Machu Picchu: as maravilhas da misteriosa cidade sagrada Inca

Cidade mítica no alto das montanhas no coração do Peru é o legado mais importante e bem preservado da arquitetura e da engenharia da civilização Inca

Daniela Filomeno em Machu Picchu, um dos pontos turísticos mais importantes e mais visitados das Américas
Daniela Filomeno em Machu Picchu, um dos pontos turísticos mais importantes e mais visitados das Américas CNN Viagem & Gastronomia

Daniela Filomenodo Viagem & Gastronomia Cusco, Peru

A partir de Cusco, após mais de três horas a bordo de um trem que nos revela paisagens verdejantes do coração do Peru e ainda mais um trajeto de ônibus montanha acima, chegamos a um dos lugares mais misteriosos – e surpreendentes – do mundo: Machu Picchu.

Apelidada de “A Cidade Perdida dos Incas”, o local é uma cidadela do século 15 situada a 2.445 metros de altitude com uma história incerta. Ninguém sabe o propósito exato de suas instalações, o que por si só já é um convite para a imaginação e ao reconhecimento da engenhosidade arrojada desta civilização.

Uma das sete maravilhas do mundo moderno, Machu Picchu é uma das primeiras imagens que vêm à nossa mente quando pensamos no Peru, revelando sua importância e impacto mundo afora.

É também Patrimônio Cultural e Natural da Humanidade da UNESCO, que destaca que é “provavelmente a criação urbana mais incrível do Império Inca em seu auge”, em que suas paredes gigantes, terraços e rampas parecem ter sido cortadas naturalmente.

A descrição acima é um prenúncio do que podemos ver aqui com nossos próprios olhos: templos, palácios, terraços, monumentos, complexos e muralhas, além de canais de água, todos construídos a partir de gigantescos blocos de pedra, sem nada que os ligue.

Toda esta arquitetura sofisticada nos faz, no mínimo, reverenciar ainda mais essa fascinante cultura, a qual pude entrar de cabeça durante as gravações da quinta temporada do CNN Viagem & Gastronomia, que, além de Islândia e Groenlândia, passou também pelo Peru.

Breve história

Construída ao redor do ano 1450, a cidade foi redescoberta em 1911 pelo professor norte-americano Hiram Bingham, o qual, de fato, apresentou Machu Picchu ao mundo e ficou impressionado por sua beleza e grandiosidade.

A estratégica localização no topo de uma alta montanha no vale do rio Urubamba, a cerca de 130 km de Cusco, antiga capital Inca, é de surpreender qualquer um, especialmente quando pensamos que tudo isso foi erguido neste espaço há mais de seis séculos, sem aquilo que entendemos hoje por tecnologia.

Interessante é que existem algumas teorias sobre o que Machu Picchu significou para os incas. Algumas falam que foi construída como um grande mausoléu para Pachacútec; outras afirmam que foi um importante centro administrativo e agrícola; ou ainda que pôde ter sido um ponto de ligação entre os Andes e a Amazônia peruana e também como um local de descanso para o governador inca.

Cidadela é rodeada de cenários verdejantes e foi importante para a agricultura no passado / CNN Viagem & Gastronomia

Mesmo com teorias à nossa volta, fato é que tudo por aqui é especial: escondida pela natureza durante muito tempo e toda feita de rocha, destaco seu absurdo nível de conservação, já que os espanhóis nem sequer passaram perto para a destruir – o contrário aconteceu com vários templos incas na cidade de Cusco.

Mas o que aconteceu com quem possivelmente habitava a cidade? Além da construção, há também teorias sobre o desaparecimento do povo de Machu Picchu. A mais aceita é que o povo daqui abandonou o lugar devido a uma nova doença trazida pelos espanhóis durante a colonização ou também possivelmente por conta de uma ordem para deixar o local.

Cercada de bosques, hoje Machu Picchu recebe aproximadamente 1,5 milhão de visitantes anualmente, segundo o órgão de turismo do país. O local possui mais de 30 mil hectares, em que encontramos ainda uma variada flora e fauna, áreas verdes e montanhas íngremes.

Da porta do sol aos terraços: o que ver

São várias construções para se encantar em uma visita em Machu Picchu. Mas atenção às exigências de entrada: deve-se comprar ingressos com antecedência, com horário marcado, contratar um guia e ainda ter passaporte em mãos. Somente o ingresso adulto para Machu Picchu custa atualmente cerca de 152 soles (cerca de R$ 204).

Em total, segundo o órgão de turismo do Peru, existem aproximadamente 196 pontos turísticos dentro da cidadela, entre complexos arqueológicos, praças, templos, fontes de água, monumentos e residências.

Importante ressaltar que a disposição de casas, templos e palácios segue critérios astronômicos, matemáticos e religiosos – estudos que os incas dominavam.

Entre as atrações da llaqta (cidade) de Machu Picchu, há o Intipunku, a Porta do Sol, a entrada original dos incas em Machu Picchu, com uma grande porta de pedras construída em relação ao solstício de verão.

Se a disposição permitir, a caminhada até a Porta do Sol garante vista de toda a cidade Inca – são cerca de 4 km de subida. O portal ainda é por onde chegam todos os viajantes que percorrem o Camino del Inca – de lá a vista panorâmica das alturas do santuário é de tirar o fôlego.

Já na cidadela, há o Templo do Sol, construção em forma circular usada em cerimônias relacionadas à morte.

A Praça Sagrada; a Intihuatana (pedra associada ao calendário Inca); o Templo das Três Janelas e os terraços agrícolas completam a experiência.

Vale lembrar que um dos principais trabalhos dos incas foi a agricultura, em que os terraços formavam um sistema muito inteligente para aproveitar a zona de cultivo.

De fato, ao percorrermos Machu Picchu, observamos dois setores bem marcados e divididos por um muro de aproximadamente 400 metros: um lado para fins agrários e outro mais urbanístico. A área agrícola é feita de terraços e plataformas que serviam para o cultivo de alimentos.

Há também a possibilidade de visitar os pico de Huayna Picchu (a montanha icônica ao fundo de Machu Picchu), que nos reserva vistas fenomenais para o entorno, mas exige ingresso separado.

Como chegar: uma viagem especial de trem

Cusco, a antiga capital do Império Inca, é a base para acessarmos as maravilhas de Machu Picchu. A maneira mais fácil e tradicional de chegarmos até o local é por meio de trem – mas expedições de trekking de vários dias também são opções para milhares de pessoas todos os anos.

A IncaRail e a PeruRail são companhias de trem que fazem o trajeto até a cidade de Aguas Calientes, a mais próxima de Machu Picchu, em uma viagem que leva em média três horas. Ao chegarmos na cidade, temos de terminar o trajeto por mais meia hora por meio de ônibus credenciados.

Tanto a IncaRail e a PeruRail possuem diferentes tipos de trens para a viagem, dos mais simples aos que possuem até tetos panorâmicos. O portfólio da PeruRail inclui o Belmond Hiram Bingham, trem luxuoso com selo da Belmond que sai da estação de Poroy – a meia hora de Cusco – e nos leva com todo o conforto até Aguas Calientes.

O trem, que recebe o nome do explorador que apresentou Machu Picchu ao mundo, é supersofisticado.

O serviço é feito em vagões reluzentes, com muito uso de madeira polida, e inclui refeição caprichada com direito até a truta limada de entrada e reinterpretação do anticucho, prato tradicional de Cusco e dos Andes peruanos.

Somente esta viagem já é superespecial: as paisagens dos janelões nos oferecem vistas espetaculares das montanhas e da selva à medida que desce às florestas tropicais ao longo do rio Urubamba, a 2,1 mil metros de altitude.

Há ainda um carro de observação, mobiliado com assentos acolchoados, perfeito para admirar a paisagem peruana pelo caminho. Vale dizer que a viagem a bordo do Hiram Bingham é mais cara que outras opções, saindo em média cerca de mil dólares (cerca de R$ 5 mil) em viagens de ida e volta.

A chegada em Aguas Calientes também é um capítulo à parte, já que a parada do trem é literalmente no meio da cidade. É um local bem simples, cheio de lojinhas e pessoas na rua.

Daqui pegamos um ônibus credenciado e percorremos uma estrada íngreme e tortuosa, em que os cenários são estonteantes. No caminho, é incrível pensar que os incas construíram todo um sistema e a cidadela nestas condições – isto no século 15.

Quando visitar Machu Picchu?

O Peru tem duas estações marcantes: seca e úmida. O inverno é o período seco, que vai de abril a outubro. Já o verão é úmido, com chuvas de novembro a março.

Machu Picchu é melhor de ser visitada no inverno, fora da estação chuvosa. De abril a junho ou setembro a outubro são as melhores épocas para visitar – pelo clima e para fugir dos picos de visitação (julho e agosto).

O tempo em Machu Picchu, porém, pode mudar várias vezes: de sol é possível que passe a chover. Ou seja, uma mala com peças impermeáveis e trocas de roupas é essencial. E não esqueça do tênis de caminhada.

*Fique atento à situação de segurança no Peru. A embaixada brasileira informa que entidades sindicais e agremiações políticas têm realizado manifestações e greves de duração indeterminada pelo país desde janeiro de 2023, com manifestações de maior intensidade em Cusco e outras regiões, com prejuízos de deslocamentos.