plano inicial, traçado antes da pandemia chegar, era montar o negócio no Flamengo. Com o surto viral, o grupo só não desistiu de concretizar o projeto porque o forno já havia sido comprado - e não era possível devolvê-lo. Daí a solução encontrada: trocar o Flamengo pela Barra da Tijuca, onde eles encontraram um ponto mais em conta. Depois de se desfazer da padaria, Gabriel da Muda teve a ideia que culminou no Miudinho, um empreendimento bem mais afinado com o ofício de sambista.

Miudinho: Rua Visconde de Itamarati, 115, Tijuca, Rio de Janeiro - RJ / Funcionamento: quarta e quinta, das 17h às 00h; sexta, das 17h à 1h; sábado, das 14h às 00h; e domingo, das 14h às 21h.

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