Amazônia: conhecer destinos, sabores e tradições é valorizar a floresta

Entre diferentes estados e paisagens do Brasil, uma viagem pela Amazônia revela que se aproximar do bioma e de seus rios pode transformar nosso olhar e despertar o compromisso com sua preservação

Daniela Filomeno, do Viagem & Gastronomia
Compartilhar matéria

O Brasil celebra o Dia da Amazônia todo 5 de setembro, data que nos convida a olhar para além da imensidão verde da floresta. Criada em 2007 para reforçar a importância e a grandiosidade de um dos biomas mais biodiversos do planeta, a data extrapola o calendário: preservar a Amazônia é uma responsabilidade que precisa atravessar gerações. Enquanto houver vida, precisamos reconhecer seu valor e reunir esforços para protegê-la.

Na semana do Dia da Amazônia, desembarquei em Manaus e na área de Anavilhanas ao lado da equipe do CNN Viagem & Gastronomia. Estar ali é um lembrete de que a proteção da floresta não é apenas uma escolha, mas um dever com a própria Amazônia, com quem vive nela e com o futuro de todos nós.

Alguns destaques recentes da imprensa adicionam novas dimensões a esse cenário. Na semana passada, o ator Leonardo DiCaprio se encontrou com o cacique Raoni Metuktire no Mato Grosso, durante uma viagem que também passou pelo Pantanal e pelo Cerrado para encontros com lideranças indígenas. No turismo, Manaus (AM) aparece entre os dez destinos em alta no mundo para 2026, segundo uma pesquisa anual da Booking.com. Belém, por sua vez, ganhou projeção internacional ao sediar a COP30, em 2025, colocando a Amazônia no centro das discussões globais sobre clima e preservação.

Também no ano passado, Ruy Carlos Tone, sócio do Mirante do Gavião Amazon Lodge, no Amazonas, recebeu o prêmio de Profissional Transformador do Setor no PURE Awards, premiação de turismo sustentável. Às margens do Rio Negro e diante do Parque Nacional de Anavilhanas, o hotel é um exemplo de como a floresta pode ser não apenas contemplada, mas vivenciada com mais consciência.

É difícil mensurarmos a monumentalidade da Amazônia. Espalhada por nove países da América do Sul, com mais da metade de sua área em território brasileiro, a maior floresta tropical do mundo tem papel fundamental no equilíbrio climático, concentra milhares de espécies de plantas e de animais e abriga povos indígenas e comunidades tradicionais.

Um estudo recente liderado pela The Nature Conservancy (TNC) aponta que a Bacia Amazônica abriga mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce, cerca de 15% das conhecidas no mundo, sendo aproximadamente dois terços exclusivos da região. Além de fundamentais para a alimentação e a economia de milhares de comunidades, os peixes ajudam a dispersar sementes e transportar nutrientes. Por isso, a conectividade dos rios é essencial para o equilíbrio do ecossistema, e intervenções como barragens, desmatamento e poluição ameaçam não apenas as espécies, mas o funcionamento de toda a Amazônia.

Mais do que números e argumentos, a floresta e seus rios não são, e nem devem ser, tratados como um cenário distante, muito menos como destinos exóticos no mapa do Brasil. São patrimônio, identidade e vida. Mas essa imensidão está sob pressão com o desmatamento, as queimadas, a mineração e a abertura de estradas, que seguem transformando a floresta e afetando rios, comunidades e espécies. Falar em preservação, portanto, não é falar de um futuro remoto, mas de uma urgência que está diante de nós. A Amazônia é do Brasil e todos nós devemos ser seus guardiões.

Mosaico de paisagens e destinos

Sempre digo que, como brasileiros, temos o dever de conhecer a Amazônia ao menos uma vez na vida. Já estive no Amazonas, no Pará e no Mato Grosso. Atravessei rios, entrei na floresta, dormi cercada pela mata, naveguei por dias e conheci comunidades que têm uma relação com os rios que vai além da paisagem. Também descobri uma das minhas definições favoritas de paz: eu, o Rio Negro e um pôr do sol sem pressa.

A Amazônia nos ensina que ela não é uma coisa só. É o arquipélago de Anavilhanas, no Amazonas, com suas centenas de ilhas entre rios e floresta. É o Arapiuns, no Pará, onde o barco atravessa saberes transmitidos de geração em geração. É Alter do Chão e suas praias de água doce. É Carajás, um dos maiores corredores de biodiversidade da Amazônia; é a Ilha do Marajó, maior ilha fluviomarítima do planeta, território de cultura milenar onde búfalos, queijos e praias compõem uma paisagem única; e Alta Floresta, no Mato Grosso, onde fica o Cristalino Lodge, reserva particular de mais de 11 mil hectares que oferece experiências como observação de aves, canoagem e passeios de barco.

Com mais de 2 milhões de habitantes, Manaus (AM) é uma das principais portas de entrada para essa imensidão, onde os ingredientes da floresta encontram a cidade e a cultura passa pelo Teatro Amazonas, reconhecido em julho como Patrimônio Mundial pela Unesco. A cerca de duas horas e meia de carro da capital está Novo Airão, de onde podemos acessar o Parque Nacional de Anavilhanas, segundo maior arquipélago fluvial do mundo, com cerca de 400 ilhas espalhadas por uma área de aproximadamente 350 mil hectares.

É também por ali que a floresta se transforma em hospedagem. Hotéis de selva como o Anavilhanas Jungle Lodge e o Mirante do Gavião Amazon Lodge mostram que é possível se aproximar da mata com conforto sem perder de vista o território que os cerca. As experiências conectam viajantes, floresta e comunidades locais, ajudando a mostrar que turismo e conservação podem caminhar juntos.

No Pará, a experiência ganha ainda mais contornos. Além de Belém, com o Mercado Ver-o-Peso e a Ilha do Combu, a floresta pode ser descoberta em cima das águas. A expedição pelos rios Tapajós, Arapiuns e Amazonas revela comunidades ribeirinhas que encontraram no turismo uma forma de gerar renda.

São experiências diferentes, em lugares diferentes, mas que constroem a mesma percepção de que a Amazônia não se conhece de uma vez. Sempre volto com a sensação de que precisaria retornar infinitas vezes para conhecê-la de verdade. Quando nos aproximamos de um território, de sua gente, de seus rios e de sua floresta, deixamos de enxergá-lo como algo distante. Ele ganha nomes, histórias, rostos, sabores e significado.

Esse é um novo olhar que precisamos levar para as viagens, entendendo que conhecer um destino não significa apenas consumi-lo. É preciso perguntar quem está por trás das experiências que vivemos, quais os impactos que deixamos depois da partida e de onde vêm os alimentos que chegam à nossa mesa. Na Amazônia, essas perguntas ganham mais peso.

Ingredientes da floresta

A Amazônia é um prato cheio, um banquete de tradições culinárias melhor experimentadas à mesa e, de preferência, coletivamente. Pirarucu, tambaqui, tucumã, cupuaçu, mandioca, farinha, jambu, tucupi, castanhas e açaí são alguns dos ingredientes que contam histórias e nos fazem entender que essa riqueza nasceu muito antes de chegar aos grandes restaurantes.

No centro histórico de Manaus, por exemplo, o restaurante Biatüwi reúne saberes e ingredientes dos povos Tukano e Sateré-Mawé em preparos como peixes assados no moquém, caldos apimentados, beijus e formigas, transformando a mesa em espaço de afirmação da cultura indígena. E uma novidade quentinha: a cidade se prepara para ganhar sua primeira rua gastronômica, a Rua Ferreira Pena, trecho de 190 metros que concentra bares e restaurantes e que passará por uma requalificação para fortalecer a vocação turística e gastronômica do Centro.

Em Anavilhanas, a comida revela uma relação ainda mais direta entre floresta, rio e comunidades. Pirarucu e tambaqui aparecem à mesa ao lado da farinha de mandioca produzida artesanalmente na Comunidade Santo Antônio. Na piracaia, o peixe é assado na brasa e servido à beira do rio, nos mostrando os modos de vida de quem vive na floresta.

Em Belém, o tucupi, o jambu, o açaí, o cacau, a mandioca, as castanhas e os peixes amazônicos aparecem em mercados, restaurantes, bares e sorveterias, com o Ver-o-Peso como a grande vitrine dessa biodiversidade. Nas ilhas e comunidades do entorno, como Combu, a gastronomia se mistura à produção local e à bioeconomia; na cidade de São Caetano de Odivelas, ostras, caranguejos e peixes fazem parte da vida e da economia de quem vive às margens das águas.

Sem dúvida, a lição mais importante que a Amazônia me ensinou é a riqueza de suas pessoas, que vivem na floresta e, ao mesmo tempo, cuidam dela. Elas escancaram importantes elos que perdemos ao longo dos anos: a relação intrínseca de respeito e de reciprocidade que as comunidades têm com o rio, com a terra, com os animais, com os alimentos e, principalmente, com o tempo.

É por isso que acredito em um turismo que aproxima, valoriza e respeita os costumes e os saberes de quem chama a Amazônia de casa. Uma viagem à floresta deve deixar algo além de memórias no celular: deve gerar renda, fortalecer comunidades, valorizar tradições e ampliar o nosso olhar. A Amazônia não precisa ser lembrada apenas no dia 5 de setembro. Aqui vai o meu chamado: olhar para ela e entender a urgência de preservá-la precisa ser um compromisso de todos os dias.

 

Acompanhe Viagens e Turismo nas Redes Sociais